Política e Resenha

O PT precisa de Otto? A fotografia de Salvador revela a força do PSD na Bahia

Política e Resenha — Análise

Por Padre Carlos Josaphat

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á fotografias que registram um momento. E há fotografias que, quando observadas com atenção, revelam uma parte da história que ainda está sendo escrita. A fotografia política produzida em Salvador nesta quarta-feira, 19 de agosto, pertence à segunda categoria.

Em um hotel da capital baiana, mais de 300 prefeitos se reuniram para discutir estratégias da campanha eleitoral de 2026 e reforçar a articulação da base política do governador Jerônimo Rodrigues. Entre eles, aproximadamente 100 eram prefeitos do PSD.

É preciso parar um pouco diante desse número.

Cem prefeitos.

Não são cem cabos eleitorais. Não são cem militantes. Não são cem pessoas reunidas simplesmente porque receberam um convite. São prefeitos, homens e mulheres que governam municípios, possuem relações políticas construídas ao longo de anos, conhecem as lideranças de suas regiões e, em muitos casos, comandam estruturas políticas capazes de influenciar diretamente o resultado de uma eleição.

E é exatamente aí que a fotografia de Salvador começa a revelar algo maior.

O que ela está dizendo sobre as forças que sustentam o projeto político governista na Bahia?

A resposta passa necessariamente pelo senador Otto Alencar.

Uma organização política com presença concreta no território

Reunir mais de 100 prefeitos de um mesmo partido não é para qualquer liderança. É preciso ter força, prestígio, capacidade de articulação e, sobretudo, uma relação política construída nos municípios. Otto Alencar demonstrou mais uma vez que o PSD baiano não é apenas uma sigla registrada na Justiça Eleitoral. É uma organização política com presença concreta no território.

E território, na política, continua sendo uma palavra poderosa.

Vivemos a época das redes sociais, dos algoritmos, dos vídeos curtos, dos influenciadores digitais e das campanhas que acontecem simultaneamente na tela do celular e nas ruas. Mas a política digital não matou a política territorial. Pelo contrário: em uma eleição como a de 2026, uma coisa pode potencializar a outra.

Um vídeo pode alcançar milhões de pessoas. Mas é o prefeito que conhece a comunidade rural, o vereador que conhece cada bairro, a liderança comunitária que sabe onde estão os votos e o grupo político municipal que consegue transformar uma mensagem geral em presença concreta.

“Reunir mais de 100 prefeitos de um mesmo partido realmente não é para qualquer liderança. É preciso ter história. É preciso ter prestígio. É preciso ter capacidade de diálogo. É preciso ter presença nos municípios.”

Não se trata de dizer que um prefeito determina sozinho o voto de uma cidade. Isso seria simplificar demais o comportamento do eleitor. O eleitorado mudou, tornou-se mais independente e está menos disposto a seguir automaticamente as orientações de qualquer liderança.

Mas seria igualmente ingênuo imaginar que prefeitos não possuem influência.

Eles possuem estrutura, visibilidade, capacidade de mobilização e relações políticas. E quando mais de 100 deles aparecem juntos, sob a liderança de um senador e presidente estadual de partido, existe ali um fenômeno político que merece ser compreendido.

O PSD de Otto Alencar ocupa, portanto, uma posição singular na arquitetura da política baiana.

Quem precisa mais de quem?

O encontro de Salvador contou com Jerônimo Rodrigues, Geraldo Júnior, Jaques Wagner, Rui Costa e Otto Alencar. O governador apresentou a reunião como parte da construção da campanha e destacou a necessidade de mobilização nos municípios.

Otto, por sua vez, foi direto ao declarar que os prefeitos presentes apoiam a reeleição de Jerônimo e que trabalharão também pela candidatura de Lula e dos candidatos ao Senado da chapa.

É aqui que surge uma questão política interessante.

O PT possui uma história política consolidada na Bahia. Governou o Estado por vários mandatos, possui uma forte estrutura partidária, tem nomes nacionais como Lula, Rui Costa e Jaques Wagner e ocupa atualmente o Palácio de Ondina.

Mas o PSD possui aquilo que toda candidatura majoritária procura: capilaridade municipal.

Essa relação entre PT e PSD, portanto, não pode ser analisada apenas pela ótica ideológica. Coalizões políticas são construídas também por interesses, espaços de poder, alianças locais, estrutura eleitoral e capacidade de mobilização.

Na prática, uma eleição não é vencida apenas em Salvador. Ela é disputada em Vitória da Conquista, Feira de Santana, Barreiras, Itabuna, Juazeiro, Ilhéus, Jequié, Eunápolis, Guanambi, Brumado e em centenas de outros municípios.

É nos municípios que a política ganha rosto.

E é justamente nesse território que o PSD demonstra sua importância.

O que a coalizão precisa

O PT tem o projeto. O governo tem a máquina administrativa. Lula tem a força política nacional. Jerônimo tem a condição de governador e candidato à reeleição. Mas uma coalizão precisa de pontes. E Otto Alencar parece exercer exatamente uma dessas funções: a de ponte entre o projeto governista e uma parcela expressiva das forças políticas municipais.

Não por acaso, essa relação vem de longe. Em 2022, o PSD já possuía mais de 100 prefeitos na Bahia, e a participação da legenda foi importante na composição política que sustentou a candidatura de Jerônimo.

Há, portanto, uma continuidade histórica.

O que aconteceu agora em Salvador não nasceu ontem.

Uma liderança com estrutura própria

O senador Otto Alencar vem construindo sua liderança política há décadas. E sua capacidade de reunir prefeitos revela que sua influência não está limitada ao Senado Federal ou aos espaços institucionais de Brasília. Ela se manifesta também na Bahia profunda, naquela Bahia dos municípios, das alianças locais e das relações políticas construídas de porta em porta.

É justamente por isso que seria um erro tratar Otto apenas como mais um integrante da chapa governista.

Ele é uma liderança com estrutura própria.

E lideranças com estrutura própria, dentro de uma coalizão, não são meros coadjuvantes.

São atores de poder.

Isso não significa que o PSD determine sozinho os rumos da eleição. Tampouco significa que os prefeitos tenham controle sobre a decisão individual dos eleitores. A democracia é muito mais complexa do que isso.

Mas significa reconhecer uma realidade elementar da política: alianças fortes são aquelas em que os parceiros possuem alguma capacidade real de entregar resultados eleitorais e políticos.

E o encontro de Salvador mostrou que Otto possui uma base política que não pode ser ignorada.

Uma engrenagem que ultrapassa a eleição estadual

Há ainda outro aspecto que chama atenção.

Quando Otto afirma que os prefeitos apoiarão Jerônimo, Lula e os candidatos ao Senado, ele está apresentando o PSD como parte de uma engrenagem eleitoral que ultrapassa a eleição estadual. A aliança conecta a disputa pelo Governo da Bahia à eleição presidencial e à composição do Senado.

Isso amplia a importância do acordo.

A eleição de 2026 será uma eleição de múltiplas disputas acontecendo simultaneamente. O eleitor escolherá presidente, governador, senadores, deputados federais e deputados estaduais. Cada voto terá diferentes destinos.

Nesse cenário, a capacidade de articulação entre os grupos políticos será fundamental.

E é justamente nesse tabuleiro que o PSD de Otto aparece com força.

Talvez seja essa a principal mensagem escondida naquela fotografia de Salvador.

Não basta olhar para os 300 prefeitos.

É preciso observar de onde vieram, quem os mobilizou e o que representa a presença de aproximadamente um terço deles pertencendo a uma mesma legenda.

Cerca de 100 prefeitos do PSD em uma reunião governista não são apenas uma estatística.

São uma mensagem política.

Uma mensagem que diz que Otto Alencar continua tendo capacidade de reunir forças municipais em torno de uma estratégia comum.

E isso precisa ser respeitado.

A Bahia que começa antes da capital

A política baiana tem muitas vezes a tendência de olhar excessivamente para Salvador e para os grandes nomes. Mas existe uma Bahia política que começa muito antes da capital. Existe uma Bahia dos municípios, dos prefeitos, dos vereadores, das lideranças comunitárias e das alianças locais.

É nessa Bahia que Otto construiu boa parte de sua força.

Por isso, quando se pergunta até que ponto o projeto político liderado pelo PT depende do PSD, talvez a pergunta mais correta seja outra:

Quanto vale uma aliança quando um dos seus parceiros possui capacidade de mobilizar mais de 100 prefeitos?

A resposta não está em um discurso.

Está na própria fotografia.

O PT tem sua força. Lula tem sua liderança nacional. Jerônimo tem a máquina do governo e a condição de candidato à reeleição. Rui Costa e Jaques Wagner possuem suas próprias trajetórias e bases políticas.

Mas uma coalizão é feita de várias forças.

E uma dessas forças atende pelo nome de Otto Alencar.

Reunir mais de 100 prefeitos de um mesmo partido realmente não é para qualquer liderança.

É preciso ter história. É preciso ter prestígio. É preciso ter capacidade de diálogo. É preciso ter presença nos municípios.

E, acima de tudo, é preciso que as pessoas estejam dispostas a comparecer.

Na política, discursos podem anunciar alianças. Fotografias podem registrá-las. Mas é a presença das lideranças nos territórios que começa a revelar sua verdadeira dimensão.

O café da manhã de Salvador terminou.

Os prefeitos voltarão para seus municípios.

A campanha seguirá pelas estradas da Bahia.

E a fotografia permanecerá como um daqueles sinais que a política costuma oferecer a quem sabe enxergar além da superfície.

Na eleição de 2026, o PT poderá continuar sendo o centro do projeto governista na Bahia.

Mas a fotografia de Salvador deixou uma certeza política que não pode ser ignorada: para chegar aos municípios, o projeto também precisa das pontes — e uma das pontes mais importantes continua tendo nome, sobrenome e uma longa história na política baiana: Otto Alencar.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha