Padre Carlos
H
á pesquisas eleitorais que precisam ser lidas para além da fotografia dos números. O dado mais importante de uma pesquisa não é apenas quem aparece na frente, mas aquilo que mudou em relação à eleição anterior. E é justamente aí que o atual cenário entre Lula e Flávio Bolsonaro nos três maiores colégios eleitorais do Brasil merece uma atenção especial.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram quase 40% de todo o eleitorado brasileiro. Juntos, os três estados somam aproximadamente 63,3 milhões de eleitores. São Paulo representa 21,48% do eleitorado nacional; Minas Gerais, 10,32%; e Rio de Janeiro, 8,1%.
Peso no eleitorado nacional
| São Paulo |
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21,48% | ||
| Minas Gerais |
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10,32% | ||
| Rio de Janeiro |
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8,1% |
Os três estados somam cerca de 63,3 milhões de eleitores — quase 40% do eleitorado brasileiro.
Portanto, quando Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados nesses estados, não estamos diante de um detalhe estatístico. Estamos diante de um dos principais sinais de como poderá se comportar a eleição presidencial de 2026.
E a pergunta inevitável é: esse empate beneficia Lula ou Flávio Bolsonaro?
Minha leitura é que, comparando o cenário atual com a eleição de 2022, o empate é, neste momento, mais favorável a Lula.
Não porque Lula esteja necessariamente ganhando nesses três estados. Não está. Mas porque a comparação histórica mostra que o presidente parte de uma situação diferente daquela enfrentada em 2022.
A fotografia de 2022
Na eleição presidencial daquele ano, Jair Bolsonaro foi muito forte nos dois maiores colégios eleitorais que perdeu Lula: São Paulo e Rio de Janeiro. No primeiro turno, Bolsonaro obteve 47,71% dos votos válidos em São Paulo, contra 40,89% de Lula. No Rio de Janeiro, Bolsonaro chegou a 51,09%, enquanto Lula ficou em 40,68%. Em Minas Gerais, entretanto, Lula venceu por 48,29% a 43,60%.
No segundo turno, a diferença permaneceu muito significativa. Bolsonaro terminou com 55,24% em São Paulo e 56,53% no Rio de Janeiro. Lula venceu Minas Gerais por uma margem extremamente apertada: 50,20% contra 49,80%.
2022 — primeiro turno (Bolsonaro x Lula)
| SP — Bolsonaro |
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47,71% | ||
| SP — Lula |
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40,89% | ||
| MG — Bolsonaro |
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43,60% | ||
| MG — Lula |
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48,29% | ||
| RJ — Bolsonaro |
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51,09% | ||
| RJ — Lula |
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40,68% | ||
2022 — segundo turno (Bolsonaro x Lula)
| SP — Bolsonaro |
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55,24% | ||
| MG — Lula |
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50,20% | ||
| RJ — Bolsonaro |
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56,53% |
Em MG, Lula venceu o 1º turno com 48,29% e o 2º turno com 50,20% — a margem mais apertada dos três estados.
É exatamente essa fotografia de 2022 que torna o cenário de 2026 tão interessante.
Se Flávio Bolsonaro herdar integralmente o eleitorado de Jair Bolsonaro, seria razoável esperar que ele começasse a disputa presidencial com uma vantagem muito mais confortável em São Paulo e no Rio de Janeiro. Afinal, estamos falando de dois estados nos quais Bolsonaro venceu Lula com diferenças expressivas.
Mas não é isso que as pesquisas estão mostrando.
O que muda em 2026
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho, no primeiro turno, Flávio Bolsonaro aparecia com 34% em São Paulo contra 30% de Lula; em Minas Gerais, Lula tinha 30% contra 29% de Flávio; e no Rio de Janeiro, Flávio aparecia com 32% contra 30% de Lula. Ou seja: empate técnico nos três maiores colégios eleitorais.
2026 — Genial/Quaest, primeiro turno (Flávio x Lula)
| SP — Flávio |
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34% | ||
| SP — Lula |
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30% | ||
| MG — Lula |
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30% | ||
| MG — Flávio |
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29% | ||
| RJ — Flávio |
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32% | ||
| RJ — Lula |
|
30% | ||
Fonte: Genial/Quaest, jul/2026. Nos três estados, a diferença entre os candidatos está dentro da margem de erro.
O mapa que mudou
| Estado | Vantagem Bolsonaro 2022 (1º turno) | Cenário Quaest 2026 |
| São Paulo | +6,82 pts | +4 pts |
| Minas Gerais | Lula +4,69 pts | Lula +1 pt |
| Rio de Janeiro | +10,41 pts | +2 pts |
E aqui está o ponto que considero fundamental. Em política, manter uma posição pode ser uma vitória. Mas recuperar terreno também é uma vitória.
Para Flávio Bolsonaro, reproduzir a força eleitoral de seu pai em São Paulo e no Rio de Janeiro seria uma condição quase natural de sua candidatura. Para Lula, entretanto, reduzir uma desvantagem histórica e chegar ao empate significa avançar sobre um território eleitoral onde o bolsonarismo demonstrou enorme força.
São Paulo: a vantagem que não se reproduziu
Em 2022, Bolsonaro abriu quase sete pontos de vantagem sobre Lula no primeiro turno. Hoje, o cenário apresentado pela pesquisa mostra uma diferença muito menor. Isso não significa que Lula tenha conquistado São Paulo. Significa algo mais importante: a vantagem bolsonarista de 2022 não está se reproduzindo automaticamente.
E eleição presidencial não é uma fotografia congelada.
O eleitor de 2026 não é necessariamente o eleitor de 2022. O contexto econômico mudou. O governo Lula tem uma avaliação diferente daquela existente no início da campanha anterior. Bolsonaro não está na disputa. E Flávio Bolsonaro precisa transformar a enorme força política e eleitoral construída pelo pai em uma candidatura própria.
Essa última questão talvez seja uma das grandes incógnitas desta eleição.
Flávio não é Jair Bolsonaro.
Ele carrega o sobrenome Bolsonaro, a identidade política do bolsonarismo e uma parcela importante do eleitorado conservador. Mas também precisa demonstrar capacidade de ampliar essa base. E isso é particularmente importante em São Paulo e Minas Gerais, estados nos quais uma eleição presidencial pode ser decidida por milhões de votos.
Minas Gerais: o laboratório eleitoral
Em 2022, Lula venceu Bolsonaro no estado por uma diferença de aproximadamente 4,7 pontos no primeiro turno. No segundo turno, porém, essa vantagem praticamente desapareceu. Lula terminou apenas quatro décimos de ponto à frente.
Minas, portanto, continua sendo o grande laboratório eleitoral brasileiro.
É um estado que não pode ser simplesmente classificado como lulista ou bolsonarista. Minas costuma reproduzir uma característica histórica da política brasileira: o eleitor mineiro frequentemente ocupa uma posição intermediária, capaz de dialogar com diferentes campos políticos. Por isso, um empate entre Lula e Flávio em Minas é extremamente relevante.
Rio de Janeiro: o berço político em transformação
Mas há um terceiro componente dessa equação que merece uma análise particular: o Rio de Janeiro. O Rio é o berço político do bolsonarismo. Foi ali que Jair Bolsonaro construiu durante décadas sua carreira política e onde consolidou uma das bases eleitorais mais fiéis do país.
Em 2022, essa força ficou evidente. Bolsonaro recebeu 51,09% dos votos válidos no primeiro turno, contra apenas 40,68% de Lula. No segundo turno, ampliou a vantagem para 56,53% contra 43,47%.
Por isso, quando uma pesquisa mostra Flávio Bolsonaro e Lula tecnicamente empatados no Rio, precisamos olhar para além do número. Precisamos perguntar: o que aconteceu com aquela vantagem extraordinária de 2022?
É aqui que entra um elemento político que não pode ser ignorado: o governo de Cláudio Castro. Em 2022, Castro foi reeleito governador do Rio de Janeiro e, naquele ambiente político, existia uma poderosa convergência entre a máquina estadual, o governo e o projeto eleitoral associado ao bolsonarismo.
O TSE reconheceu abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos nas eleições de 2022 envolvendo Cláudio Castro. Em março de 2026 declarou-o inelegível por oito anos; em junho, manteve a decisão ao rejeitar os recursos.
Isso muda o contexto.
A estrutura política que existia em 2022 não estará disponível da mesma maneira em 2026. Não teremos Cláudio Castro disputando uma reeleição para governador. Não haverá a mesma conjuntura eleitoral estadual. E o capital político produzido naquela eleição não pode ser simplesmente transportado quatro anos depois para uma nova disputa presidencial.
Isso não significa que o bolsonarismo perdeu o Rio de Janeiro.
Seria um erro monumental afirmar isso.
O Rio continua sendo provavelmente o estado mais simbólico do bolsonarismo. A família Bolsonaro mantém ali uma identidade política profundamente enraizada. Flávio Bolsonaro, inclusive, é uma figura conhecida do eleitorado fluminense. Mas uma coisa é ter uma base sólida. Outra é transformar essa base em uma vantagem de dez ou quinze pontos sobre Lula. E é justamente essa diferença que o cenário atual coloca em dúvida.
Quem ganha com o empate?
O dado politicamente mais importante talvez seja este: se Lula consegue chegar ao empate onde Bolsonaro venceu com larga vantagem, Flávio Bolsonaro terá de lutar para manter uma hegemonia que seu pai possuía com relativa facilidade.
E isso nos leva novamente à pergunta inicial: quem ganha com o empate?
A resposta não pode ser simplesmente “Lula”. Uma eleição nacional ainda está aberta. As pesquisas são fotografias do momento, não resultados eleitorais. E a disputa atual permanece extremamente competitiva. Levantamentos nacionais recentes mostram Lula numericamente à frente, mas com Flávio Bolsonaro em distância pequena, inclusive com empate técnico em alguns cenários de segundo turno. A pesquisa PoderData divulgada em 27 de agosto, por exemplo, mostrou Lula com 38% e Flávio com 35% no primeiro turno e 45% a 44% no segundo turno.
PoderData nacional — 27/08/2026
| 1º turno — Lula |
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38% | ||
| 1º turno — Flávio |
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35% | ||
| 2º turno — Lula |
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45% | ||
| 2º turno — Flávio |
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44% | ||
Fonte: PoderData, divulgada em 27/08/2026. A diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro está dentro da margem de erro em ambos os turnos.
Portanto, seria precipitado transformar empate em vitória antecipada.
Mas também seria um erro ignorar o significado político da mudança. Em 2022, o mapa dos três maiores colégios eleitorais era claro: Bolsonaro dominava São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto Lula tinha uma vantagem apertada em Minas Gerais. Em 2026, a fotografia começa a mostrar outra coisa: uma disputa aberta nos três estados que concentram quase 40% do eleitorado brasileiro.
Essa é a grande novidade.
Flávio Bolsonaro precisa manter o legado eleitoral de Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, construir uma candidatura capaz de ir além dele.
Lula, por sua vez, precisa fazer algo diferente: conservar Minas Gerais, onde venceu em 2022, e transformar a redução das desvantagens em São Paulo e Rio de Janeiro em votos efetivos.
Se conseguir fazer isso, o presidente não estará apenas disputando uma eleição. Estará alterando o mapa eleitoral que produziu a eleição de 2022.
É por isso que o empate técnico nos três maiores colégios eleitorais deve ser observado com enorme atenção. Para Flávio Bolsonaro, o empate significa que o bolsonarismo continua competitivo. Para Lula, o empate pode significar que a vantagem que Bolsonaro construiu nesses territórios não está sendo automaticamente transferida para seu filho.
E, numa eleição nacional decidida pela soma de milhões de votos, essa diferença pode ser decisiva.
No fim das contas, talvez a pergunta correta não seja quem está ganhando com o empate.
Talvez seja outra: quem está conseguindo mudar o resultado que parecia desenhado em 2022?
Se a resposta continuar sendo Lula, o empate nos três maiores colégios eleitorais do Brasil deixa de ser apenas um dado estatístico.
Passa a ser um sinal político.
E todo sinal político, quando aparece às vésperas de uma eleição presidencial, merece ser levado muito a sério.
Presidencial
Lula
Flávio Bolsonaro
Pesquisas Eleitorais
Padre Carlos — Teólogo, filósofoe colunista político — Política e Resenha





