
E o que isso revela sobre o PT
Uma leitura da pesquisa Futura/Apex sobre os cenários estadual e presidencial na Bahia — e sobre o que os números permitem, e não permitem, afirmar.
Por Padre Carlos
Apesquisa Futura/Apex sobre as eleições de 2026 na Bahia produz uma fotografia que merece ser examinada para além da disputa entre nomes. O dado mais importante talvez não esteja simplesmente na vantagem de ACM Neto sobre Jerônimo Rodrigues, mas na distância entre a disputa pelo governo estadual e a preferência do eleitor baiano para a Presidência da República.
Os números são eloquentes.
No cenário estimulado para o governo da Bahia, ACM Neto aparece com 53,0%, enquanto Jerônimo Rodrigues registra 39,8%. No segundo turno, a diferença permanece: 54,1% contra 41,4%. Ao mesmo tempo, Lula alcança 50,6% na disputa presidencial no estado e chega a 56,8% em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro.
| 53,0% |
| 39,8% |
| 1,2% |
| 3,9% |
| 2,1% |
| 54,1% |
| 41,4% |
Essa combinação é politicamente significativa porque mostra que o eleitor pode separar as disputas. Lula pode continuar liderando na Bahia sem que essa preferência seja automaticamente transferida para o candidato do PT ao governo estadual.
E é justamente aí que começa a questão mais interessante.
Não necessariamente estamos diante de uma rejeição absoluta ao governo Jerônimo Rodrigues. A própria pesquisa mostra que 50,3% aprovam a administração estadual, enquanto 44,5% desaprovam. Na avaliação qualitativa, 39,6% consideram o governo bom ou ótimo, 22,1% regular e 35,3% ruim ou péssimo.
| 50,3% |
| 44,5% |
| 39,6% |
| 22,1% |
| 35,3% |
Portanto, seria precipitado interpretar a pesquisa simplesmente como uma condenação administrativa.
O que pode estar aparecendo é algo mais complexo: um sentimento de mudança.
Mudança não significa necessariamente que o eleitor considere o governo atual um desastre. Em democracias, existe uma diferença importante entre reprovar uma administração e desejar alternância no poder.
Um governo pode apresentar aprovação superior a 50% e, ainda assim, encontrar dificuldades para convencer o eleitor de que deve permanecer no comando.
Isso acontece porque a política não é feita apenas de avaliações administrativas. Existe também memória, desgaste, expectativa, desejo de novidade, percepção de segurança, comparação entre governos e, sobretudo, a sensação de que chegou a hora de experimentar outra alternativa.
A pesquisa mostra exatamente esse paradoxo.
Jerônimo possui uma aprovação numericamente expressiva, mas aparece atrás de ACM Neto na intenção de voto. Ao mesmo tempo, o governador lidera a rejeição, com 42,5%, enquanto ACM Neto aparece com 29,1%.
| 42,5% |
| 29,7% |
| 29,1% |
O problema, portanto, não parece ser explicado por um único número.
Há uma combinação de fatores.
O PT governa a Bahia há muitos anos. Essa continuidade criou uma marca política extremamente forte, mas também produz um efeito conhecido na política: o desgaste natural provocado pelo tempo no poder.
Depois de sucessivos governos, a pergunta do eleitor deixa de ser apenas “o governo está bom?” e passa a ser também “o que aconteceria se mudássemos?”.
É a chamada lógica da alternância.
E essa talvez seja uma das chaves para compreender o momento político baiano.
O eleitor pode reconhecer realizações, aprovar determinadas políticas públicas e, simultaneamente, desejar uma mudança de grupo político no Palácio de Ondina.
Não existe contradição obrigatória nisso.
O fenômeno baiano não está isolado
O Ceará oferece um paralelo que merece atenção, embora os dados não possam ser tratados como se fossem uma única pesquisa ou uma comparação estatística direta.
Em julho, uma pesquisa Real Time Big Data apontou Lula com 62% das intenções de voto no Ceará contra 21% de Flávio Bolsonaro. Na disputa pelo governo, entretanto, Elmano de Freitas e Ciro Gomes apareciam muito mais próximos, com 47% contra 45% em um cenário de segundo turno.
Poucos dias depois, pesquisa Genial/Quaest mostrou um quadro ainda mais desafiador para o governador cearense: Ciro Gomes com 43% e Elmano com 33%; no segundo turno, Ciro aparecia com 48% contra 35%.
O paralelo, portanto, está menos nos números exatos e mais na estrutura do fenômeno.
Lula continua extremamente competitivo no Nordeste, enquanto candidatos ligados ao PT enfrentam uma disputa estadual muito mais difícil.
Isso deveria ser objeto de reflexão dentro do Partido dos Trabalhadores.
Durante décadas, o PT construiu no Nordeste uma relação política extraordinária. Lula tornou-se uma liderança muito maior do que o próprio partido. O eleitor que vota em Lula não necessariamente se comporta como um eleitor orgânico do PT.
Essa distinção é fundamental.
O lulismo pode sobreviver a determinadas avaliações sobre administrações estaduais e municipais petistas.
E talvez seja justamente esse um dos grandes desafios da legenda para 2026.
A fadiga do poder
Governar por muito tempo produz conquistas, mas também produz exposição.
Tudo passa a ser associado ao governo: segurança pública, saúde, educação, estradas, empregos, serviços públicos, impostos, infraestrutura e até problemas que nem sempre são de responsabilidade direta do governador.
Depois de anos no poder, torna-se mais difícil apresentar-se como novidade.
É nesse ambiente que a oposição encontra espaço para construir uma narrativa de mudança.
Na Bahia, ACM Neto aparece como beneficiário dessa disposição. Não significa que sua eleição esteja decidida — pesquisa eleitoral é fotografia, não sentença. Significa que existe hoje uma parcela relevante do eleitorado disposta a considerar a alternância.
O dado espontâneo reforça a dimensão da disputa: ACM Neto aparece com 38,6%, Jerônimo com 30,4%, enquanto 23% não souberam responder.
| 38,6% |
| 30,4% |
| 23,0% |
Ou seja, existe ainda um espaço considerável para a campanha, para a definição de votos e para a mudança de posição do eleitor.
A eleição está aberta à disputa política.
“A política costuma mudar não apenas quando o eleitor diz ‘este governo é ruim’. Às vezes, ela muda quando o eleitor simplesmente começa a dizer: ‘Está na hora de experimentar outra coisa.’”
O paradoxo do PT
Talvez a grande pergunta para o PT não seja simplesmente “por que Jerônimo está atrás?”.
A pergunta mais profunda seria:
por que Lula consegue manter uma vantagem tão expressiva enquanto os governos estaduais petistas encontram dificuldades para transformar essa força em votos locais?
A resposta não está necessariamente em um único fator.
Pode envolver desgaste administrativo, segurança pública, percepção econômica, problemas de comunicação, ausência de renovação política, força dos adversários e, principalmente, a diferença entre a imagem nacional de Lula e a avaliação concreta dos governos estaduais.
No Ceará, o PT também enfrenta esse dilema. A imprensa já registrava, antes das pesquisas mais recentes, dificuldades de Elmano e a necessidade de uma estratégia política capaz de aproveitar a força de Lula e de Camilo Santana.
Na Bahia, a situação merece atenção semelhante.
O PT não pode simplesmente presumir que a liderança de Lula será automaticamente transferida para o candidato ao governo.
A pesquisa demonstra justamente o contrário.
| 53,0% |
| 39,8% |
| 50,6% |
| 27,1% |
| 13,2% |
| 23,5% |
| 12,7% |
| 23,6% |
Senado também revela força da marca petista
A disputa pelo Senado apresenta uma realidade diferente.
Rui Costa aparece com 47,5% e Jaques Wagner com 36,0% no cenário estimulado consolidado dos dois votos. João Roma registra 26,7% e Ângelo Coronel, 24,0%.
| 47,5% |
| 36,0% |
| 26,7% |
| 24,0% |
| 5,6% |
| 2,5% |
| 1,5% |
| 31,1% |
| 24,9% |
Isso demonstra que a marca política do PT continua possuindo enorme capacidade eleitoral na Bahia.
Portanto, seria errado interpretar a pesquisa como uma derrocada do PT baiano.
O que aparece é algo mais específico: uma dificuldade maior na disputa pelo governo estadual do que na disputa presidencial e em determinadas candidaturas ao Senado.
Essa distinção é essencial para uma análise responsável.
| 50,6% |
| 27,1% |
| 7,1% |
| 2,8% |
| 1,2% |
| 1,1% |
| 1,0% |
| 56,8% |
| 33,2% |
| 55,9% |
| 35,7% |
| 55,9% |
| 38,8% |
A eleição ainda será construída
Há outro dado que não pode ser ignorado: a pesquisa foi realizada nos dias 24 e 25 de julho, com 1.000 entrevistados e margem de erro de 3,1 pontos percentuais, segundo a metodologia apresentada.
Até a eleição, muita coisa pode acontecer.
Campanhas ainda serão construídas. Alianças serão anunciadas. Candidatos apresentarão propostas. Debates modificarão percepções. A economia poderá influenciar o humor do eleitor. Questões nacionais poderão interferir nas disputas estaduais.
Por isso, transformar uma pesquisa em prognóstico definitivo seria um erro.
Mas ignorar seus sinais seria um erro ainda maior.
O sinal mais importante talvez seja este: o eleitor baiano parece disposto a separar a escolha presidencial da escolha para governador.
E, se esse movimento se confirmar ao longo da campanha, o PT terá diante de si uma das mais importantes questões estratégicas de sua história recente na Bahia.
- Permitem: descrever a fotografia do eleitorado baiano entre 24 e 25 de julho de 2026, com margem de erro de 3,1 p.p.
- Permitem: identificar que o eleitor separa a preferência presidencial da escolha para governador nos cenários medidos.
- Permitem: distinguir aprovação de governo, avaliação de gestão, rejeição e intenção de voto — categorias diferentes entre si.
- Não permitem: prever o resultado da eleição de outubro de 2026.
- Não permitem: afirmar que o eleitorado da disputa presidencial e o da disputa estadual são exatamente o mesmo grupo de pessoas.
- Não permitem: comparar diretamente os números da Bahia com pesquisas de outros estados, institutos ou datas diferentes.
Não basta perguntar se o governo é aprovado.
É preciso compreender se o eleitor ainda deseja que o mesmo grupo continue governando.
Essa é uma diferença sutil, mas decisiva.
A política costuma mudar não apenas quando o eleitor diz “este governo é ruim”.
Às vezes, ela muda quando o eleitor simplesmente começa a dizer:
“Está na hora de experimentar outra coisa.”
E é esse sentimento de alternância — mais do que uma simples rejeição administrativa — que os números desta pesquisa colocam no centro do debate sobre a Bahia em 2026.
Ficha técnica
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Padre Carlos
Análise política · Eleições 2026
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