Política e Resenha

Uma breve história política de Vitória da Conquista

Opinião · Política Regional

Do socialismo da “trincheira da oposição” ao pragmatismo de hoje: a memória política de uma cidade que aprendeu, na dor e na experiência, a mudar de ideia.

Durval Lemos Menezes

Tudo nasce, cresce, se transforma e, um dia, morre. Até aquilo que a ciência de Lavoisier descreveu como eterno em sua matéria — nada se cria, nada se perde, tudo se transforma — carrega, ainda assim, um fim de forma. Com a política não é diferente. E talvez seja este o primeiro segredo que todo cidadão deveria conhecer sobre o poder: ele não é uma posse. É uma estação.

Deixe-me sussurrar uma verdade que a maioria evita dizer em voz alta: os grupos políticos vivem um ciclo, como qualquer organismo. Têm sua primavera de conquistas, seu verão de estrelato, seu outono de desgaste e, inevitavelmente, seu inverno de esquecimento. Em Vitória da Conquista, esse ciclo não apenas existiu — ele moldou o destino de uma cidade inteira.

A capital regional que virou território de disputa

Não é por acaso que Conquista sempre atraiu os olhares do poder. Sua posição geográfica privilegiada, sua força de capital regional que reúne a convergência de mais de cem municípios, transformou a cidade em peça estratégica no tabuleiro político da Bahia. Quem controla Conquista, historicamente, controla influência sobre um território que vai muito além de seus próprios limites.

E foi nesse tabuleiro que a cidade construiu, ao longo de décadas, sua identidade como reduto histórico da esquerda.

“Depois da Revolução de 64, o maior líder político da história de Vitória da Conquista foi preso, acusado de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro — acusação que nunca correspondeu à verdade.”

José Pedral Sampaio recebeu, como candidato, o apoio de militantes comunistas. Mas apoio não é filiação, e simpatia não é doutrina. Ainda assim, a prisão de Pedral bastou para que Conquista fosse rotulada, e o rótulo, uma vez colado à pele de uma cidade, é difícil de arrancar.

O preço de uma trincheira

Depois de Pedral, veio o médico Dr. Jadiel Matos, que fazia questão de repetir, em discursos públicos, que Conquista era “a trincheira da oposição”. Uma frase de efeito. Bonita para um palanque. Devastadora para uma cidade que precisava de estradas, hospitais e recursos federais.

Enquanto o prefeito se orgulhava de sua trincheira, ministros, governadores e até presidentes da República passavam por Conquista sem serem recebidos pelo poder público municipal. Quem os recebia, na prática, era o empresário Renato Vaz — porque o Estado, aquele que distribui verbas e prioriza municípios, não abre suas portas para quem lhe declara guerra.

Este é o ponto de virada desta história: uma cidade não perde obras federais por falta de mérito. Perde por excesso de discurso. E Conquista pagou, por anos, o preço simbólico de uma bandeira ideológica hasteada com mais paixão do que estratégia.

Quando a bandeira muda de mão

A própria liderança de Pedral, com o tempo, aproximou-se de Antônio Carlos Magalhães, um dos nomes mais emblemáticos da direita baiana. Mas antes dele, foi Nilton Gonçalves quem ergueu pela primeira vez a bandeira socialista na cidade, em uma campanha memorável de “um tostão contra um milhão”. Décadas depois, o mesmo Aníbal também migraria para o campo político oposto.

E há um capítulo ainda mais revelador: militantes e profissionais liberais que foram perseguidos e torturados durante a luta pela democratização, indenizados posteriormente pelo Estado com somas expressivas, hoje figuram, alguns deles, entre os quadros da direita conquistense. O Dr. Nude, um dos engenheiros mais competentes que o Brasil já teve, é hoje um homem que se declara publicamente de direita.

Não conto isso para julgar. Conto para mostrar algo maior: a política não é uma fé imutável. Ela é fruto do tempo, da experiência, da maturação da inteligência humana diante da própria vida. Quem muda de posição não trai uma causa — muitas vezes, apenas aprendeu algo que a juventude ainda não sabia.

A cidade que pensa com o próprio cérebro

Hoje, Vitória da Conquista já não é aquela “trincheira da oposição” descrita por um ex-prefeito com orgulho de barricada. A cidade amadureceu. E a maturidade política de um povo não se mede pela bandeira que ele hasteia, mas pela capacidade de escolher com discernimento, sem amarras ideológicas herdadas do passado.

Conquista não pertence mais a nenhuma trincheira. Pertence a um povo que aprendeu a andar com seus próprios pés — e a pensar com sua própria cabeça.

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Artigo de opinião — as ideias aqui expressas refletem uma leitura pessoal da trajetória política conquistense.

Notas do Autor
Durval Lemos Menezes nasceu em Iguá, distrito de Vitória da Conquista (BA). Sociólogo, geógrafo, professor, escritor e pesquisador da história regional, dedicou mais de 35 anos ao magistério e exerceu importantes funções na educação pública baiana, entre elas diretor de escolas, secretário municipal de Educação e Cultura de Vitória da Conquista e diretor da 20ª Diretoria Regional de Educação (DIREC/20).
Formado em Ciências Sociais, especializou-se em Geografia e Sociologia. Também atuou na administração pública estadual como chefe da Assessoria da 13ª Região Administrativa da Casa Civil do Governo da Bahia.
Membro da Academia de Letras de Vitória da Conquista e da Associação dos Sociólogos da Bahia, é autor de obras voltadas à literatura e à história regional, entre elas O Poeta do Mulungu, A Conquista dos Coronéis e O Pedralismo: um Fenômeno Social. Seu trabalho constitui uma importante contribuição para a preservação da memória e da identidade histórica do sudoeste baiano.