QUANDO A POLARIZAÇÃO VIRA ESTRATÉGIA ELEITORAL
João Roma e Jerônimo podem estar em lados opostos, mas diante de um mesmo interesse: nacionalizar a eleição baiana
Por Padre Carlos
Há momentos em que adversários políticos, mesmo separados por diferenças ideológicas profundas, podem descobrir que a mesma lógica eleitoral lhes interessa. Não porque tenham feito um acordo, nem porque estejam trabalhando juntos, mas porque o ambiente político pode favorecer simultaneamente estratégias aparentemente antagônicas.
É essa hipótese que começa a merecer atenção na eleição de 2026 na Bahia: Jerônimo Rodrigues e João Roma podem estar buscando, por caminhos completamente diferentes, um mesmo fenômeno político — a polarização da disputa.
De um lado está o governador Jerônimo Rodrigues, candidato à reeleição pelo PT e beneficiário político da forte presença de Luiz Inácio Lula da Silva no imaginário eleitoral baiano. Do outro, João Roma, presidente estadual do PL e candidato ao Senado, procurando transformar o eleitorado bolsonarista em uma força eleitoral capaz de garantir-lhe uma das duas cadeiras que estarão em disputa no Senado.
Não é preciso imaginar uma conspiração para perceber a lógica.
A força de Lula e o cálculo de Jerônimo
A política eleitoral funciona muitas vezes pela convergência de interesses. Se uma eleição polarizada favorece determinado candidato, esse candidato terá naturalmente incentivos para reforçar os elementos que produzem a polarização. E é justamente aí que a eleição baiana de 2026 pode ganhar uma dimensão nacional muito maior do que a disputa pelos cargos estaduais sugeriria.
Jerônimo conhece a força de Lula na Bahia. Em 2022, quando ainda era um candidato relativamente pouco conhecido do eleitorado, conseguiu chegar ao segundo turno com 49,33% dos votos válidos e terminou eleito com 52,79%. Na mesma eleição presidencial, Lula alcançou 72,12% dos votos baianos.
Bahia nas urnas — eleição presidencial de 2022
Jerônimo eleito com 52,79% dos votos válidos | Lula com 72,12% dos votos baianos
Os números não autorizam afirmar que Lula, sozinho, elegeu Jerônimo. Seria uma simplificação da história eleitoral. Mas revelam algo que não pode ser ignorado: a Bahia possui uma identidade eleitoral fortemente vinculada ao lulismo, e qualquer candidato do PT que consiga transformar essa identidade em uma escolha entre “Lula e seus adversários” parte de uma posição politicamente relevante.
Para Jerônimo, portanto, existe uma lógica evidente em nacionalizar a disputa. Quanto mais a eleição para o governo da Bahia for percebida como parte da disputa entre Lula e seus adversários, maior tende a ser a importância da identidade presidencial sobre a avaliação exclusivamente estadual.
É uma estratégia eleitoral possível. Mas existe o outro lado da equação.
A aposta de João Roma no eleitorado bolsonarista
João Roma ocupa uma posição diferente. Sua candidatura ao Senado não depende de disputar diretamente o governo do estado. Seu desafio é conquistar uma das duas vagas disponíveis. E, nesse caso, a existência de um eleitorado bolsonarista organizado pode representar uma oportunidade.
Roma tem reforçado publicamente sua associação política com Flávio Bolsonaro, pré-candidato presidencial do PL. Em março, participou de reunião nacional do partido com Flávio para discutir a estratégia eleitoral de 2026. Em julho, ao falar sobre a presença de Flávio na Bahia, Roma destacou a receptividade encontrada pelo senador e projetou uma “virada” política no estado.
Isso não é detalhe.
Para um candidato ao Senado, transformar identidade política em voto pode ser uma estratégia racional. João Roma não precisa necessariamente ser o candidato mais abrangente da Bahia. Pode tentar ser o candidato mais identificado com determinado campo político.
E aqui aparece uma das características mais interessantes da eleição de 2026: a Bahia escolherá dois senadores.
Isso muda a lógica da disputa.
Em uma eleição para uma única cadeira, o voto pode se concentrar em torno de um candidato dominante. Com duas vagas, abre-se a possibilidade de uma composição eleitoral mais complexa. Um eleitor pode escolher dois nomes de campos diferentes. Pode também votar em dois candidatos ideologicamente próximos. Pode ainda decidir uma das escolhas pela identidade nacional e a outra por critérios regionais, partidários ou pessoais.
Quando a identidade nacional vira atalho eleitoral
É justamente nesse ambiente que a polarização pode adquirir valor estratégico. Se a eleição presidencial for fortemente disputada entre Lula e Flávio Bolsonaro, os candidatos ao Senado poderão tentar transformar essa disputa nacional em uma espécie de atalho eleitoral local.
Roma poderia dizer, em essência: quem quer fortalecer o campo bolsonarista precisa de um senador identificado com esse projeto. O campo governista, por sua vez, poderá fazer movimento semelhante: quem quer fortalecer Lula e o projeto político do PT precisa eleger representantes alinhados ao presidente.
Não são estratégias iguais. Mas utilizam uma mesma engrenagem: transformar identidade nacional em voto estadual. E essa engrenagem pode produzir uma consequência importante: retirar parte da centralidade dos problemas concretos da Bahia.
Porque uma eleição deveria ser também uma oportunidade para discutir segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, saneamento, estradas, geração de empregos, desenvolvimento regional, agricultura, indústria, desigualdade e qualidade dos serviços públicos.
Mas a polarização tem uma característica poderosa: ela simplifica.
Em vez de perguntar “como está o governo da Bahia?”, o eleitor pode ser levado a perguntar “você está com Lula ou contra Lula?”.
Em vez de discutir “qual projeto econômico João Roma apresenta para a Bahia?”, a pergunta pode se transformar em “você quer fortalecer o bolsonarismo no Senado?”.
A política deixa de ser apenas uma avaliação administrativa e passa a ser uma escolha identitária.
Será que os dois dependem da polarização?
É exatamente nesse ponto que a hipótese precisa ser examinada com cuidado. Não necessariamente.
Jerônimo possui a máquina política do governo, uma estrutura partidária consolidada e uma base de aliados espalhada pelo interior. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho mostrou 57% de aprovação ao governo estadual e 52% dos entrevistados dizendo que o governador merece ser reeleito. Ao mesmo tempo, a disputa estimulada contra ACM Neto aparecia tecnicamente empatada, com 39% para Neto e 38% para Jerônimo.
Isso significa que existe uma dimensão estadual própria na candidatura de Jerônimo. O governador pode disputar a eleição apresentando obras, programas, investimentos e resultados administrativos. Pode também tentar associar sua gestão à imagem de Lula. As duas estratégias não são necessariamente excludentes.
Com João Roma ocorre algo semelhante. O bolsonarismo pode representar uma base importante para sua candidatura ao Senado, mas transformar identidade ideológica em votos suficientes para uma das duas vagas exigirá mais do que fidelidade política. Será necessário ampliar a votação para além do núcleo mais fiel da direita.
A polarização, portanto, pode ser uma alavanca — mas também pode ser uma armadilha. Porque o eleitor não é uma massa homogênea.
Existe na Bahia um eleitorado que vota em Lula para presidente e pode votar em um candidato de outro campo para o Senado. Existe eleitor que rejeita Bolsonaro, mas não necessariamente aprova o governo estadual. Existe eleitor que aprova Lula e avalia criticamente Jerônimo. Existe eleitor que gosta de determinado candidato pela relação pessoal, pelo desempenho administrativo ou pela influência do prefeito de sua cidade.
A política real é quase sempre mais complexa do que os mapas ideológicos das redes sociais.
ACM Neto e o espaço fora da polarização
É por isso que ACM Neto ocupa uma posição particularmente interessante nesse tabuleiro. Uma eleição excessivamente nacionalizada pode obrigá-lo a disputar um terreno no qual a identidade Lula versus Bolsonaro domina o debate. Ao mesmo tempo, pode existir espaço para uma candidatura que tente apresentar a eleição como um julgamento do governo estadual e como uma alternativa administrativa.
A pesquisa Genial/Quaest de julho mostra justamente que a disputa pelo governo não está resolvida: ACM Neto e Jerônimo aparecem tecnicamente empatados no principal cenário de primeiro turno.
Isso é importante porque demonstra que a eleição baiana ainda possui dinâmica própria. A grande questão será saber se essa dinâmica sobreviverá à campanha presidencial.
Se Lula estiver forte na Bahia, Jerônimo terá um poderoso ativo político. Se o bolsonarismo conseguir ampliar sua presença no estado, João Roma poderá transformar a eleição para o Senado em uma disputa de identidade nacional. E se a polarização Lula-Flávio se tornar dominante, os demais candidatos terão de decidir se entram nesse jogo ou tentam escapar dele.
O paradoxo da polarização
Mas existe um paradoxo. Uma eleição excessivamente polarizada pode ser excelente para quem possui uma identidade política consolidada e ruim para quem precisa convencer o eleitor independente.
É por isso que a possível convergência estratégica entre Jerônimo e Roma é tão interessante. Eles estão em lados opostos. Um representa o campo lulista; o outro procura representar o bolsonarismo. Um disputa a permanência no Palácio de Ondina; o outro busca uma cadeira no Senado.
Mas ambos podem se beneficiar de uma eleição na qual o eleitor seja chamado, antes de tudo, a escolher um lado. Jerônimo pode precisar de Lula para transformar uma eleição estadual em uma defesa do projeto nacional petista. Roma pode precisar de Bolsonaro — ou da força política de seu grupo — para transformar sua candidatura ao Senado em uma espécie de representação baiana do campo conservador.
A ironia é que, quanto mais Lula e Bolsonaro dominarem a eleição, menos espaço poderá existir para uma discussão sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer eleição estadual: a Bahia.
A Bahia que enfrenta problemas de segurança.
A Bahia que precisa melhorar seus indicadores educacionais.
A Bahia que cobra investimentos em infraestrutura.
A Bahia que espera mais empregos e oportunidades.
A Bahia que precisa discutir a desigualdade entre Salvador, Região Metropolitana, Recôncavo, Oeste, Sudoeste, Chapada, Norte e Extremo Sul.
A Bahia real não cabe inteiramente na disputa entre Lula e Bolsonaro. E talvez seja justamente esse o grande teste de 2026.
O eleitor baiano terá de decidir se quer transformar a eleição estadual em mais um capítulo da guerra política nacional ou se pretende avaliar também os candidatos pelo que fizeram, pelo que prometem fazer e pelo projeto que apresentam para o estado.
A polarização pode eleger.
A polarização pode mobilizar.
A polarização pode simplificar.
Mas também pode esconder.
E, no final, talvez a pergunta mais importante das eleições 2026 na Bahia não seja se Jerônimo está com Lula ou se João Roma está com Bolsonaro.
Talvez seja outra:
Quando a disputa nacional terminar, quem terá apresentado ao eleitor baiano um projeto capaz de responder aos problemas concretos da Bahia?
Bahia
Eleições 2026
Senado
Jerônimo Rodrigues
João Roma
Polarização
Artigo assinado por Padre Carlos





