Kassab dispara o tiro de misericórdia na extrema direita
Por Padre Carlos
Há declarações que entram na política como quem joga uma pedra num lago. Produzem ondas. Outras entram como um tiro. A declaração de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, pertence à segunda categoria.
Kassab não disse apenas que o Centrão está “neutro”. Fez exatamente o contrário: afirmou que, apesar da neutralidade formal de partidos como União Brasil, MDB, Progressistas e Republicanos, o Centrão está com Lula. E foi além: disse considerar “zero” a chance de Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial.
Ora, ora… Que coisa curiosa!
Durante meses, a extrema direita brasileira alimentou a fantasia de que bastaria colocar um Bolsonaro na urna para que todo o campo conservador marchasse automaticamente atrás dele. Como se a política fosse uma procissão religiosa em que todos precisassem seguir o andor até o altar.
Só esqueceram de combinar com o Centrão.
E o Centrão, como sabemos, não costuma ser exatamente conhecido por morrer abraçado a uma ideologia.
O Centrão tem uma ideologia muito mais simples: sobrevivência política. Ele olha para as pesquisas, para os governos estaduais, para o Congresso, para as alianças locais, para o tempo de televisão e, sobretudo, para quem tem condições concretas de vencer.
Um homem que sabe do que fala
É por isso que a fala de Kassab precisa ser levada a sério. Ele não é um comentarista de televisão. Não é um blogueiro. Não é um militante de esquerda tentando provocar a direita. É o presidente nacional de um dos maiores partidos do país e está disputando a eleição presidencial como vice de Ronaldo Caiado.
Quando um homem com esse grau de informação diz que o Centrão está com Lula e que Flávio Bolsonaro não tem chance de vencer, ele está revelando muito mais do que uma opinião pessoal. Está revelando uma percepção existente nos bastidores do poder.
E talvez esteja revelando também aquilo que a extrema direita brasileira não queria ouvir justamente no momento em que a campanha começa.
O bolsonarismo pode ter eleitores. Pode ter militância. Pode ter redes sociais. Pode ter uma parcela apaixonada do eleitorado. Mas está tendo dificuldade para transformar essa força em uma coalizão política capaz de conquistar o poder.
E eleição presidencial não se ganha apenas com gritos nas redes sociais. Ganha-se com votos. Mas também com prefeitos, governadores, deputados, senadores, partidos, alianças, estruturas estaduais, empresários, lideranças regionais, tempo de televisão e capacidade de construir uma maioria.
O tiro de misericórdia
É justamente aí que a fala de Kassab se transforma em uma espécie de tiro de misericórdia político na extrema direita. Não porque Flávio Bolsonaro esteja derrotado. Seria irresponsável afirmar isso.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 14 de agosto mostra Lula com 38% no primeiro turno e Flávio com 31%. Em eventual segundo turno, Lula aparece com 43% contra 40% de Flávio, dentro da margem de erro. Portanto, a eleição continua aberta.
Mas uma coisa é disputar uma eleição. Outra é disputar uma eleição sem conseguir convencer o centro político de que sua candidatura é capaz de vencer.
E aqui está o problema. O Centrão pode até não declarar apoio formal a Lula neste momento. Mas a neutralidade de um partido pode ser apenas uma maneira elegante de dizer: “Vamos esperar para ver quem chega vivo ao segundo turno.”
E Kassab acaba de dizer que, na sua avaliação, essa espera já produziu um resultado. O centro estaria olhando para Lula. Isso é devastador para a estratégia bolsonarista.
Porque a extrema direita construiu durante anos uma narrativa segundo a qual existiria uma maioria conservadora pronta para reconquistar o Palácio do Planalto. Mas, se essa maioria existisse de maneira tão evidente, seria de esperar uma corrida dos partidos de centro para abraçar Flávio Bolsonaro.
Não é isso que estamos vendo. União Brasil, PP e Republicanos não lançaram candidatura própria à Presidência e mantêm posições cautelosas no cenário nacional. Kassab interpreta esse movimento como uma aproximação pragmática com Lula.
Por que o Centrão não corre para Flávio?
Talvez porque política seja menos sentimental do que o Twitter. Talvez porque os caciques partidários saibam que eleição não é culto de personalidade. Talvez porque tenham percebido que o sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza uma parcela expressiva do eleitorado, mas também carrega uma rejeição suficientemente grande para dificultar a construção de uma maioria nacional.
E talvez porque o Centrão esteja fazendo aquilo que sempre fez: calculando. Calculando quem pode ganhar. Calculando quem pode governar. Calculando quem poderá construir maioria no Congresso. Calculando quem terá capacidade de distribuir poder depois da eleição.
É a velha política brasileira, meus caros leitores. Pode mudar o discurso. Pode mudar a roupa. Pode mudar a fotografia. Mas o cálculo continua o mesmo. E Kassab conhece esse jogo como poucos.
A disputa dentro da própria direita
Agora vem a parte mais interessante. Kassab não está dizendo isso para fazer campanha para Lula. Ele está tentando eleger Ronaldo Caiado. Ou seja: ao mesmo tempo em que afirma que o Centrão está com Lula e que Flávio não tem chance, Kassab apresenta Caiado como alternativa à polarização.
Isso significa que existe uma disputa dentro da própria direita. De um lado, o bolsonarismo. Do outro, uma direita tradicional, institucional, mais pragmática e que pretende ocupar o espaço deixado pela exaustão da polarização.
Caiado quer exatamente esse eleitor. O eleitor de direita que não gosta de Lula, mas que não necessariamente quer votar em um Bolsonaro. O eleitor conservador que deseja segurança pública, responsabilidade fiscal e uma agenda econômica liberal, mas que pode estar cansado da guerra permanente.
É nesse espaço que Caiado tenta entrar. E Kassab sabe disso. Tanto sabe que revelou aos empresários uma lista de nomes que poderiam integrar um eventual governo Caiado, incluindo Armínio Fraga, Roberto Azevêdo, Lincoln Gakiya e Guilherme Afif. O movimento mostra que a chapa procura transmitir uma imagem de capacidade administrativa e diálogo com setores econômicos e institucionais.
“Não apostem todas as fichas em Flávio Bolsonaro. Existe vida política depois do bolsonarismo.”
A pergunta que tira o sono
A extrema direita pode continuar mobilizando multidões. Pode continuar produzindo vídeos. Pode continuar atacando Lula. Pode continuar dizendo que as pesquisas estão erradas. Pode continuar afirmando que Kassab está fazendo campanha para o PT. Aliás, já começaram a dizer isso.
Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, reagiu acusando o PSD de funcionar como uma espécie de “linha auxiliar” de Lula.
Mas isso não responde à questão fundamental. Por que o Centrão não está correndo para Flávio Bolsonaro? Essa é a pergunta que deveria tirar o sono dos estrategistas bolsonaristas.
Porque quando os partidos começam a abandonar uma candidatura antes mesmo de ela perder a eleição, o problema não está necessariamente no eleitorado. Está na percepção de viabilidade. E política é também percepção. Um candidato que parece vencedor atrai alianças. Um candidato que parece derrotado perde alianças. É a lei não escrita da política.
A ironia deliciosa
A extrema direita passou anos dizendo que o Centrão era fisiológico, interesseiro, vendido e sem princípios. Agora, talvez esteja descobrindo que justamente esse Centrão que ela tanto criticava pode ser decisivo para decidir quem chegará ao Palácio do Planalto.
Que ironia!
Quando o Centrão estava ao lado deles, era chamado de “base de apoio”. Quando começa a olhar para outro lado, vira “traidor”. É assim que funciona a política quando a paixão substitui a análise.
Um marco, não um veredito
Eu, particularmente, não considero a eleição decidida. Seria uma estupidez transformar a declaração de Kassab em resultado eleitoral. Pesquisas ainda mostram uma disputa apertada, e o cenário pode mudar bastante durante a campanha.
Mas considero a declaração de Kassab um marco político importante. Porque ela expõe uma coisa que a extrema direita talvez preferisse esconder: o problema de Flávio Bolsonaro não é apenas chegar ao eleitor. É construir uma maioria.
E para construir uma maioria presidencial, não basta herdar um sobrenome. É preciso convencer quem não é bolsonarista. É preciso reduzir rejeição. É preciso dialogar com o centro. É preciso conquistar setores econômicos. É preciso construir pontes. É preciso apresentar um projeto de país que vá além da guerra cultural. E, sobretudo, é preciso convencer os políticos profissionais de que você pode vencer.
Kassab acaba de dizer publicamente que não acredita nisso.
Por isso, eu não diria que Gilberto Kassab matou a candidatura de Flávio Bolsonaro. Ainda não.
Mas diria algo talvez mais importante: Kassab puxou o pino da granada política e jogou-a no colo da extrema direita. Agora veremos o tamanho da explosão.
Porque se o Centrão realmente estiver percebendo que Lula é o caminho mais seguro para a Presidência, enquanto a direita tradicional procura uma alternativa própria através de Caiado, Flávio Bolsonaro pode descobrir uma coisa terrível para qualquer candidato: ter a máquina emocional do bolsonarismo não significa ter a maioria política do Brasil.
E, na eleição presidencial, é essa maioria que decide. O resto é barulho. E barulho, como sabemos, faz muito ruído. Mas não necessariamente ganha eleição.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha





