Política e Resenha

O Mistério do Retrato de João Gonçalves da Costa:  A Verdadeira História por Trás da Pintura que Virou Símbolo de Vitória da Conquista

 

 A Verdadeira História por Trás da Pintura que Virou Símbolo de Vitória da Conquista

Durval Lemos Menezes

 

Se fosse possível registrar a história de Vitória da Conquista por meio da imagem de seu fundador, esse registro certamente passaria pela figura de João Gonçalves da Costa, reconhecido como o desbravador e fundador da cidade.

Tudo o que sabemos sobre João Gonçalves da Costa chegou até nós por meio da tradição oral, de relatos transmitidos de geração em geração. Entretanto, nunca existiu uma fotografia sua. E, ainda assim, todos os conquistenses conhecem o famoso retrato de João Gonçalves da Costa, exposto no Memorial Régis Pacheco, antigo Museu dos Prefeitos.

Ali estão reunidas as fotografias de praticamente todos os intendentes e prefeitos de Vitória da Conquista. No entanto, logo na entrada, o visitante é recebido por um grande retrato de João Gonçalves da Costa, figura que antecede todos os demais administradores da cidade.

Surge, então, uma pergunta inevitável: se nunca existiu uma fotografia de João Gonçalves da Costa, como foi possível produzir aquele retrato que se tornou a imagem oficial do fundador da cidade? Quem é, afinal, o homem retratado naquela pintura reproduzida em livros, trabalhos escolares, pesquisas acadêmicas e obras sobre a história conquistense?

A resposta revela uma das mais belas histórias da preservação da memória de Vitória da Conquista.

O idealizador dessa obra foi Marcelo Flores, importante empresário da construção civil na Bahia, especialmente em Salvador. Filho de Vitória da Conquista, apaixonado pela literatura e, sobretudo, pela história de sua terra natal, Marcelo desejava que o fundador da cidade tivesse uma representação digna de sua importância histórica.

Para realizar esse projeto, convidou um dos maiores artistas plásticos de Vitória da Conquista: o mestre Orlando Celino.

Mas havia um enorme desafio. Como pintar o retrato de um homem cuja verdadeira aparência jamais havia sido registrada?

Foi justamente nesse momento que entrou em cena a genialidade artística de Orlando Celino. Sob a orientação de Marcelo Flores, iniciou-se uma verdadeira pesquisa genealógica. Procuraram-se descendentes de João Gonçalves da Costa, analisando suas características físicas para tentar reconstruir, de maneira artística e plausível, a imagem do fundador.

O artista utilizou como referência o rosto do Coronel Gugé, descendente de João Gonçalves da Costa. Seu perfil físico serviu como base para as primeiras pinceladas que moldaram o formato do rosto.

Depois, incorporou traços faciais de Pedral, também descendente da família, enriquecendo ainda mais a composição.

Os cabelos vieram da figura inconfundível de Elomar Figueira Mello, um dos maiores compositores e cantadores do Brasil, igualmente descendente de João Gonçalves da Costa. Assim, pouco a pouco, o rosto do fundador de Vitória da Conquista foi ganhando forma.

Mas ainda faltava um elemento essencial: o vestuário.

Como ninguém sabia exatamente como João Gonçalves da Costa se vestia, Orlando Celino buscou inspiração em uma fonte curiosa e inesperada: as antigas estampas colecionáveis que acompanhavam as caixas do tradicional Sabonete Eucalol.

Durante décadas, essas estampas ilustraram heróis nacionais, personagens históricos, animais, plantas e cenas marcantes da história do Brasil. Entre elas havia a figura clássica de um bandeirante, vestido com chapéu, botas, espada e o traje característico da época das expedições pelo interior do país.

Foi exatamente essa imagem que serviu de modelo para compor o corpo de João Gonçalves da Costa. O rosto reconstruído a partir de seus descendentes foi unido ao vestuário do bandeirante representado na estampa do Sabonete Eucalol, dando origem ao retrato que hoje simboliza o fundador de Vitória da Conquista.

É essa pintura a óleo que permanece exposta no Memorial Régis Pacheco, admirada diariamente por visitantes e reproduzida inúmeras vezes em livros, pesquisas, trabalhos escolares e publicações sobre a história da cidade.

Pouca gente imagina que, por trás daquele retrato tão conhecido, existe uma curiosa combinação de pesquisa histórica, talento artístico, genealogia familiar e até mesmo uma antiga estampa do Sabonete Eucalol.

A cidade deve essa importante reconstrução histórica ao talento extraordinário de Orlando Celino, cuja sensibilidade artística transformou fragmentos da memória em uma imagem que atravessou gerações.

Também deve reconhecer a visão e o compromisso de Marcelo Flores, cuja iniciativa permitiu que Vitória da Conquista tivesse uma representação simbólica de seu fundador.

Mais do que uma pintura, aquele retrato tornou-se um patrimônio da memória conquistense, lembrando que, muitas vezes, a história é preservada não apenas pelos documentos, mas também pela criatividade, pela pesquisa e pela arte.