Política e Resenha

ARTIGO – MORRER SEMENTE: A UTOPIA É A ÚLTIMA FRONTEIRA DA ESPERANÇA

 

Padre Carlos

Há momentos na história em que os povos deixam de sonhar. Não porque lhes falte inteligência ou capacidade de transformar a realidade, mas porque lhes roubam aquilo que move todas as grandes civilizações: a esperança de que o amanhã pode ser melhor que o hoje. Quando isso acontece, instala-se uma das mais silenciosas derrotas da humanidade. Não é a derrota militar, nem a econômica. É a derrota da imaginação política, da solidariedade e da própria condição humana.

Vivemos exatamente um desses momentos.

Durante décadas, a palavra utopia foi tratada como sinônimo de ingenuidade. Repetiu-se, à exaustão, que o ser humano deveria abandonar os grandes sonhos coletivos e concentrar-se apenas em sua sobrevivência individual. Aos poucos, fomos convencidos de que o mercado resolveria tudo, de que o sucesso seria exclusivamente pessoal e de que cada indivíduo deveria construir sua própria felicidade, ainda que o mundo ao redor permanecesse mergulhado na desigualdade, na injustiça e na indiferença.

Essa talvez tenha sido uma das mais profundas revoluções culturais do nosso tempo. Não aconteceu com tanques nas ruas nem com golpes de Estado. Aconteceu dentro das consciências. A ideia de comunidade foi sendo substituída pela lógica da competição. A cooperação cedeu lugar ao desempenho individual. O cidadão foi transformado em consumidor, e a política, reduzida a um espetáculo de redes sociais.

Mas a história insiste em nos lembrar que nenhuma sociedade se tornou mais justa quando seus cidadãos passaram a pensar apenas em si mesmos.

As grandes conquistas da humanidade nasceram sempre de pessoas capazes de sonhar coletivamente. A abolição da escravidão, os direitos trabalhistas, a educação pública, o voto universal, a previdência social, a liberdade de expressão e tantas outras vitórias não surgiram da acomodação. Foram frutos da inquietação daqueles que ousaram acreditar que o impossível podia tornar-se realidade.

Os jovens que marcaram as décadas de 1960 e 1970 carregavam exatamente esse sentimento. Eram filhos de um tempo em que a política ainda era entendida como instrumento de transformação social. Não desejavam apenas alterar comportamentos ou costumes. Queriam modificar as estruturas que produziam desigualdade, autoritarismo e exclusão. Sonhavam alto. Talvez alto demais. Muitos erraram. Outros pagaram com a prisão, o exílio ou a própria vida. Contudo, havia algo extraordinariamente belo naquela geração: a convicção de que a existência humana só encontra sentido quando está ligada a uma causa maior do que os interesses individuais.

Hoje, essa convicção parece cada vez mais rara.

Vivemos cercados por discursos que exaltam o empreendedor de si mesmo, mas silenciam sobre a responsabilidade de construir uma sociedade mais justa. Multiplicam-se cursos sobre enriquecimento pessoal, enquanto diminuem os espaços de formação cidadã. Crescem os influenciadores digitais; enfraquecem os movimentos sociais. As redes sociais aproximam telas, mas frequentemente afastam consciências.

Quando homens e mulheres deixam de participar de sindicatos, associações comunitárias, partidos políticos, organizações populares, grupos culturais ou iniciativas solidárias, não estão apenas abandonando instituições. Estão abrindo mão de um dos elementos mais importantes da democracia: a experiência de construir o destino comum.

É justamente nesse vazio que prospera o individualismo.

Uma sociedade formada apenas por indivíduos preocupados consigo mesmos torna-se extremamente vulnerável. Sem vínculos comunitários, desaparece a solidariedade. Sem solidariedade, desaparece a confiança. Sem confiança, desaparece a esperança. E quando a esperança morre, resta apenas a resignação diante das injustiças.

É por isso que a utopia continua sendo indispensável.

Ela não representa uma fuga da realidade. Ao contrário, é a recusa em aceitar que a realidade seja definitiva. A utopia é aquilo que mantém os pés firmes no chão enquanto os olhos permanecem voltados para o horizonte. Ela não elimina as dificuldades da caminhada, mas impede que percamos o sentido do caminho.

Os grandes humanistas compreenderam essa verdade. A história nunca avançou porque alguém acreditou que tudo estava perfeito. Ela avançou porque existiram mulheres e homens suficientemente inconformados para imaginar um mundo diferente daquele em que viviam.

Talvez seja exatamente isso que esteja faltando ao nosso tempo: recuperar a coragem de sonhar coletivamente.

Existe uma imagem que sintetiza essa esperança de maneira admirável: a da semente.

A semente aceita desaparecer para que a árvore possa nascer. Seu aparente fim é, na verdade, o início de uma vida muito maior do que ela mesma. Nenhuma árvore lamenta a morte da semente que lhe deu origem. Pelo contrário. É justamente esse desaparecimento que torna possível o florescimento.

Assim também acontece com aqueles que dedicam suas vidas às grandes causas humanas.

Nem todos verão os frutos de sua luta.

Nem todos contemplarão a justiça pela qual trabalharam.

Nem todos experimentarão a sociedade que ajudaram a construir.

Ainda assim, continuam plantando.

É nesse ponto que um antigo provérbio árabe revela uma sabedoria extraordinária: “Quem planta tamareiras não colhe tâmaras.” A tamareira leva décadas para oferecer plenamente seus frutos. Quem a planta sabe que dificilmente desfrutará da colheita. Ainda assim, finca suas raízes na terra, porque compreende que viver não é apenas receber. É também preparar o caminho para aqueles que virão depois.

Essa é a mais profunda definição de compromisso histórico.

Morrer semente não significa fracassar. Significa compreender que a verdadeira grandeza humana não está na quantidade de frutos que colhemos, mas na coragem de plantar árvores cuja sombra protegerá pessoas que jamais conheceremos.

Nossa época precisa desesperadamente redescobrir esse espírito. Precisamos voltar a acreditar que vale a pena construir instituições, fortalecer comunidades, participar da vida pública, defender a democracia, cultivar a solidariedade e educar as novas gerações para algo maior do que o sucesso individual.

Porque uma civilização sobrevive não pelo tamanho de sua riqueza, mas pela grandeza de seus sonhos.

Que nunca permitamos que nos roubem a utopia. Ela é a chama invisível que atravessa os séculos, inspira os inconformados, fortalece os justos e mantém viva a esperança dos povos.

Se um dia não estivermos presentes para celebrar a colheita, que ao menos possamos partir com a serenidade de quem cumpriu sua missão: lançar sementes na terra fértil da história. Porque são elas que, silenciosamente, anunciam a chegada de um novo tempo.

Padre Carlos