Política e Resenha

Feiras de Ciências transformam escolas municipais de Vitória da Conquista em espaços de criatividade e descoberta

Maria Clara

A ciência saiu dos livros e ganhou forma nas mãos dos estudantes da rede municipal de ensino de Vitória da Conquista. Ao longo do mês de agosto, 31 escolas municipais estão realizando feiras de ciências que aproximam os alunos da pesquisa, da experimentação e da busca por soluções para problemas presentes no cotidiano.

A iniciativa é coordenada pela equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação e foi organizada em duas etapas. Primeiro, cada escola realiza sua própria feira e seleciona os trabalhos que serão encaminhados ao Núcleo Pedagógico da Secretaria. Em uma segunda etapa, os projetos escolhidos serão apresentados em uma exposição reunindo experiências de diferentes unidades da rede.

Mais do que apresentar trabalhos escolares, as feiras funcionam como uma oportunidade para os estudantes transformarem conteúdos aprendidos em sala de aula em experiências concretas. Sustentabilidade, mudanças climáticas, saúde, inclusão, matemática, energia renovável e preservação ambiental estão entre os temas pesquisados.

Para o coordenador pedagógico de Ciências da Secretaria Municipal de Educação, Manoel Neres, um dos idealizadores da iniciativa, a proposta é estimular nos estudantes uma postura mais investigativa e crítica diante da realidade.

Ciência começa com uma pergunta

Um dos aspectos mais interessantes das feiras é justamente a possibilidade de o aluno partir de uma situação observada no próprio ambiente em que vive para formular perguntas e buscar respostas.

Foi o que aconteceu com estudantes da Escola Municipal Carlos Santana, na zona urbana. O grupo formado por Nicolas Furtado, de 16 anos, pesquisou as diferenças de temperatura entre áreas urbanizadas e regiões com maior presença de vegetação.

O trabalho levou os estudantes até o Poço Escuro, onde foram coletados dados sobre temperatura e umidade. Para isso, o grupo desenvolveu um dispositivo utilizando placa eletrônica e sensor.

A experiência acabou aproximando diferentes áreas do conhecimento. Além de estudar questões relacionadas ao clima, os alunos tiveram contato com tecnologia e programação.

O resultado foi apresentado por meio de uma maquete e de materiais produzidos em 3D, mostrando que uma aula de Ciências pode ultrapassar os limites da sala de aula quando o estudante passa a investigar diretamente aquilo que deseja compreender.

Sustentabilidade também virou passarela

Na Escola Municipal Francisco Antônio de Vasconcelos, localizada na comunidade quilombola de Cabeceira, na zona rural, a criatividade ganhou uma forma pouco convencional: um desfile de moda produzido com materiais recicláveis.

Estudantes do 9º ano utilizaram garrafas PET, CDs, jornais, papelão e sacos plásticos para confeccionar as roupas apresentadas durante a feira.

A proposta chamou atenção justamente por transformar materiais normalmente descartados em objetos criativos. Para os alunos, a experiência também mostrou que sustentabilidade não precisa ser discutida apenas de maneira teórica.

A estudante Lara Andrade, de 15 anos, participou da produção e destacou o envolvimento da turma na atividade.

A escola aproveitou ainda a feira para discutir questões relacionadas à realidade da comunidade e aos impactos ambientais existentes na região.

Por estar inserida em uma comunidade quilombola, a unidade também incorporou ao evento elementos relacionados à memória e à cultura local. A participação dos moradores aproximou ainda mais escola e comunidade.

Para Nailda Ramos, moradora da comunidade quilombola Alto da Cabeceira, acompanhar os estudantes também significou participar de um momento de valorização da própria história.

Combate à dengue também virou tema de pesquisa

Na Escola Municipal Carlos Santana, outro grupo escolheu um problema conhecido dos brasileiros como objeto de estudo: a dengue e o combate ao Aedes aegypti.

As estudantes Valentina Ferreira e Yanna Lavigne, ambas de 13 anos, desenvolveram um trabalho voltado à conscientização sobre a doença, seus riscos e as formas de prevenção.

A escolha do tema mostra como a educação científica pode estabelecer uma ponte direta entre aquilo que o estudante aprende e os problemas que afetam sua comunidade.

Ao pesquisar a dengue, os alunos não apenas acumulam informações sobre uma doença. Eles também são estimulados a compreender como a prevenção depende de atitudes individuais e coletivas.

A ciência também pode ser divertida

Na Escola Padre Isidoro, localizada no povoado da Estiva, os estudantes apresentaram projetos envolvendo Ecologia, energia renovável, prevenção da dengue e jogos matemáticos.

A proposta foi trabalhar conteúdos curriculares por meio de experiências mais práticas e lúdicas.

Esse modelo de aprendizagem tem uma característica importante: o aluno deixa de ser apenas receptor de informações e passa a participar da construção do conhecimento.

É justamente nesse ponto que uma feira de ciências pode ganhar significado maior dentro da escola. O projeto apresentado durante um evento é apenas a parte visível de um processo que envolve pesquisa, erros, descobertas, trabalho em equipe, criatividade e capacidade de apresentar aquilo que foi aprendido.

Uma escola que ensina a perguntar

As experiências apresentadas nas feiras de ciências mostram que o conhecimento científico não precisa estar distante da realidade dos estudantes.

Ele pode começar com uma pergunta simples sobre a temperatura de um lugar, com a preocupação sobre o lixo produzido pela comunidade, com a necessidade de combater a dengue ou com o desejo de compreender melhor o ambiente onde se vive.

Ao reunir 31 escolas municipais, a iniciativa cria um espaço para que essas perguntas ganhem importância e sejam transformadas em projetos.

E talvez esse seja um dos maiores méritos da proposta: ensinar que aprender Ciências não significa apenas decorar fórmulas ou conceitos. Significa aprender a observar, questionar, investigar, testar, comparar e tirar conclusões.

Quando um estudante constrói um sensor para medir temperatura, transforma garrafas PET em uma roupa, pesquisa o mosquito da dengue ou utiliza um jogo para compreender matemática, ele está fazendo algo essencial para sua formação: está aprendendo a pensar.

As feiras de ciências seguem até o final de agosto e deverão culminar em uma exposição municipal com os trabalhos selecionados pelas escolas.

Mais do que uma mostra de projetos, o evento representa uma oportunidade para revelar uma parte daquilo que muitas vezes permanece escondido dentro das salas de aula: a capacidade dos estudantes de criar, pesquisar e encontrar respostas para os desafios do mundo em que vivem.