Política e Resenha — Ensaio

De Johann Strauss a David Assayag:
quando o Danúbio secou e o Amazonas chorou
por José Alcimar de Oliveira
Manaus, AM — agosto de 2026
O índio chorou, o branco chorou
Todo mundo está chorando
A Amazônia está queimando
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror
Virou deserto o meu torrão
Meu rio secou, pra onde vou ô, ô, ô, ô, ô?— Lamento de Raça, toada do poeta Emerson Maia, celebrizada na voz do cantor David Assayag. De Parintins, AM, para o mundo.
C
entrais em importância e grandeza para Europa e Amazônia, de topografias distintas e socialmente ligados à origem e posição de classe a diferenciar colonizador e colonizado, os rios Danúbio e Amazonas hoje partilham e sofrem as consequências da ação predatória que o suicidário sistema do capital imprime sobre seus cursos. Os que navegam um e outro, tanto quanto os barcos que singram suas águas, as azuis da bela valsa de Strauss e as barrentas da não menos bela toada de Assayag, não ocupam o mesmo espaço no noticiário das corporações mediáticas. Se o rio comanda a vida, como diz o título de Leandro Tocantins, é hoje o capital que tem poder de vida e de morte sobre os rios. E quem o diz, nasceu na Comunidade ribeirinha de Bela Vista, em Manacapuru, Amazonas, às margens do portentoso rio Solimões, nome que recebe o Amazonas desde que entra no Brasil até abraçar-se ao rio Negro, nas confluências de Manaus, no mais famoso encontro das águas do mundo.
A desigualdade potâmica
Se a luta de classes incorporasse alguma medida potâmica, saltaria aos olhos a desigualdade dos barcos e dos navegantes que navegam os leitos do Danúbio e do Amazonas. Mesmo que ambos estejam visivelmente eviscerados, o Amazonas, é preciso dizer, não conta com o privilégio de classe de que goza o Danúbio, com generoso espaço na agenda climática mundial e nas telas que dominam a sociedade digital. É bem o contrário. Para trazer Heráclito à cena, não são exatamente iguais aos banhistas do Danúbio as indígenas e os indígenas, as cabocas e os cabocos que se banham no Amazonas que, de forma surda, e sob sórdida omissão da governança local e global, já sofreu quatro secas extremas nesse primeiro quartel do século XXI (2005, 2010, 2015–2016 e 2023–2024).
Os Alpes podem fechar os ouvidos ao choro do grande Amazonas, mas estará imune às queimadas que o capital produz no Sul Global? A fumaça que o falso progresso do Império do Norte e da arrogância eurocêntrica (Hegel já dissera que sua Alemanha era o palco da História Universal) produz no Sul pobre sobe, agora, e de forma infrenável, para o Norte rico. Vivemos os tempos de fumegante globalização.
Brasiléia e Basileia: fronteiras de fumaça
Neste 2026, sob a fase mais bélica do capitalismo global, as queimadas e os processos de ebulição (conceito indicado para substituir o de aquecimento) continuam a desconhecer fronteiras. A fuligem do progresso já torna fronteiriças as cidades de Brasiléia, na Amazônia, e Basileia, na Suíça. Planície e Alpes, socialmente desiguais na geografia e na economia, mesmo em diferentes barcos e sob assimétrica segurança financeira (afinal, há cofres de valores em Brasiléia?), podem partilhar do destino comum que o sistema do capital reserva à vida na Terra. Ao contrário do livro da natureza de Galileu, escrito em caracteres matemáticos, o livro da devastação capitalista escreve-se sob os sinais cinzentos da fumaça, da fuligem e dos destroços do progresso insustentável e sem alma. A Terra parece caminhar para converter-se na Leônia de Italo Calvino, cidade cuja visibilidade da riqueza de seus habitantes não era medida pela posse de bens, mas pela quantidade de lixo descartado.
O corpo inorgânico
O vasto complexo da Amazônia é frágil e as mostras de sua destruição estão diante de nossos olhos. O que lemos num texto juvenil de Marx sobre a natureza podemos aplicar à nossa Amazônia: ela é o nosso corpo inorgânico. Quando dizemos que nos relacionamos com a Amazônia significa dizer que nos relacionamos de forma humana, social e natural, com a nossa própria constituição ontológica. Cada agressão cometida contra o ser natural da Amazônia, seus rios e floresta, é agressão que nos fere como seres humanos e sociais, no corpo e na alma.
A ganância do capitalismo suicidário gera em escala planetária colapso ambiental e barbárie social. A entropia, é certo, é um fenômeno constitutivo da natureza e modulado por um devir natural, mas vem da cultura, e não da natureza, a forma capitalista de produzir e consumir, seguramente a mais entrópica e insustentável de relação do ser humano com a natureza. Segundo o relato bíblico, “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”. Mas Satanás estava à espreita, se materializou nas belas vestes do capital e, quem sabe, aproveitando-se de um cochilo divino, roubou ao Criador, de forma prometeica, o governo da Terra.
A valsa burguesa e o lamento ribeirinho
A arrogância do padrão (insustentável em absoluto) de produção e de consumo capitalista se recusa a escutar a linguagem da natureza. Como já antecipava Walter Benjamin: todo o ser natural por-se-ia em lamento se lhe fosse possível falar a linguagem do ser social. E se proceder a sentença benjaminiana de que o capitalismo não morrerá de morte natural? O meu rio secou, diz o Lamento de Raça da toada. Mas a burguesia adora mesmo é uma valsa. Muitos dirão: tem bom gosto. Não duvido. Mas um bom gosto com elevado preço humano e sobre o qual não pesa nenhuma hipoteca social. Quanta diferença entre a velocidade e a arrogância de um jet ski (isento de IPVA) e a rabeta frágil e vagarosa do ribeirinho. Como nunca naveguei o Danúbio, desconheço se em seu curso é permitido o transporte em rabetas. Mas de algo estou convicto: a atual valsa burguesa é destituída da estética musical e leve de Strauss, porque tecida em notas de horror, de catástrofe, de genocídio, de desinibida insensatez e estupidez.
Filosofia dialética e bélica
Nesses tempos em que a guerra se organiza como forma de terrorismo do Estado capitalista contra os “condenados da terra” e os “esfarrapados do mundo”, para aqui evocar Fanon e Freire, a Filosofia do Materialismo Histórico deve, além de Dialético, estruturar-se de modo Bélico. E antes que recaia sobre mim a censura dos defensores da Magna Pax dos donos do mundo, adianto que jamais defenderia, a priori, substituir as armas da crítica pela crítica das armas. Trata-se, antes, de conferir à formação política o estatuto orgânico da práxis. E nada de excepcional há nisso, haja vista o que o jovem Marx, ainda na primeira metade do século XIX, defendia, ao contrapor-se ao seu velho mestre Hegel, que a teoria só poderá encontrar sua força material nas mãos e mentes da classe trabalhadora, e esta, por sua vez, terá força teórica quando se apossar da Filosofia. Sem isso, não haverá luta de classe, nem social, nem potâmica. Amazonas e Negro, rios cabanos, convocam o Danúbio a se irmanar nessa luta.
Do Danúbio Cinzento ao Amazonas Barrento
Seria possível sair de Strauss, se houvesse conhecido a Amazônia, uma valsa de título o Amazonas Barrento como o equivalente de seu Danúbio Azul? Já não tão azul hoje, quem melhor poderia lamentar (ou cantar) o Danúbio seria uma toada com o estatuto musical da letra e do canto Lamento de Raça, de Emerson Maia e David Assayag. Na impossibilidade dessa toada, de nome o Danúbio Cinzento, com suas vísceras expostas, como recentemente mostrou ao mundo o noticiário corporativo os destroços de cascos enferrujados de navios de guerra afundados pela Alemanha nazista em 1944 nas imediações da cidade de Prahovo, na Sérvia, resta ao Amazonas conclamar todos os rios sob ataque do capitalismo global para organizar uma bacia potâmica, internacionalista e bélica, sem o que morrerão de sede seu distante irmão Danúbio e a rede de caudais e cursos de água doce que dessedentam a vida na Terra.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado (em Educação, 1998) e o doutorado (em Sociedade e Cultura, 2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA — Seção Sindical, e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE).
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