Política e Resenha

ARTIGO — A BAHIA ENTROU EM UMA ELEIÇÃO DE CORAÇÃO DIVIDIDO

(Padre Carlos)

A Bahia acaba de receber um daqueles sinais que transformam uma eleição em disputa de verdade. A nova pesquisa Real Time Big Data coloca ACM Neto e Jerônimo Rodrigues praticamente lado a lado na corrida pelo Governo da Bahia. No primeiro turno, ACM aparece com 44% contra 42% de Jerônimo. No segundo, 45% contra 44%. É empate técnico e, mais do que isso, é o retrato de uma eleição que promete ser uma das mais disputadas dos últimos anos.

O dado mais importante da pesquisa talvez não esteja nos dois pontos de vantagem de ACM Neto, mas naquilo que eles revelam: a eleição de 2026 não será simplesmente uma repetição da eleição de 2022.

Há quatro anos, a política baiana estava profundamente conectada à disputa nacional entre Lula e Jair Bolsonaro. Jerônimo Rodrigues não disputava apenas contra ACM Neto; disputava também dentro de uma eleição nacional altamente polarizada. O vínculo com Lula era um ativo eleitoral de enorme dimensão para o candidato petista.

Agora, o cenário é diferente.

Lula continua sendo uma força política importante na Bahia e seria equivocado dizer que seu peso desapareceu. Mas existe uma diferença fundamental: Jerônimo precisa defender a própria gestão. A eleição deixa de ser apenas uma escolha entre campos políticos nacionais e passa a ser, cada vez mais, um julgamento sobre o governo da Bahia.

E é justamente aí que começa a verdadeira batalha eleitoral.

O PT governa a Bahia há cerca de duas décadas. Esse longo ciclo de poder é, ao mesmo tempo, uma extraordinária demonstração de força política e uma fonte inevitável de desgaste. Governos longos acumulam obras, programas, realizações e bases políticas, mas também acumulam problemas, promessas não cumpridas, críticas e uma parcela do eleitorado que começa a desejar mudança.

O eleitor pode gostar do governo e, ainda assim, querer mudar.

Essa é uma das grandes contradições que Jerônimo Rodrigues terá de enfrentar.

O governador tem procurado correr atrás desse desgaste, ampliar sua presença política, mostrar realizações administrativas e apresentar-se como alguém capaz de conduzir a Bahia para uma nova etapa. A estratégia é clara: impedir que a eleição se transforme em um plebiscito sobre os vinte anos de domínio petista e fazer com que o eleitor julgue especificamente o seu governo.

É uma tarefa difícil.

Porque toda eleição de continuidade carrega uma pergunta inevitável: o que precisa continuar e o que precisa mudar?

É nessa pergunta que ACM Neto tenta construir seu espaço.

O ex-prefeito de Salvador tem procurado apresentar sua candidatura como um projeto alternativo de poder, explorando exatamente os pontos em que o eleitor demonstra insatisfação com o ciclo petista. Em vez de simplesmente disputar a eleição contra Jerônimo, sua estratégia passa por transformar a disputa em uma escolha entre continuidade e mudança.

E esse é um discurso que pode ganhar força à medida que a campanha avançar.

ACM Neto precisa convencer o eleitor de que não representa apenas uma oposição ao PT, mas uma alternativa viável para governar a Bahia. Essa diferença é fundamental. Ser contra o governo é uma coisa; convencer o eleitor de que se está preparado para substituí-lo é outra.

A pesquisa mostra que essa narrativa está encontrando espaço.

Mas também mostra que Jerônimo não está derrotado.

Muito pelo contrário.

O governador aparece praticamente empatado com ACM Neto e demonstra que possui uma base eleitoral sólida. A força histórica do PT na Bahia continua existindo. O partido possui uma estrutura política ampla, prefeitos, vereadores, deputados, lideranças regionais e uma relação histórica com uma parcela expressiva do eleitorado baiano.

Além disso, a presença de Lula continuará sendo um elemento importante durante a campanha.

O que mudou é que Lula já não pode ser considerado sozinho o fator decisivo da eleição estadual.

Em 2022, Jerônimo chegou ao segundo turno com 49,33% dos votos válidos e ACM Neto com 40,88%. No segundo turno, Jerônimo venceu com 52,54%, contra 47,46% de ACM Neto. A diferença final foi de pouco mais de 407 mil votos.

Foi uma vitória expressiva, mas não foi uma vitória esmagadora.

E é justamente essa memória que torna a eleição de 2026 tão interessante.

Quatro anos depois, os dois personagens voltam a se encontrar em condições muito diferentes. ACM Neto carrega a experiência de uma derrota que o obrigou a reorganizar seu projeto político. Jerônimo, por sua vez, deixou de ser o candidato apoiado pelo governador e passou a ser ele próprio o governador, com todos os bônus e ônus que isso representa.

A eleição, portanto, deixou de ser apenas uma disputa entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues.

Ela começa a assumir a forma de uma disputa entre continuidade e mudança.

E talvez seja esse o verdadeiro tema da eleição baiana.

O sentimento de mudança não significa necessariamente rejeição absoluta ao PT. O eleitor pode reconhecer avanços produzidos durante os anos de governo petista e, ao mesmo tempo, considerar que chegou a hora de experimentar outro projeto político.

Da mesma forma, o desejo de mudança não significa automaticamente que ACM Neto vencerá.

O eleitor precisa acreditar que a alternativa é melhor que a continuidade.

É aí que estará o grande desafio do ex-prefeito de Salvador.

ACM Neto terá de transformar o desgaste do PT em votos. E isso não é automático. Precisará apresentar propostas, construir uma imagem de governo, ampliar sua presença no interior e convencer setores que ainda possuem resistência ao seu nome.

Jerônimo, por outro lado, terá de fazer algo igualmente complexo: defender vinte anos de PT sem parecer prisioneiro de vinte anos de PT.

Terá de mostrar que seu governo não é apenas a continuação de Rui Costa, Jaques Wagner e de toda uma longa história administrativa do partido, mas que existe uma identidade própria em sua gestão.

Essa talvez seja a maior batalha narrativa de 2026.

De um lado, “é hora de mudar”.

Do outro, “é preciso continuar avançando”.

No meio dessas duas frases estará o eleitor baiano.

E há algo ainda mais importante: a campanha está apenas começando a revelar seu potencial de polarização. Pesquisas anteriores já haviam mostrado uma disputa competitiva, embora com diferenças maiores em determinados levantamentos. O próprio Real Time Big Data havia registrado, em março, ACM Neto à frente de Jerônimo por 44% a 39%.

Agora, a distância praticamente desapareceu.

Isso significa que nenhum dos dois candidatos pode cantar vitória.

A eleição da Bahia caminha para ser uma das mais acirradas dos últimos anos. Talvez ainda mais disputada que a de 2022, quando Jerônimo derrotou ACM Neto por pouco mais de quatrocentos mil votos.

E existe uma diferença fundamental entre aquela eleição e a atual: agora os dois sabem exatamente o tamanho do adversário.

ACM sabe que pode perder novamente.

Jerônimo sabe que pode perder o governo.

E o eleitor sabe que sua decisão terá consequências.

Por isso, a pesquisa desta terça-feira não deve ser interpretada como uma fotografia definitiva de quem vencerá a eleição. Ela deve ser compreendida como um alerta.

A Bahia está dividida.

O PT continua forte, mas já não pode depender exclusivamente da força de sua marca histórica e da associação com Lula. ACM Neto possui uma alternativa eleitoral competitiva, mas ainda precisa transformar o desejo de mudança em confiança para governar.

Entre a continuidade e a mudança, entre a experiência de vinte anos e a promessa de um novo ciclo, entre Jerônimo e ACM Neto, a Bahia começa a entrar naquela fase em que cada voto passa a ter um peso extraordinário.

E se a pesquisa estiver captando corretamente o humor do eleitorado, uma coisa já parece evidente:

em 2026, ninguém poderá dizer que a eleição da Bahia está ganha antes de a última urna ser aberta.