Política e Resenha

Um texto para celebrar o dom da vida de Eduardo Hoornaert

Homenagem • Manaus, agosto de 2026

Pensador longevo, iluminado pela fé e pela razão intuitiva

por José Alcimar de Oliveira

“É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é esta memória que faz toda a nossa vida. […] Sem ela, não somos nada.”

— Luis Buñuel

As
breves linhas que se seguem, até então nunca publicadas, foram inicialmente escritas em 20 de maio de 2025, a pedido de Eduardo Hoornaert, ao me solicitar que escrevesse “umas duas linhas de apreciação” sobre seu livro Jesus de Nazaré: uma Radiografia para além dos Evangelhos, publicado no ano anterior. Na verdade, o texto excedeu em muito o limite das “duas linhas” demandadas, e agora o apresento, modificado, para celebrar o dom da vida de nosso longevo e querido Eduardo Hoornaert.

Desde Manaus, AM, e sem que possa participar presencialmente, encaminho este escrito à minha querida papisa soteropolitana Bernizzeth Zorthea, que teve a feliz iniciativa — logo aceita por muitas e muitos — de organizar uma justa homenagem ao preclaro historiador, teólogo e exegeta, agendada para o dia 22 de agosto de 2026, em Salvador, BA, no Auditório da Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia, no Vale do Canela.

Segundo Feuerbach, a fala costuma se dirigir a pessoas, e a escrita, a espíritos. Ainda que na forma escrita, estas linhas seguem aqui como fala dirigida ao amigo e irmão Eduardo, e a quem, presencialmente ou não, as ler ou participar desse feliz encontro abrigado pela Salvador com estatuto de cidade pontifícia — ou Roma Negra, inclusiva, de todas as cores e religiões, de Dona Canô, Bethânia, Caetano… e segue o sagrado e profano andor. Se pudesse, e com a ajuda do caro irmão no sacerdócio Carlos Roberto, convocaria desde Vitória da Conquista, BA, o labiríntico, genial e iconoclasta Glauber Rocha para cinematizar essa imperdível festa, digna da alegria de Caná da Galiléia, onde Jesus de Nazaré antecipou ao mundo o protótipo de seu Reino, de justiça, paz e solidariedade comunal.

Dom e promessa de futuro no presente histórico

Eduardo Hoornaert, a caminho de completar fecundos 96 anos, conjuga como ninguém, em sua vasta produção intelectual, a força e o sentido de um ousado projeto de vida e o itinerário de uma rica promessa. Sua vida é isso: dom e promessa de futuro no presente histórico. Sua obra, na forma de textos, artigos e livros, é uma construção atravessada pela liberdade de espírito e pelos direitos próprios de uma inteligência em permanente estado de inquietação. Em cada produção, Eduardo se apresenta inteiro, com plena maturidade de um jovem que não aparenta aproximar-se dos 100 anos de vida.

Um livro com a estatura do que nos deu a conhecer em seu Jesus de Nazaré: Uma Radiografia para além dos Evangelhos, de 2025, não poderia nascer senão de quem constroi a existência na contracorrente da história oficial, cioso da liberdade de pensar — a mesma que faz da sabedoria, como escreve Santo Agostinho, “a medida da alma”.

“Acabo de terminar um livro sobre Jesus, cuja redação me ocupou durante os últimos anos… Com 94 anos, tudo fica mais lento para mim, e por isso fico alegre de ter conseguido ainda concluir esse trabalho.”

— EDUARDO HOORNAERT

Com a generosidade, a inteligência e a simplicidade de gente da estatura de Erasmo de Roterdã e de Baruch Spinoza, com quem o autor partilha a mesma origem pátria — tanto quanto uma santidade “herética” e uma devota e saudável heterodoxia —, foi assim que Eduardo Hoornaert, ao me convidar para escrever aquelas “duas linhas de apreciação”, se confidenciou. Há, nessa confissão, algo de Antônio Vieira, quando já sem forças, cego e quase aos 90 anos, se referia à obra que considerava a mais importante de sua vida, a Clavis Prophetarum: desejo de que a morte o encontrasse ainda servindo a essa obra, ao menos no pensamento e na voz, já que não mais nas mãos.

O método como caminho

Foi em Nietzsche, no seu mal lido e menos ainda compreendido Anti-Cristo, que li o mais belo e verdadeiro elogio ao método: o essencial estava em tê-lo encontrado, para então dar início aos trabalhos, pois os métodos são o que há de mais difícil de sustentar contra o hábito e a preguiça. Dentre tantos méritos, o livro de Eduardo Hoornaert tem o de indicar caminhos — e método, em grego, é caminho — para recuperar, alumiar, remover preconceitos e maus hábitos cristalizados pela tradição sobre a vida humana, demasiado humana, de Jesus de Nazaré.

Cultivador da história longa, Eduardo, em seus textos, não se deixa encandear pela fenomenologia do primeiro contato, conceito de Bachelard. Produzir história é desenraizar o que a superfície costuma ocultar. O autor afirma-se convencido de que posicionamentos hoje universalmente aceitos se enraízam, na realidade, em tempos muito remotos, e só poderão ser resolvidos por meio de uma reflexão que cave fundo no nosso passado.

O melhor vinho, como o oferecido por Jesus na Festa de Caná, quando ninguém mais esperava nada de novo, pode ser aquele servido no final. Os textos mais recentes de Eduardo, mesmo os breves, parecem condensar a potência do melhor, numa linguagem de precisão conceitual, força analítica e clareza de ideias — prova disso é seu texto de agosto de 2026, Magnífica cordialidade: um comentário do tipo de governança dos dois últimos papas, onde recupera, com maestria, a força da razão sensível, em confronto com a hegemônica tradição cartesiana e instrumental. A propósito, Chesterton distinguia o poeta, que deseja apenas erguer a cabeça até os céus, do lógico, que insiste em encerrar os céus dentro da própria cabeça.

O Movimento de Jesus e o pão compartilhado

Penso que os recentes escritos de Eduardo Hoornaert, inclusive seu livro de 2025, são devedores epistemológicos do exercício de sua inteligência intuitiva, sempre mais afinada nesses últimos anos, quer como teólogo, quer como historiador ou exegeta. A impressionante inteligência deste longevo belga, que desde 1958 se fez brasileiro, parece seguir um desdobramento fecundo daquilo que ele denomina Movimento de Jesus, título de obra homônima de sua autoria, publicada em 1994.

“O Reino de Deus é pão compartilhado. Nem religião, nem cultura, raça ou nacionalidade, nada impede a precedência do pão nos discursos e nas atuações de Jesus.”

— Eduardo Hoornaert

Mais do que um nome sem lastro ontológico, o Movimento de Jesus é uma sábia e dialética mediação de Hoornaert para compreender as origens do cristianismo e do caminhar cristão desde o mundo dos pobres. A expressão pão e peixe volta o tempo todo em sua obra, pois a atenção de quem passa fome está sempre voltada para a mesa e para a miragem de fartura. O que configurava o paraíso para a cadela Baleia, do Fabiano de Vidas Secas, senão um mundo cheio de preás? O velho comunista Graça seguramente estaria nesse feliz encontro de Salvador.

Um livro para mentes livres

Jesus de Nazaré: Uma Radiografia para além dos Evangelhos é um livro para mentes livres. Nele, a partir da remoção de camadas sedimentadas por uma historiografia prisioneira da ortodoxia e imporosa à dúvida, vemos assomar o Jesus da contradição, como já o mostrara o velho Simeão, e que a força da tradição sempre tratou de ocultar. Somente a um pensador livre das amarras da ortodoxia é dado compreender, desde o mais fundo da existência humana, a força ontológica de um ser livre, como o foi Jesus de Nazaré.

Mais do que iluminista, Jesus foi antes um iluminado, muito antes do iluminismo moderno. Não tinha preconceitos, menos ainda compromissos com os poderes de seu tempo, religiosos ou políticos. Como recorda Frei Mateus Rocha, apoiado em Santo Irineu, Jesus foi o primeiro homem absolutamente livre da história.

A scientia intuitiva

Quase ao fim, embora muito ainda houvesse a dizer, uma palavra sobre a figura humana do Jesus intuitivo, luminosa chave de leitura de que se utiliza Eduardo para apresentar vida e palavra do Nazareno. A inteligência intuitiva, ou scientia intuitiva, é o terceiro e mais elevado estágio a que pode chegar o conhecimento humano, conforme descreve Spinoza em sua monumental Ética. É dessa rica chave de leitura, antecedida pela imaginatio e pela ratio, que Eduardo, com afinada acuidade intelectual, se apropria para desvendar parte da complexidade humana de Jesus de Nazaré.

Radiografar, desvendar ou descobrir o Jesus intuitivo não implica, como bem indica Eduardo, a negação do Jesus mítico, metafórico ou histórico, mas antes a afirmação projetiva de uma forma de compreensão a que poucos conseguem aceder. Não se trata de milagre ou de privilégio gratuito dado a poucos: não se chega ao estágio da ratio intuitiva sem o lento, penoso e gradativo esforço — o conatus spinozista — de ver as coisas sob forma de eternidade, e de tudo ver de modo substancial e necessário, a ponto de atingir o nível do Deus sive Natura.

Memória e celebração

É uma alegria celebrar em vida uma vida memorável como a de Eduardo Hoornaert, exemplo raro de sinergia existencial entre longevidade e memória — memória como dialética fecunda da inventividade e da criação, jamais como reduplicação mecânica do mundo e da história. O que registra o evangelista João nos dá bem a medida do Jesus intuitivo desvendado por Eduardo: Ele não necessitava de testemunho sobre o homem, porque conhecia o que havia na própria natureza humana.

É de posse dessa chave spinozista que Eduardo, na conclusão de seu luminoso e desafiante texto, se refere a Dom Helder Câmara, com quem privou de proximidade, como alguém que, manifestamente, alcançou a ciência intuitiva à qual alude Spinoza.


Eduardo Hoornaert
Teologia
Jesus de Nazaré
Homenagem
Manaus • agosto 2026

José Alcimar de Oliveira

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado em Educação (1998) e o doutorado em Sociedade e Cultura (2011). Teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA — Seção Sindical, e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões, em Manacapuru, AM, e Jaguaribe, em Jaguaruana, CE.

Manaus, AM, agosto de 2026.