
Padre Carlos
Há perdas que não cabem em uma nota de falecimento. Há despedidas que não se resumem a datas, horários de velório ou ao silêncio de um cemitério. Há pessoas que carregam consigo uma parte da memória de um povo. Quando elas partem, deixam um vazio que nenhum tempo consegue preencher.
Foi assim que recebi a notícia da partida de José Sizínio Pereira Couto, o nosso querido J. Couto.
Para muitos, ele era um mecânico de motos competente e respeitado. Para sua família, um homem dedicado. Para seus amigos, um companheiro leal. Para mim, era muito mais: era um primo, um irmão de caminhada e um daqueles miguelenses que a vida espalhou pelo Brasil, mas que jamais deixou de carregar São Miguel no coração.
Conheci J. Couto ainda nos tempos em que muitos filhos de São Miguel buscavam em São Paulo a oportunidade que sua terra natal não podia oferecer. Como tantos nordestinos, ele enfrentou a saudade, o trabalho duro e a luta diária para construir uma vida digna. Mas havia algo que nunca mudava.
Sempre que nos reuníamos na casa de meu tio, em Guarulhos, bastava alguém pronunciar as palavras “São Miguel” para que os olhos de J. Couto brilhassem. As conversas atravessavam a madrugada. Recordávamos pessoas, ruas, festas, histórias antigas, causos, parentes e amigos. Naquele instante, São Paulo desaparecia, e todos nós voltávamos a ser apenas filhos da pequena São Miguel.
A distância nunca conseguiu apagar nossas raízes.
O tempo passou. A vida nos trouxe de volta a Vitória da Conquista. E, como acontece com os verdadeiros amigos, retomamos a convivência como se nunca tivéssemos nos separado ele agora com a empacadora de veiculo e eu no seminário. O mesmo sorriso, a mesma simplicidade, a mesma honestidade e aquele jeito acolhedor que fazia qualquer conversa parecer uma reunião de família.
- Couto era um homem raro.
Num tempo em que muitos medem o valor das pessoas pelo dinheiro ou pelo poder que possuem, ele lembrava que o verdadeiro patrimônio de um ser humano é o caráter. Era daqueles homens cuja palavra valia mais que um contrato assinado. Sua humildade nunca diminuiu sua grandeza; pelo contrário, era justamente ela que o tornava inesquecível.
Os anos passam e percebemos que nossa geração vai, lentamente, assistindo à despedida daqueles que construíram nossa história. Cada miguelense que parte leva consigo um pedaço das lembranças coletivas da nossa comunidade. Vão embora vozes, sorrisos, histórias e experiências que jamais poderão ser reproduzidas.
Hoje, a comunidade miguelense de Vitória da Conquista e São Miguel das Matas está um pouco mais silenciosa.
A família Couto perde um de seus pilares. Os amigos perdem uma presença generosa. Nós perdemos alguém que fazia questão de manter viva a chama das nossas origens.
A morte tem essa estranha capacidade de nos lembrar daquilo que realmente importa. Não são os bens acumulados. Não são os títulos conquistados. O que permanece é a forma como tratamos as pessoas, a amizade que cultivamos, a honestidade com que vivemos e o amor que distribuímos ao longo da caminhada.
- Couto deixa exatamente esse legado.
Sua história continuará viva nas conversas de família, nas lembranças dos amigos, nas oficinas onde seu talento era reconhecido e, sobretudo, no coração daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Hoje não nos despedimos apenas de um homem.
Despedimo-nos de uma parte da nossa infância, das nossas memórias e da identidade de um povo que aprendeu a sobreviver sem jamais esquecer de onde veio.
Que Deus o receba em Sua infinita misericórdia.
E que nós, os que permanecemos, saibamos honrar sua memória vivendo com a mesma dignidade, simplicidade e humanidade que fizeram de José Sizínio Pereira Couto um homem admirado por todos.
Descanse em paz, meu amigo, meu irmão, meu primo.
São Miguel perde um de seus filhos.
E nós perdemos um pedaço do nosso próprio coração.
Padre Carlos




