Política e Resenha

O empate entre Jerônimo e ACM Neto esconde uma disputa muito mais profunda

Análise Política

Bahia 2026

Por Padre Carlos

A
eleição para o Governo da Bahia começa a adquirir aquele formato que costuma transformar uma campanha aparentemente previsível em uma das disputas mais interessantes do país. A pesquisa Opnus/BNews, realizada entre 17 e 22 de agosto, coloca Jerônimo Rodrigues e ACM Neto praticamente lado a lado. No segundo turno, o governador aparece com 45% e o ex-prefeito de Salvador com 44%. Com margem de erro de três pontos percentuais, não existe diferença estatisticamente segura entre os dois. É empate técnico.

Mas há algo mais importante na pesquisa do que o número de 45% contra 44%. O verdadeiro retrato da eleição está escondido nos recortes. Quando olhamos apenas para o resultado geral, temos a impressão de uma disputa equilibrada. Quando observamos região, tamanho dos municípios, religião e identificação ideológica, percebemos que a Bahia eleitoral está dividida em territórios políticos bastante distintos. E é justamente aí que começa a verdadeira batalha de 2026.

Dois mapas eleitorais: Salvador contra o interior

ACM Neto continua demonstrando uma força política particularmente relevante em Salvador e nos grandes centros urbanos. Não é um detalhe. Salvador concentra uma enorme parcela do eleitorado baiano e representa, historicamente, um dos principais espaços de disputa entre os grupos políticos que pretendem comandar o Palácio de Ondina.

Neto também apresenta desempenho expressivo entre os evangélicos, chegando a 57% nesse segmento, segundo o levantamento. Esse dado merece atenção porque revela que a oposição encontrou um espaço eleitoral que pode ser decisivo durante a campanha.

Mas a Bahia não termina em Salvador. Muito pelo contrário. O interior continua sendo um território fundamental para a candidatura de Jerônimo Rodrigues. O governador preserva uma vantagem especialmente importante nos municípios menores, onde a relação entre governo, prefeitos, lideranças comunitárias e população pode produzir efeitos eleitorais que não aparecem simplesmente na fotografia de uma pesquisa estadual.

É preciso lembrar uma característica fundamental da política baiana: a Bahia é um estado politicamente diverso, territorialmente gigantesco e eleitoralmente heterogêneo. O voto de Salvador não necessariamente se comporta como o voto do Sudoeste. O voto do Recôncavo não necessariamente se comporta como o voto do Oeste. O eleitor de Feira de Santana não necessariamente pensa como o eleitor de um pequeno município do interior.

E é exatamente por isso que uma eleição estadual não pode ser compreendida apenas pela soma de percentuais. Ela precisa ser compreendida pela geografia do voto.

O peso dos padrinhos políticos

Jerônimo possui uma vantagem política adicional: o poder de associação com uma das maiores forças eleitorais do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E aqui está talvez o dado mais revelador da pesquisa Opnus. Quando os nomes dos principais aliados políticos entram no cenário, a diferença muda radicalmente.

Jerônimo, associado a Lula, Rui Costa e Jaques Wagner, chega a 51%, enquanto ACM Neto, associado aos seus aliados testados na pesquisa, fica com 39%.

Segundo o diretor do Opnus, essa apresentação dos padrinhos políticos amplia em seis pontos a intenção de voto do governador e reduz em cinco pontos a de Neto.

Isso nos leva a uma conclusão importante: a eleição para o Governo da Bahia não será apenas uma disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto. Será também uma disputa entre dois campos políticos. De um lado, está uma estrutura política que reúne Lula, Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner. Do outro, está ACM Neto, apoiado por uma oposição que procura consolidar uma alternativa ao grupo petista que governa a Bahia há muitos anos.

A polarização ideológica e o “voto LuNeto”

Existe ainda uma terceira dimensão: a identidade política do eleitor. Segundo os recortes divulgados pelo Opnus, entre os eleitores que se identificam como lulistas ou de esquerda, Jerônimo chega a 70%, contra 24% de ACM Neto. Entre os eleitores que se definem como bolsonaristas ou de direita, a situação praticamente se inverte: ACM Neto aparece com 89%, contra apenas 7% de Jerônimo.

É uma fotografia extraordinariamente reveladora. Ela mostra que a polarização nacional continua tendo capacidade de organizar uma parte significativa do eleitorado baiano. Mas não explica tudo. Porque existe um fenômeno que merece ser observado com muito cuidado: o eleitor que vota em Lula para presidente, mas não necessariamente vota em Jerônimo para governador. Esse eleitor existe. E pode ser decisivo.

A própria movimentação política recente demonstra que o chamado “voto LuNeto” tornou-se uma preocupação para o campo governista. Lula esteve na Bahia justamente em um movimento destinado a reforçar a candidatura de Jerônimo e estimular o voto casado entre presidente e governador.

“Quanto vale Lula para Jerônimo? Quanto vale a força eleitoral de ACM Neto em Salvador? Quanto vale a memória administrativa de Rui Costa? Quanto pesa Jaques Wagner? E, sobretudo, quantos eleitores ainda não decidiram?”

Os 28% que podem decidir tudo

Na pesquisa espontânea do Opnus, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, Jerônimo aparece com 35% e ACM Neto com 30%. Mas 28% dos entrevistados não souberam ou não quiseram responder. Vinte e oito por cento é muita gente. Significa que existe um contingente eleitoral suficientemente grande para alterar completamente a fotografia atual.

É por isso que seria um erro político transformar a pesquisa em comemoração antecipada de qualquer dos lados. Para Jerônimo, o empate é um alerta. O governador é candidato à reeleição e possui a máquina administrativa, o apoio do presidente Lula e o respaldo de duas importantes lideranças petistas que conhecem profundamente a política baiana: Rui Costa e Jaques Wagner. Mesmo assim, não aparece isolado na liderança.

Para ACM Neto, o empate também não deve ser interpretado como vitória antecipada. Ele demonstra que a oposição possui competitividade, especialmente em Salvador, nos grandes centros urbanos e entre setores ideologicamente identificados com a direita. Mas precisa transformar essa força em uma maioria estadual. E esse talvez seja o grande desafio de Neto: ganhar Salvador não é suficiente para ganhar a Bahia. Da mesma maneira, ter força no interior não significa automaticamente vencer a eleição.

A ponte entre os dois mundos

A questão será saber quem conseguirá construir a ponte entre esses dois mundos. A Bahia de 2026 parece estar diante de uma disputa entre dois mapas eleitorais. Um mapa mais urbano, metropolitano, com forte presença de ACM Neto. Outro mais interiorano, municipalista e fortemente conectado à estrutura política do governo, onde Jerônimo procura preservar sua vantagem.

No meio desses dois mapas está o eleitor indeciso. Está também o eleitor pragmático, aquele que não vota necessariamente pela ideologia, mas pela avaliação do governo, pela situação econômica, pelas obras realizadas, pela expectativa de emprego, pela saúde, pela segurança pública e pela capacidade que cada candidato demonstra de melhorar a vida cotidiana. É nesse eleitor que a eleição poderá ser decidida.

E há uma lição histórica que a política baiana costuma ensinar: eleição não se ganha apenas com discurso. Ganha-se com território, alianças, liderança, organização, comunicação e capacidade de transformar simpatia em voto.

A pesquisa Opnus mostra uma eleição aberta. Mostra Jerônimo e ACM Neto separados por apenas um ponto no segundo turno, dentro da margem de erro. Mostra, ao mesmo tempo, que os dois possuem fortalezas eleitorais diferentes. E mostra algo ainda mais importante: quando entram em cena os grandes padrinhos políticos, o equilíbrio pode se transformar rapidamente.

“A pergunta mais inteligente, neste momento, é outra: quem conseguirá construir a maioria eleitoral que ainda não existe?”

Jerônimo precisa transformar a força de Lula, Rui Costa e Wagner em voto próprio. ACM Neto precisa transformar sua força em Salvador e entre o eleitorado de direita em uma maioria capaz de atravessar as fronteiras da capital e conquistar o interior. E ambos precisarão convencer aquele eleitor que ainda olha para os dois lados antes de decidir.

A eleição está apenas começando a ganhar forma. O empate da Opnus não é o fim da história. É o começo de uma batalha eleitoral que poderá ser decidida nos detalhes — e, na política, muitas vezes são justamente os detalhes que elegem um governador.

A Bahia de 2026 não parece ter dono. E talvez essa seja a principal notícia produzida por esta pesquisa.

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Escrito por Padre Carlos — análise política sobre a corrida eleitoral pelo Governo da Bahia em 2026.