Filosofia & Sociedade
José Alcimar de Oliveira*
“O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6).
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1. É aterradora a realidade do que o professor Paulo Blikstein denominou de “buracos de cognição” produzidos pela chamada Inteligência Artificial (IA), em recente entrevista ao programa Roda Viva (17 de março de 2026). Progresso técnico não é, por si, garantia de desenvolvimento social, notadamente quando o poder se aparta do bom senso, que para ser bom necessita de formação.
02. Penso que estamos diante da mais poderosa forma de intervenção na inteligência do ser social jamais inventada na curta história dos mamíferos humanos sobre a Terra: a assim chamada Inteligência Artificial. É necessário dizer que nada produzido e submetido pela gramática do capital é neutro. Se conhecimento é poder, como escreve Francis Bacon, o poder do conhecimento encontrou na IA o mecanismo mais eficiente de gerar e universalizar a ignorância. Jamais a douta ignorância socrática.
03. Pensar hoje a ignorância sob a epistemologia socrática, como fez Nicolau de Cusa no baixo Medievo em sua célebre De docta ignorantia (Sobre a douta ignorância), sem levar em conta o poder da IA de produzir ignorância em escala global, seria eufemizar os efeitos aterradores decorrentes do uso criminoso desses dispositivos digitais.
“Os buracos cognitivos não são vazios de conteúdo. São antes ocupados por conteúdos vazios e heteronomizados.”
04. Seria apocalipsismo pensar que já estamos no rumo de um possível e acelerado colapso universal da razão? O modo de proceder da razão do ser social, de avançar no conhecimento, é discursivo e implica etapas. Noutros termos: é dialético. Segue um devir de contradições, de erros e acertos. Progresso digital não é sinônimo de avanço dialético.
A LÓGICA DO CAPITAL E A INDÚSTRIA DA IGNORÂNCIA
05. Sim, é possível argumentar: tudo depende do uso, da livre iniciativa individual. Mas é possível, sob a ordem do modo capitalista de produção da vida e do pensamento, direcionar socialmente a IA para o conhecimento que liberta, ao encontro das necessidades da classe trabalhadora? A férrea lógica do capital opera sob os ditames do lucro acima da vida. E para isso nada mais funcional do que a produção industrial (digital, para melhor dizer) da ignorância.
06. Diante do poder da ignorância veloz e digitalizada o conhecimento manca e retrocede. Se por revolução pensamos um horizonte de vida igualitário, como no programa marxiano de Gotha: de cada um segundo suas capacidades e a cada um segundo suas necessidades, não é exatamente para isso que aponta a dita revolução digital. Se em Hegel a ideia de revolução é inerente à razão, sob a gramática do capital o que pode guardar de revolução a dita razão digital?
BABEL REVERSA
07. Falar em sociedade digital ou redes digitais é apontar para uma Babel reversa, em que a diversidade das línguas e das culturas passam a ser reguladas e conformadas à gramática universal e uniformizada pelos códigos dos algoritmos. Se não voltarmos a pensar com os pés, seguiremos a caminhar de ponta-cabeça. Desviar-se do caminho da práxis, da filosofia do materialismo histórico e dialético, é se deixar arrastar pelo uso a que a subjetividade neoliberal conforma a dita IA.
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*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas onde cursou e concluiu o mestrado (em Educação, 1998) e o doutorado (em Sociedade e Cultura na Amazônia, 2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (AM) e Jaguaribe (CE). Agosto de 2026.
Política e Resenha





