Política e Resenha

Suíça Baiana: um título que não é nosso, é de Caetité

Memória, educação e civilização no sertão baiano

O
título Suíça Baiana não é nosso, é de Caetité. Vamos fazer aqui um esclarecimento com relação a esse termo, a essa expressão suíça-baiana. Sabemos que a Suíça é um país geograficamente pequeno, mas gigante no seu posicionamento como nação, como país de progresso e de cultura, principalmente cultura. Estamos sempre vendo e ouvindo, através da mídia, que o Estado da Bahia é campeão em analfabetismo, e sabemos que o Brasil mantém um posicionamento entre as nações subdesenvolvidas, com baixa escolaridade e uma péssima cultura geral. Entretanto, é a Suíça que empresta hoje o codinome para a nossa cidade de Suíça Baiana.

Aquele país situado na Cordilheira dos Alpes suíços é belíssimo em todos os seus aspectos: aspecto físico, aspecto cultural, aspecto de civilização, aspecto de um povo pacífico, exemplo para o mundo. Há mais de cem anos que não existe um só analfabeto na Suíça. É um país respeitado e admirado, não pelo seu tamanho, não pelo seu posicionamento político de agressividade — é um país exemplo para o mundo pela sua civilização.

Todos os países que não encontraram o caminho do desenvolvimento, do progresso e, principalmente, da civilização, gostariam de ser uma Suíça. E, dos nossos mais de cinco mil municípios brasileiros, a maioria certamente gostaria de receber esse título de cidade suíça: suíça brasileira, suíça pernambucana, suíça cearense, suíça paulista e, sim, a suíça baiana. Mas vamos aqui esclarecer quem, de fato, tem esse título honrosamente e por merecimento.

“Quem de fato tem esse título honrosamente e por merecimento é a nossa querida e culta cidade de Caetité, do Sertão da Bahia.”

Caetité, a verdadeira Suíça Baiana

É Caetité que, nos anos 50, foi merecidamente considerada com o título do codinome de Suíça Baiana. Naquela época, nos anos 40 e 50, Vitória da Conquista ainda era uma cidade provinciana, com vontade de crescer, de se desenvolver, de se tornar uma cidade culta — mas com muitas dificuldades na sua formação de origem.

Naquela época, quando em Conquista as esposas dos homens ricos — principalmente fazendeiros, coronéis e comerciantes — eram, quase na sua totalidade, analfabetas, em Caetité, nesse mesmo período, as filhas de empregadas domésticas já eram professoras de bom nível de cultura. Não estamos aqui desmerecendo ninguém; muito pelo contrário: essas filhas de domésticas de Caetité ajudaram a alfabetizar e a desenvolver culturalmente Vitória da Conquista, e não somente Conquista, mas todo esse sertão de Nosso Senhor do Bom Jesus.

Enquanto Conquista só tinha o antigo curso primário, Caetité já se destacava culturalmente com uma Escola Normal — e, diga-se de passagem, uma Escola Normal de altíssimo nível de preparação pedagógica, invejável a muitas faculdades espalhadas por esse Nordeste e por outras partes do Brasil. Foi a cidade de Caetité que educou Vitória da Conquista.

O padre Palmeira e o Ginásio que mudou Conquista

Em 1940, o padre Luiz Soares Paulo Palmeira — alagoano, nascido no Rio de Janeiro porque seu pai, na época, era senador — fez os seus votos como padre na cidade de Caetité. Lá, o padre Palmeira criou um ginásio. Nesse mesmo ano, foi convidado pelos coronéis de Conquista para criar aqui um ginásio e ajudar a educar a juventude conquistense. O padre transferiu então o seu ginásio para esta cidade, dando início à trajetória educacional de Vitória da Conquista.

Grandes nomes da época passaram por essa escola: Orlando Leite, primeiro classificado no curso de admissão do Ginásio do Padre; Newton Gonçalves, de grande cultura política, jurídica e poética; e Ubirajara Pereira Brito, que chegou a ser cientista da ONU — todos formados com os professores que vieram de Caetité.

Os mestres que Caetité enviou a Conquista

Professor Moura, autor de duas gramáticas, uma grega e uma latina.

Professora Beatriz, já formada em Letras nos anos 40.

Professor Everardo Público de Castro, o primeiro a fazer esclarecimento político para os estudantes.

Antônio Tanajura, professor de francês formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Professor Arnaldo, responsável pela escola de datilografia — no seu tempo, tão decisiva para uma carreira quanto um diploma de computação é hoje.

Quem, nesta cidade, sabe latim e sabe grego? Foram muitos e muitos os mestres vindos de Caetité. Concluindo: Conquista deve, do ponto de vista educacional e cultural, muito mais a Caetité do que à própria capital do nosso Estado, Salvador. Por isso, foi Caetité quem primeiro recebeu o codinome de Suíça Baiana.

Um título usurpado

Foi alguém que, sem entender a história da nossa região, terminou usurpando essa condição de Suíça Baiana e a atribuiu a Conquista, justificando que a cidade teria um clima parecido com o da Suíça — um clima frio, de montanha. Esqueceram que o clima de Caetité é praticamente o mesmo de Conquista, o que não justifica o exemplo. Caetité é a Suíça Baiana não apenas pelo clima frio, mas, principalmente, pelo seu alto nível de cultura e de civilização.

Essa é a explicação sobre essa Suíça Baiana, cujo título não é nosso — o título é de Caetité. Hoje já podemos pensar em Conquista como Suíça Baiana, porque foi Caetité quem educou e civilizou a população desta cidade.

Conquista hoje

Conquista, hoje, pode-se dizer, é uma cidade desenvolvida dentro dos seus padrões como cidade brasileira, nordestina e baiana. Podemos dizer que Conquista é a Suíça Baiana, mas é preciso fazer a ressalva, é preciso esclarecer que esse termo não é nosso — é de Caetité.

Conquista é hoje uma cidade desenvolvida em todos os aspectos, principalmente no campo educacional e cultural, com um dos melhores índices de desenvolvimento da educação municipal, sendo referência nessa área. É uma cidade universitária, com várias faculdades presenciais, duas academias de letras, dezenas de espaços culturais e diversos movimentos de manifestações culturais espalhados por todos os bairros da cidade. Conquista, hoje, pode-se dizer, é uma cidade civilizada e culta — mas o título Suíça Baiana não é nosso, é de Caetité.

Memória Regional
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Educação
Sertão da Bahia

Durval Lemos Menezes

— Resgatando a memória do nosso sertão, com respeito a Caetité e a Vitória da Conquista.