Política e Resenha

O padrão baiano e o enigma de 2026

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ARTIGO DE OPINIÃO

Trinta anos de voto majoritário em bloco: o que a Bahia fará em 2026?

Em 2026, o eleitor baiano será novamente colocado diante de uma escolha que diz muito sobre a natureza da política do Estado. Na disputa majoritária, serão três decisões simultâneas: um voto para governador e dois votos para o Senado Federal. É uma combinação eleitoral capaz de revelar não apenas preferências individuais, mas também a força das alianças, das máquinas políticas e de uma tradição que atravessa diferentes ciclos de poder.

O passado, entretanto, precisa ser compreendido como um espelho, não como um destino. Ele mostra comportamentos, revela padrões e ajuda a interpretar uma determinada cultura política. Mas não determina o que acontecerá nas urnas. O eleitor é livre. E justamente por ser livre, pode surpreender.

Uma tradição que atravessou os ciclos de poder

Há algo particularmente interessante na história eleitoral recente da Bahia. Em diferentes momentos, mudaram os partidos, mudaram os grupos políticos, mudaram os discursos e até mesmo as forças que controlavam o Palácio de Ondina. Mas uma determinada mecânica do voto majoritário permaneceu surpreendentemente estável: quando uma determinada força política venceu a eleição para governador, os dois candidatos ao Senado ligados ao mesmo campo também conquistaram as vagas em disputa.

O fenômeno pode ser observado desde o ciclo político associado ao carlismo. Em 1994 e novamente em 2002, Paulo Souto venceu a eleição para governador, e as duas vagas disponíveis para o Senado ficaram com nomes pertencentes ao mesmo campo político que sustentava a candidatura governista. O eleitorado baiano demonstrava, naquele período, forte capacidade de transformar uma liderança majoritária em uma espécie de eixo organizador das demais escolhas.

O mais interessante, porém, é que a mudança de poder não rompeu essa lógica. Quando a Bahia passou a viver o ciclo político liderado pelo Partido dos Trabalhadores e seus aliados, o padrão reapareceu com outra roupagem.

Em 2010, Jaques Wagner foi eleito governador. Na mesma eleição, Walter Pinheiro e Lídice da Mata, integrantes da aliança que sustentava aquele projeto político, conquistaram as duas vagas do Senado. O desenho eleitoral se repetia: governador de um determinado campo e dois senadores associados ao mesmo campo.

O fenômeno voltou a aparecer em 2018. Rui Costa foi reeleito governador e as duas vagas em disputa para o Senado ficaram com Jaques Wagner e Ângelo Coronel, então aliados do grupo político que comandava o Estado. Mais uma vez, a mudança dos personagens não alterou a engrenagem.

“Política não é matemática, nem ciência exata. O eleitor não é obrigado a votar em bloco. Pode escolher um governador de um lado e dois senadores do outro.”

O voto casado não é uma obrigação

É importante fazer uma distinção. Não existe, juridicamente, qualquer obrigação de voto casado. O eleitor pode perfeitamente escolher um governador de uma determinada corrente política e votar em candidatos ao Senado pertencentes à oposição. Pode, inclusive, dividir seus dois votos para senador entre campos diferentes.

O que a história eleitoral baiana mostra é outra coisa: uma tendência de comportamento. O chamado voto casado ou voto verticalizado, ainda que não seja uma regra formal, pode ser estimulado pela força das alianças majoritárias, pela identificação partidária, pela influência das lideranças e pela capacidade de mobilização das estruturas políticas espalhadas pelos municípios.

O dado mais relevante não é que o eleitor baiano seja obrigado a votar em bloco.
É que, durante décadas, ele demonstrou uma forte disposição para transformar a disputa pelo governo em referência para as demais escolhas majoritárias.

Esse comportamento também ajuda a compreender a importância das coligações e alianças nas eleições para o Senado. Uma candidatura majoritária não disputa apenas o voto individual do eleitor. Ela pode estar inserida em uma arquitetura política muito mais ampla, envolvendo governadores, prefeitos, deputados, partidos, lideranças regionais e estruturas municipais.

Na prática, quando uma aliança consegue apresentar ao eleitor uma chapa coerente e uma narrativa política integrada, cria-se uma espécie de caminho eleitoral. Não significa que todos os votos serão automaticamente transferidos. Significa que a associação entre candidaturas pode influenciar decisões, especialmente em eleições nas quais o eleitor precisa fazer várias escolhas no mesmo momento.

E agora chega 2026

É justamente aqui que começa o verdadeiro enigma. A eleição de 2026 recoloca a Bahia diante de uma configuração que, historicamente, costuma favorecer o voto majoritário articulado: um governador e dois senadores serão escolhidos pelos eleitores.

A pergunta, portanto, não é simplesmente quem vencerá. A pergunta mais interessante, do ponto de vista da ciência política, é se o comportamento eleitoral construído ao longo de aproximadamente três décadas continuará funcionando.

A Bahia mudou. Mudaram as cidades, os meios de comunicação, as redes sociais, a relação dos eleitores com os partidos e a maneira como a informação política circula. O eleitor de 2026 dispõe de instrumentos que não existiam nos ciclos eleitorais anteriores. A televisão já não possui a mesma centralidade. As redes digitais permitem que candidatos construam comunicação própria. E as identidades partidárias, em muitos segmentos, tornaram-se mais fluidas.

Mas também permanecem elementos antigos: a força das lideranças municipais, a influência dos prefeitos, a estrutura partidária, as alianças regionais e a capacidade de determinadas figuras políticas de organizar apoios em diferentes territórios da Bahia.

É nessa tensão entre o velho e o novo que estará uma das chaves da eleição de 2026.

O padrão vai sobreviver?

Trinta anos de história eleitoral não podem ser tratados como uma fórmula matemática. Não existe garantia de repetição. O comportamento do eleitor é influenciado por conjunturas econômicas, avaliações de governo, campanhas, candidatos, acontecimentos nacionais, alianças e circunstâncias que podem surgir durante a própria disputa.

Ainda assim, seria um erro ignorar o padrão histórico. Em 1994, 2002, 2010 e 2018, a Bahia ofereceu exemplos eloquentes de como a disputa pelo governo estadual pode organizar também o voto para o Senado. Foram ciclos políticos diferentes, com personagens diferentes e projetos diferentes. A mecânica eleitoral, contudo, apresentou uma impressionante continuidade.

Em 2026, essa tradição será novamente colocada à prova. O eleitor poderá repetir o comportamento histórico ou fragmentar suas escolhas. Poderá votar em uma chapa majoritária articulada ou construir, individualmente, uma combinação completamente diferente.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior curiosidade desta eleição. A história oferece pistas, mas não entrega respostas. O passado pode iluminar o caminho, mas não conhece a urna que ainda será aberta.

A Bahia vai dobrar a esquina de 2026 carregando intacto o seu tradicional voto majoritário em bloco ou, pela primeira vez em décadas, o eleitor baiano decidirá separar suas escolhas?

Essa é uma pergunta que nenhum instituto de pesquisa pode responder antecipadamente com certeza absoluta. Porque, no fim, entre a tradição política e a liberdade do eleitor existe sempre um espaço imprevisível. E é exatamente nesse espaço que uma eleição começa a fazer história.

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Padre Carlos
Articulista

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