Memória e Direitos Humanos

Frei Tito: a boca que gritou “Eucaristia” sob choque elétrico
Há 52 anos, em Lyon, um frade de 28 anos encerrava sob a própria mão uma dor que o Brasil recusou-se a encerrar
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á datas que o calendário insiste em devolver, ano após ano, como quem bate à porta de uma casa que preferia esquecer. 10 de agosto é uma delas. Naquele dia de 1974, nos arredores de Lyon, um homem de 28 anos, frade dominicano, filho da Igreja e filho do Brasil, encerrou pela própria mão uma dor que outras mãos — mãos brasileiras, mãos oficiais — haviam começado a talhar em seu corpo anos antes. Chamava-se Tito de Alencar Lima. E o que ele carregava para dentro da morte não era fraqueza. Era o eco de choques elétricos aplicados, deliberadamente, em sua boca — porque ali, diziam os torturadores, era onde ele recebia a Eucaristia.
Pare um instante nessa imagem. Não a atravesse depressa, como se fosse mais uma linha de um relatório histórico entre tantos. Um homem que dedicou a vida a repetir, todos os dias, o gesto mais sagrado da sua fé — abrir a boca para receber o corpo daquilo em que acreditava — teve essa mesma boca escolhida, com precisão cruel, como alvo. Não foi acaso. Foi mensagem. Foi um regime dizendo, através da dor de um só homem, que nada seria poupado, nem mesmo o sagrado.
Um jovem entre livros e barricadas
Antes do horror, havia um rapaz da Juventude Estudantil Católica, movido pela inquietação que também é vocação: a de ler o mundo e nele intervir. Foi para São Paulo estudar Filosofia na USP, onde a fé encontrou a razão e ambas encontraram a rua. Em 1968, o cerco chegou pela primeira vez: preso em Ibiúna, durante o Congresso da UNE, junto de centenas de outros jovens que ousaram se reunir para pensar um país livre. No ano seguinte, o cerco voltou — desta vez definitivo, acusado de manter ligações com a resistência à ditadura.
É difícil, décadas depois, medir o peso exato do que se seguiu. As palavras “tortura”, “Dops”, “Oban” já se gastaram um pouco pelo uso repetido nos livros de história. Mas é preciso resistir a esse desgaste. Cada uma dessas siglas correspondeu, na carne de Tito, a espancamentos, queimaduras, choques elétricos e uma violência psicológica desenhada para destruir não apenas o corpo, mas a própria noção de que existe algo intocável em um ser humano.
“Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre.”
— Frei Tito de Alencar Lima, em denúncia escrita da prisão
Foi da própria cela que Tito encontrou forças — e uma coragem que hoje ainda impressiona — para escrever a denúncia que atravessaria fronteiras e chegaria à imprensa internacional. Não escreveu para se vingar. Escreveu porque calar-se lhe pareceu impossível diante do que via e sentia. E deixou, junto do relato do sofrimento, uma advertência que não perdeu nem um grama de atualidade:
“Num momento como este o silêncio é omissão.”
FREI TITO DE ALENCAR LIMA
Essa frase merece ser lida devagar, porque ela não fala apenas do passado. Fala de cada momento em que alguém, diante de uma injustiça diante dos olhos, escolhe entre falar e se calar. Tito escolheu falar quando falar custava caro. E é esse gesto — mais do que qualquer detalhe biográfico — que faz dele alguém que ainda tem algo a nos dizer.
A liberdade que não libertou
Em dezembro de 1970, Tito foi libertado — trocado, junto de outros presos políticos, pela vida do embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado por grupos de resistência. Foi banido do Brasil, esse país que era, ao mesmo tempo, sua ferida e sua vocação. Passou pelo Chile, pela Itália, até ser acolhido pelos dominicanos na França. Do lado de fora, tudo parecia indicar que a provação havia terminado.
Mas há prisões que as chaves não abrem. A tortura havia deixado a cela física, mas não havia deixado Tito. Profundamente traumatizado, submetido a tratamento psiquiátrico, ele carregava dentro de si uma dor que nenhum exílio, por mais acolhedor, conseguia dissolver. Em 10 de agosto de 1974, aos 28 anos, essa dor venceu. Frei Tito morreu por suicídio nos arredores de Lyon.
É importante dizer isso sem eufemismo e sem sensacionalismo: sua morte não foi uma fraqueza pessoal desconectada da história. Foi, ela também, uma forma de tortura chegando ao seu desfecho mais cruel, anos depois de as sessões terem formalmente cessado. O corpo pode sair da cela. A mente, muitas vezes, continua presa a ela.
Paramentos vermelhos, memória viva
Em 1983, seus restos mortais voltaram ao Brasil. Diante de milhares de pessoas, Dom Paulo Evaristo Arns tornou a denunciar, com a autoridade de quem também enfrentou o regime, a violência da tortura que matou Tito duas vezes — uma na cela, outra em Lyon. Os paramentos litúrgicos daquela celebração eram vermelhos: a cor dos mártires, a cor do sangue que testemunha.
Meio século depois, a memória de Frei Tito continua fazendo o que ele fez em vida: recusando-se a permitir que a Igreja, ou qualquer um de nós, permaneça em silêncio diante da violação da dignidade humana. Seu nome não pertence apenas aos livros de história da ditadura brasileira. Pertence a toda conversa em que se discute, ainda hoje, até onde vai a responsabilidade de quem vê e prefere não ver.
“Se falar é um risco, é muito mais um testemunho.”
— Frei Tito
Que a lembrança desse frade de 28 anos, torturado por aquilo em que mais acreditava, nos ajude a compreender uma verdade simples e, ainda assim, permanentemente urgente: defender os direitos humanos não é uma posição entre outras. É defender a vida.
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Padre Carlos — Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha




