Crônica • Política e Resenha

Quando o Amor Fica: Gegê, José Raimundo e a Saudade que Não Cabe no Peito
Padre Carlos
Há histórias que chegam até nós como uma notícia. Outras chegam como um silêncio.
A morte de José Raimundo dos Santos, em Vitória da Conquista, poucos dias depois da partida de sua companheira de tantos anos, Maria Genilda Pereira, a querida Gegê Rainha das Batidas, pertence à segunda categoria.
Os Inseparáveis
É impossível ler essa história sem pensar naqueles pequenos pássaros chamados Agapornis, conhecidos popularmente como inseparáveis ou pássaros-do-amor. Eles ficaram famosos justamente pela forte ligação que estabelecem com o parceiro.
E talvez seja essa imagem que nos venha à cabeça quando pensamos em José Raimundo e Gegê. Não porque possamos afirmar que uma morte tenha provocado a outra. Não seria justo nem responsável dizer isso.
Mas porque existem pessoas que, depois de décadas compartilhando a vida, constroem entre si uma espécie de linguagem que não precisa mais de palavras. Um conhece o silêncio do outro. Reconhece o jeito de andar. Sabe quando alguma coisa não está bem apenas pelo olhar. Conhece as histórias antigas, as pequenas manias, as alegrias escondidas e também as dores que ninguém mais conhece.
É assim que o tempo transforma duas pessoas em companheiras de uma mesma história.
Gegê: Uma Presença na Cidade
Gegê não era apenas uma comerciante. Para muitos conquistenses, ela era uma presença. Uma figura que fazia parte da paisagem afetiva da cidade. Dona de um bar conhecido no Alto Maron, construiu uma trajetória marcada pelo carisma, pelo acolhimento e pela maneira particular de receber as pessoas.
Algumas pessoas passam por uma cidade. Outras deixam marcas na cidade. Gegê parece ter pertencido à segunda categoria.
E agora José Raimundo também parte. Primeiro ela. Depois ele. E fica para quem conheceu os dois aquela sensação estranha de que uma história foi interrompida duas vezes.
O Álbum de Ausências
Talvez seja essa uma das faces mais dolorosas do envelhecimento: perceber que aqueles que caminharam conosco durante décadas começam, pouco a pouco, a desaparecer. Primeiro desaparecem alguns amigos. Depois parentes. Depois companheiros de geração. E um dia percebemos que estamos carregando dentro de nós um verdadeiro álbum de ausências.
É quando compreendemos que envelhecer não significa apenas ganhar anos. Significa também aprender a conviver com a saudade.
A saudade é uma coisa curiosa. Ela não faz barulho. Não bate à porta. Não pede licença. Às vezes aparece enquanto fazemos café. Outras vezes quando passamos diante de uma antiga casa, ouvimos uma música ou lembramos de uma voz. E existem saudades que parecem morar definitivamente dentro da gente.
Talvez José Raimundo tenha levado consigo muitas lembranças de Gegê. Os lugares onde estiveram. As conversas. As dificuldades vencidas. As alegrias compartilhadas. As pessoas que conheceram juntos. As pequenas coisas que somente quem viveu uma longa história de amor consegue compreender.
Nós, que ficamos, nunca saberemos exatamente o tamanho desse mundo interior. E talvez nem devamos saber. Há dores que pertencem à intimidade de quem as vive. Por isso, diante de uma notícia como essa, mais importante do que procurar explicações é aprender a respeitar o silêncio.
A morte não precisa de espetáculo. Precisa de respeito.
A Casa Onde Alguém Desapareceu
E o luto não é uma notícia que termina quando o velório acaba. Para a família, os amigos e aqueles que amavam Gegê e José Raimundo, a verdadeira ausência começa justamente quando a cidade volta à sua rotina. As ruas continuam movimentadas. Os bares abrem. Os carros passam. As pessoas conversam. O comércio funciona.
Mas, para alguém que perdeu uma pessoa profundamente amada, o mundo parece ter mudado de lugar. É como entrar em uma casa onde todos os móveis continuam no mesmo lugar, mas alguém desapareceu.
A cadeira está ali. A fotografia está ali. O objeto continua sobre a mesa. Só não existe mais aquela pessoa.
O Amor que Permanece
E talvez seja por isso que o amor verdadeiro tenha uma característica extraordinária: ele continua existindo depois que a presença física desaparece. A pessoa morre. A história não.
Gegê continuará existindo nas lembranças daqueles que foram atendidos por ela, nas histórias contadas pelos amigos, nas memórias da família e nas esquinas de Vitória da Conquista onde sua presença ficou registrada. José Raimundo também. Porque ninguém desaparece completamente quando deixou amor pelo caminho.
A morte leva o corpo. Mas não consegue levar aquilo que uma pessoa plantou no coração dos outros.
Talvez seja essa a nossa pequena vitória diante da finitude. Nós somos passageiros. Mas aquilo que fazemos pelos outros pode permanecer. Uma palavra pode permanecer. Um abraço pode permanecer. Uma amizade pode permanecer. Um gesto de generosidade pode permanecer. E um amor vivido durante muitos anos pode permanecer até mesmo quando já não existem mais as duas pessoas que o construíram.
Por isso, ao lembrar Gegê e José Raimundo, talvez não devamos pensar apenas na tristeza de duas despedidas tão próximas. Devemos pensar também na beleza de uma história compartilhada. Porque nem todos têm a oportunidade de caminhar tantos anos ao lado de alguém.
Nem todos encontram uma pessoa com quem dividir as manhãs, as dificuldades, as contas, as alegrias, os sonhos, as preocupações e o cotidiano. Nem todos conseguem chegar ao fim da estrada tendo ao lado alguém que conhece praticamente todos os capítulos da sua vida.
Gegê partiu. Poucos dias depois, José Raimundo também. E Vitória da Conquista perde duas pessoas. Mas uma história permanece.
Amar alguém é aceitar que um dia teremos de enfrentar a ausência, mas também compreender que aquilo que foi verdadeiramente amado nunca desaparece por completo.
Os Agapornis são chamados de inseparáveis. Nós, seres humanos, sabemos que a vida inevitavelmente nos separa de quem amamos. Mas existe algo que nem mesmo a morte consegue separar. A memória. O afeto. A gratidão. E, sobretudo, o amor.
Que Gegê descanse em paz. Que José Raimundo também encontre descanso. E que aqueles que ficam encontrem força para atravessar o silêncio deixado por duas ausências tão próximas.
Porque algumas pessoas passam pela nossa vida. Outras tornam-se parte dela. E, quando partem, continuam vivendo dentro de nós.
Vitória da Conquista
Memória e Luto
Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




