Política e Resenha

Conquista Nunca Foi Cidade Violenta: o Resgate de uma Injustiça Histórica

Opinião

Por que o rótulo que marcou Vitória da Conquista em meados do século passado nunca correspondeu à sua verdadeira história — e por que chegou a hora de reescrevê-la.

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ouve um tempo em que bastava pronunciar o nome de Vitória da Conquista para que se erguesse, na imaginação de quem ouvia, a sombra de uma cidade perigosa. Nos anos 50, jornais chegaram a estampar um apelido cruel: “Conquista, a cidade do crime”. A frase pegou. Atravessou décadas, instalou-se no imaginário popular, virou quase um fato consumado. Mas um apelido não é uma verdade — e a verdade, quando se debruça sobre os números e os fatos, conta uma história bem diferente daquela que a fama construiu.

É hora de fazer esse resgate com honestidade e rigor. Porque Vitória da Conquista, comparada com rigor e justiça ao que se passou em tantas outras cidades do Brasil e da própria Bahia, nunca foi, de fato, uma cidade violenta. Foi, isso sim, uma cidade que cresceu depressa demais para que sua reputação acompanhasse sua realidade.

Uma Cidade no Cruzamento do Brasil

Não é acaso que o nome de Conquista tenha se misturado, por tanto tempo, à palavra crime. A cidade nasceu em uma posição geográfica privilegiada: é por suas estradas que se cruzam o Norte, o Sul, o Leste e o Oeste do Brasil e da Bahia. Esse entroncamento, somado a um crescimento econômico que a tornou uma das cidades mais ricas do Nordeste, naturalmente atraiu também os problemas que acompanham toda prosperidade — inclusive, por vezes, os criminosos que seguem o dinheiro por onde quer que ele circule.

Mas atrair de passagem não é o mesmo que abrigar. E é exatamente essa distinção que a história de Conquista exige que façamos.

“Conquista foi taxada como cidade violenta — mas a violência que de fato marcou sua fundação não veio de seu povo. Veio dos bandeirantes João da Silva Guimarães e João Gonçalves da Costa, contra os índios que já habitavam o sertão da ressaca. Uma violência que não se justifica, mas que, tristemente, se repetia em todo o território nacional daquele tempo.”

Os Números Que Ninguém Contou

Se formos honestos com os fatos, o capítulo mais sangrento da história de Conquista soma três episódios: a chamada “guerra” entre Peduros e Meletes — que, apurada com precisão, foi uma briga entre famílias com apenas duas mortes; a disputa entre Olímpio e Dino Correia, com 17 vítimas; e a tragédia da Fazenda Tamanduá, tantas vezes repetida como “guerra”, que deixou 22 mortos. Somados, são 41 óbitos no período mais violento da história conquistense.

Compare-se isso ao que aconteceu, na mesma época, em outros rincões do país e do próprio estado da Bahia.

Na cidade do Crato, no Ceará, uma briga entre coronéis deixou 147 mortos e mais de 200 feridos.

Na Chapada Diamantina, as disputas entre a família do coronel Horácio de Matos e a do coronel César de Sá somaram mais de 300 mortos — sendo mais de 500 vítimas somente na cidade de Lençóis, hoje um dos destinos turísticos mais admirados da Bahia.

Em Pilão Arcado, as disputas lideradas pelo coronel Franklin Lins de Albuquerque — pai do intelectual Wilson Lins — resultaram em mais de 600 mortes.

Enquanto essas cidades acumulavam centenas de vítimas em disputas de coronéis, Conquista somava 41 mortes em toda a sua história de conflitos mais duros — episódios que, é preciso dizer, foram movidos por questões políticas e de honra, muitas vezes executados por pistoleiros a serviço de interesses privados, e não pela criminalidade urbana que o apelido sugeria.

A Injustiça de um Rótulo

Foi uma injustiça histórica batizar Conquista como “a cidade do crime”. Uma injustiça que ainda hoje ecoa em conversas, em piadas de mau gosto, em preconceitos que atravessam gerações sem nunca terem sido de fato confrontados com os números. Basta olhar, em contraste, para o presente: a menos de 30 quilômetros de Vitória da Conquista está a progressista Barra do Choça, cujos crimes ligados ao mundo das drogas, somados apenas nos últimos dez anos, já superam o total de mortes de todo o período dos coronéis conquistenses.

E, no entanto, é Conquista quem carrega o peso do rótulo. Basta abrir os jornais e observar as manchetes de Salvador, Itabuna, Camaçari ou Teixeira de Freitas: Vitória da Conquista, sistematicamente, está ausente dessas páginas de violência. Não por acaso, mas porque o crime organizado, felizmente, ainda não encontrou nela um terreno fértil.

Uma Cidade Nascida em Nome da Fé

Talvez seja hora de recuperarmos, com orgulho, os nomes que Conquista de fato mereceu ao longo de sua trajetória: a cidade do café, a capital do Sudoeste Baiano, a joia do sertão. Nomes que dizem muito mais sobre sua verdadeira identidade do que qualquer manchete sensacionalista dos anos 50.

Afinal, Conquista nasceu sob o signo do cristianismo — é a cidade de Nossa Senhora da Vitória. E é essa vocação de paz, mais do que qualquer estatística isolada de um passado distante, que deveria definir como contamos sua história daqui em diante.

Vitória da Conquista não é, nunca foi, a cidade do crime.

É a cidade da paz — construída pelo seu povo, sustentada pela sua fé, e injustamente apagada por um apelido que os números sempre desmentiram.

HISTÓRIA
VITÓRIA DA CONQUISTA
MEMÓRIA REGIONAL
OPINIÃO

— Artigo de opinião, com base no resgate histórico e comparativo dos episódios de violência que marcaram Vitória da Conquista e outras cidades do Brasil e da Bahia no século passado.