Política e Resenha

473 mil votos decidiram a Bahia em 2022 — o que farão os 2,3 milhões de ausentes em 2026?

473 mil votos decidiram a Bahia em 2022 — o que farão os 2,3 milhões de ausentes em 2026?

Eleição para governador da Bahia, abstenção eleitoral e o peso da mobilização rumo a 2026

473.441 votos de diferença. 2.310.179 eleitores ausentes. Dois números, lidos lado a lado, contam mais sobre o comportamento eleitoral da Bahia do que qualquer discurso de campanha. Um decidiu quem governaria o estado por quatro anos. O outro, silencioso, nem sequer apareceu na apuração — mas esteve lá o tempo todo, pesando sobre o resultado como uma pergunta que ninguém respondeu.

Em 2022, a disputa pelo governo da Bahia terminou com Jerônimo Rodrigues à frente de ACM Neto no segundo turno. A margem, no entanto, não foi folgada. Foi apertada o suficiente para transformar cada eleitor em uma unidade de peso real — e para revelar, com clareza estatística, que a abstenção eleitoral não é um detalhe de rodapé nas eleições da Bahia. É uma variável central.

Diferença de votos x eleitores ausentes — 2º turno 2022

Diferença Jerônimo x ACM Neto

473.441

Eleitores que não compareceram

2.310.179

Escala proporcional. A barra da abstenção é aproximadamente 4,88 vezes mais longa que a barra da diferença de votos.

Os números oficiais da Justiça Eleitoral, para o segundo turno de 2022 na Bahia, são estes: 11,27 milhões de eleitores aptos a votar. Desses, 2.310.179 simplesmente não foram às urnas — uma abstenção de aproximadamente 20,49%. Dos que compareceram, 8.487.487 votos foram considerados válidos, somados a 113.101 votos em branco e 363.656 votos nulos.

No campo dos votos válidos, Jerônimo Rodrigues obteve 4.480.464 votos — 52,79%. ACM Neto obteve 4.007.023 votos — 47,21%. A diferença entre os dois: 473.441 votos. Foi essa cifra, e não outra, que definiu o governo da Bahia para o quadriênio 2023-2026.

Como se dividiram os 11,27 milhões de eleitores aptos

11,27 mi
eleitores aptos

Jerônimo Rodrigues 39,73% (4.480.464)
ACM Neto 35,54% (4.007.023)
Brancos e nulos 4,23% (476.757)
Abstenção 20,49% (2.310.179)

Postos lado a lado, esses números permitem uma conta simples — e reveladora. Divida os eleitores ausentes pela diferença entre os candidatos: 2.310.179 ÷ 473.441. O resultado é aproximadamente 4,88. Em outras palavras: o contingente de eleitores que não compareceu às urnas foi quase cinco vezes maior do que a distância que separou o primeiro do segundo colocado.

“O número de eleitores que não foram às urnas em 2022 foi quase cinco vezes maior que a diferença de votos entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto. É essa proporção que transforma a abstenção, de fato estatístico, em pergunta política: o que pode acontecer em uma eleição apertada quando milhões de eleitores deixam de comparecer às urnas?”

É preciso dizer isso com todas as letras, para que a análise não seja distorcida: abstenção não é voto de candidato. Não existe qualquer base estatística, jurídica ou metodológica para presumir que os 2.310.179 eleitores ausentes teriam votado nesta ou naquela chapa, caso tivessem comparecido. A abstenção tem causas múltiplas e legítimas — desde questões logísticas e de mobilidade até desinteresse, descrença nas instituições, ausência do domicílio eleitoral no dia da votação ou, simplesmente, escolha pessoal de não participar. Tratar abstenção como reserva de votos de um lado ou de outro é um erro analítico grosseiro, e este texto não comete esse erro.

Dito isso, o tamanho desse contingente — quase cinco vezes a margem de vitória — ajuda a entender por que participação, mobilização e capacidade de organização territorial se tornam fatores tão relevantes em eleições decididas por margens estreitas. Não porque a abstenção “pertença” a alguém, mas porque, matematicamente, ela representa um universo de eleitores capaz de alterar qualquer equilíbrio eleitoral, para qualquer lado, caso decida comparecer.

Participação eleitoral: o fator que as campanhas mais temem ignorar

Toda eleição competitiva é, ao mesmo tempo, duas disputas sobrepostas: a disputa pelo voto de quem já decidiu comparecer e a disputa, menos visível, pela presença de quem ainda não decidiu se vai às urnas. A ciência política chama isso de mobilização eleitoral — o conjunto de esforços de campanha, partido, lideranças locais e comunicação política voltados não para convencer o eleitor a mudar de candidato, mas para convencê-lo a simplesmente comparecer. Em eleições de margem folgada, esse fator perde relevância. Em eleições apertadas — como a de 2022 na Bahia, decidida por 473.441 votos em um universo de mais de 11 milhões de eleitores — ele se torna determinante.

A abstenção eleitoral, nesse sentido, não deve ser lida apenas como um dado demográfico ou um índice de desinteresse cívico. Ela é também um indicador de quanto trabalho de base — de organização territorial, de presença nos municípios do interior, de capilaridade partidária — ainda está por ser feito. A Bahia é um estado de dimensões continentais, com 417 municípios e realidades eleitorais muito distintas entre a Região Metropolitana de Salvador, o Recôncavo, o oeste, o sul e a Chapada Diamantina. Uma campanha vitoriosa não se constrói apenas convencendo o eleitor indeciso: constrói-se levando o eleitor já convencido até a urna, especialmente nas regiões onde a abstenção historicamente é mais alta.

Comunicação política e disputa pelo eleitor indeciso

Há ainda uma segunda camada nessa equação: a comunicação política. Convencer é uma tarefa; mobilizar é outra. Uma campanha pode ter um discurso vitorioso entre os que já decidiram votar e, ainda assim, perder a eleição se não conseguir converter esse discurso em comparecimento efetivo às urnas. É por isso que, em pleitos historicamente equilibrados como o baiano, tanto a disputa pelo eleitor indeciso quanto a capacidade de comunicação direta com o eleitorado nos territórios tendem a pesar mais do que em eleições de resultado previsível.

Esse é o pano de fundo estatístico que a eleição de 2026 na Bahia herda de 2022. Não como prenúncio de resultado — isso nenhum número garante —, mas como lembrete de que o comparecimento às urnas é, ele próprio, uma variável eleitoral tão relevante quanto a intenção de voto.

Para fixar os dois números

473.441

foi a diferença de votos entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto no segundo turno de 2022.

2.310.179

foi o número de eleitores baianos que não compareceram às urnas na mesma eleição.

O que os números não dizem — e o que eles realmente ensinam

Repita-se, para que não haja ambiguidade: nada nesses dados permite afirmar que a abstenção favoreceria um candidato ou um campo político em particular, em 2022 ou em 2026. Quem não vota não deixa impressão digital sobre sua preferência. Presumir isso seria substituir estatística por especulação. O que os números permitem, de forma legítima, é uma reflexão sobre método: eleições apertadas — e a Bahia tem, historicamente, produzido pleitos disputados para o governo do estado — são decididas tanto pela capacidade de conquistar corações e mentes quanto pela capacidade de conduzir esses corações e mentes até a urna eletrônica.

Em 2026, a Bahia volta às urnas em um cenário eleitoral que já desperta atenção nacional, com eleições estaduais e o segundo turno potencialmente decisivo, como ocorreu em 2022. Os votos válidos de quatro anos atrás, o percentual de Jerônimo Rodrigues, o percentual de ACM Neto, tudo isso pertence ao passado. Mas a lição estrutural permanece disponível para quem quiser aprendê-la: em uma disputa decidida por 473.441 votos, um universo de 2.310.179 pessoas que preferiu não participar é, matematicamente, grande demais para ser ignorado como fator de análise eleitoral — ainda que seja impossível, e incorreto, prever a que resultado sua eventual participação levaria.

Se em 2022 a diferença foi de 473.441 votos e mais de 2,3 milhões de eleitores não compareceram às urnas, qual será o peso da mobilização eleitoral na Bahia em 2026?

Eleições 2026 Bahia
Abstenção Eleitoral
Jerônimo Rodrigues
ACM Neto
Segundo Turno 2022
Política Baiana

— Padre Carlos

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), resultados oficiais do 2º turno das eleições de 2022.