Artigo • Política & Sociedade

Polarização, o que é isso?
José Alcimar de Oliveira*
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1. Embora crítico ao Programa de Gotha, o Mouro de Trier, consciente de que entre o real e o ideal não se deve comprometer o que se apresenta como possível, ponderou que “cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas (…)”. Em síntese: seguir na luta, avançar no possível, sem abdicar do ideal que nos move.
02. O Brasil, pela terceira vez seguida, está diante do risco de voltar a ser governado pela extrema-direita, a cada dia mais raivosa, desinibida e articulada em sua forma de operar o que poderíamos denominar de uma luta de classes reversa e, equivocadamente, chamada de polarização. Desde quando tratar o polo oposto como inimigo a ser eliminado pode ser chamado de polarização?
As portas do inferno
03. Em 2018, as portas do inferno foram escancaradas e o Brasil foi submetido ao mais intenso e alargado processo de decomposição política. A análise míope da política viu nisso polarização. Conforme Adorno, a política existe para que não nos acotovelemos uns aos outros.
04. Em 2022, ainda sob a dita polarização — nome dessa requintada armadilha conceitual —, a vitória eleitoral das forças da esquerda e do centro sobre a extrema-direita e setores afins foi por pouco. Conseguimos, sim, sair do inferno, respirar um pouco, mas ficamos no purgatório e ainda muito longe do céu da política, se é que existe política celestial.
O ventre ainda fértil
05. O que teremos em 2026? O cio fascista permanece e, para recorrer às palavras do velho Bertolt Brecht, no ano septuagenário de sua passagem da imanência histórica para a transcendência transepocal, convém lembrar que ainda continua fértil o ventre que gerou a coisa imunda.
06. E agora, neste 2026, voltamos à terceira onda da polarização? Que polarização? Desde o golpe parlamentar de 2016, financiado pelos setores mais reacionários da burguesia nacional e internacional, o espaço político da discussão democrática (ou polarização), mesmo nos limites do Estado burguês, cedeu lugar ao linchamento e ao ódio organizado como política. Que outra coisa não é senão fascismo, cada vez mais a se afirmar como conteúdo e forma da política.
Vácuo na física, não na política
07. Quando as forças de esquerda (inclusive a classista) desertam o espaço político da luta de classes, da organização e da formação política da classe trabalhadora, que possibilidade há de recuperar o conceito de polarização? Se é polêmica (e sem maiores danos) a existência de vácuo na física, o mesmo não ocorre na política. Bem diz a sabedoria dos antigos: cabeça vazia, oficina do diabo.
*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Agosto de 2026.
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José Alcimar de Oliveira Colunista • Filosofia e Política |




