Política e Resenha

O Solar dos Ferraz pode finalmente encontrar sua vocação

O Solar dos Ferraz pode finalmente encontrar sua vocação: a casa da memória literária de Vitória da Conquista

Por Padre Carlos

H
á momentos em que uma cidade parece olhar para a própria história e perceber que alguns de seus patrimônios não foram feitos apenas para serem preservados, mas para continuarem vivos. A possibilidade de o Solar dos Ferraz tornar-se a futura sede da Academia Conquistense de Letras é, para mim, exatamente um desses momentos.

Não estamos falando simplesmente da cessão de um imóvel público ou da mudança de endereço de uma instituição. Estamos diante de uma oportunidade de aproximar duas dimensões fundamentais da identidade de Vitória da Conquista: o patrimônio histórico e a memória literária.

A Academia Conquistense de Letras há muito tempo merece uma sede que esteja à altura de sua importância. Uma instituição que reúne escritores, intelectuais e homens e mulheres dedicados à literatura não pode permanecer eternamente improvisada em uma sala com recursos limitados. A cultura também precisa de espaço físico, de memória, de identidade e de dignidade.

Por isso considero extremamente significativa a iniciativa do presidente da Câmara Municipal, vereador Ivan Cordeiro, ao acompanhar os acadêmicos da ACL e o secretário municipal de Cultura, Alecxandre Magno, em uma visita técnica ao Solar dos Ferraz.

Mais importante ainda é perceber que a Câmara não está apenas assistindo ao problema. Está ajudando a construir uma solução.

“Que belo destino para um patrimônio histórico! Preservar não significa congelar o passado — significa permitir que o passado dialogue com o presente e ajude a construir o futuro.”

A articulação institucional feita por Ivan Cordeiro pode representar um daqueles gestos aparentemente simples que, quando concretizados, deixam marcas profundas na história de uma cidade. Ao se comprometer a levar o pleito à prefeita Sheila Lemos, o presidente do Legislativo conquistense coloca a força institucional da Câmara a serviço de uma causa que ultrapassa partidos, governos e mandatos: a preservação da cultura e da memória de Vitória da Conquista.

E aqui está, na minha opinião, o ponto mais importante.

O Solar dos Ferraz não é um imóvel qualquer.

Um casarão que atravessa a história conquistense

Tombado pelo Município em 2025, localizado na Praça Virgílio Ferraz, ao lado da Catedral Nossa Senhora das Vitórias e dentro do núcleo urbano fundador da cidade, o casarão carrega em suas paredes uma parte significativa da história conquistense.

Sua origem remonta ao casamento de João de Oliveira Lopes com Ana Ferraz Lopes, em 1923. Sua arquitetura, de inspiração portuguesa e refinado perfil neoclássico, revela uma época em que as edificações também expressavam o poder econômico, o gosto e a identidade das famílias que ajudaram a construir a cidade.

Os vitrais, as caixilharias, os forros de cedro, os assoalhos de jacarandá e os detalhes florais em alto-relevo não são apenas elementos arquitetônicos. São testemunhos de uma Vitória da Conquista que não existe mais da mesma maneira, mas que continua presente naquilo que somos.

Uma coincidência histórica

O Solar dos Ferraz foi construído pelo mestre-de-obras Luiz Pedreiro, responsável por outros importantes marcos arquitetônicos de Vitória da Conquista: o antigo Quartel de Polícia, atual sede da Prefeitura; o Sobrado de Maneca Santos, onde hoje funciona a Câmara Municipal e seu Memorial; e o Casarão do Coronel Gugé. O destino do Solar dos Ferraz pode estar encontrando, assim, uma espécie de continuidade histórica.

Se a Câmara guarda parte da memória política da cidade e a Prefeitura representa uma parcela de sua memória administrativa, o Solar dos Ferraz, transformado em sede da Academia Conquistense de Letras, poderá tornar-se uma casa dedicada à memória intelectual, literária e cultural de Vitória da Conquista.

Uma casa para a palavra

Imagino aquele casarão recebendo escritores, pesquisadores, estudantes, professores e leitores. Imagino lançamentos de livros, rodas de conversa, seminários, exposições, encontros literários e homenagens a personalidades que ajudaram a construir a cultura conquistense.

Imagino também jovens entrando naquele espaço pela primeira vez e descobrindo que uma cidade não é feita somente de avenidas, prédios, comércio e desenvolvimento econômico. Uma cidade também é feita de histórias, livros, personagens, poemas, crônicas, fotografias, lembranças e sonhos.

É preciso compreender que preservar patrimônio histórico não significa congelar o passado. Pelo contrário. Preservar é permitir que o passado dialogue com o presente e ajude a construir o futuro.

E é justamente por isso que considero tão importante a possibilidade de destinar o Solar dos Ferraz à Academia Conquistense de Letras. A literatura precisa sair dos espaços improvisados e ocupar também os lugares simbólicos da cidade. Precisamos criar ambientes onde a palavra tenha endereço, onde a memória tenha casa e onde as novas gerações possam compreender que a cultura conquistense não nasceu ontem.

Também merece reconhecimento a disposição demonstrada pelo secretário municipal de Cultura, Alecxandre Magno, ao acompanhar a visita e sinalizar positivamente para a viabilidade do pleito. O diálogo entre a Academia, a Câmara e o Executivo Municipal demonstra que políticas públicas de cultura podem ser construídas quando as instituições se dispõem a conversar.

A pergunta que precisa ser feita

E agora existe uma responsabilidade importante sobre a mesa. Cabe ao Poder Executivo analisar juridicamente e administrativamente a possibilidade da cessão ou da doação, considerando naturalmente todas as exigências legais e as condições necessárias para a preservação do imóvel.

Mas acredito que a pergunta principal não deve ser apenas “podemos ceder o Solar dos Ferraz?” Precisamos perguntar também: “que destino queremos dar a esse patrimônio para que ele continue servindo à cidade?”

Porque patrimônio abandonado ou subutilizado é memória que vai desaparecendo lentamente. Patrimônio ocupado por uma instituição cultural viva é memória transformada em futuro.

Por isso, vejo com esperança essa possibilidade. A Academia Conquistense de Letras pode finalmente ganhar uma sede própria. E o Solar dos Ferraz pode ganhar uma nova missão histórica.

Não seria apenas uma mudança de endereço. Seria um encontro entre o passado e o futuro. De um lado, um casarão que testemunhou décadas da história de Vitória da Conquista. Do outro, uma Academia que tem como missão preservar, cultivar e difundir a literatura e a língua.

“Pedra e palavra. Arquitetura e memória. História e literatura. Talvez não exista combinação mais apropriada.”

Também considero acertada a decisão de Ivan Cordeiro de disponibilizar, em caráter emergencial, o Memorial da Câmara Municipal e a estrutura do Legislativo para que a Academia possa realizar suas reuniões enquanto o processo de cessão do imóvel avança.

Esse gesto revela algo que considero essencial na vida pública: instituições devem existir para servir às pessoas e às causas que ajudam a construir a sociedade.

A Academia Conquistense de Letras não pertence apenas aos acadêmicos. Ela pertence à cidade. Da mesma maneira, o patrimônio histórico não pertence apenas ao governo de plantão. Ele pertence à memória coletiva.

A casa da palavra, da memória e da inteligência conquistense

É por isso que espero que esse processo avance com responsabilidade, transparência e, sobretudo, sensibilidade cultural.

Vitória da Conquista cresceu muito. Tornou-se uma das principais cidades do interior da Bahia e um importante polo regional de educação, saúde, comércio e serviços. Mas nenhum desenvolvimento será completo se a cidade perder a capacidade de reconhecer suas próprias raízes.

Uma cidade que esquece sua história corre o risco de perder parte de sua identidade. Uma cidade que preserva seus patrimônios e valoriza seus escritores demonstra que sabe de onde veio e deseja decidir conscientemente para onde vai.

O Solar dos Ferraz pode se transformar em muito mais do que um belo casarão preservado no Centro Histórico. Pode tornar-se a casa da palavra, da literatura, da memória e da inteligência conquistense.

E, se isso acontecer, talvez daqui a muitos anos alguém passe pela Praça Virgílio Ferraz, observe aquele antigo casarão e pergunte: “por que este lugar é tão importante?”

A resposta estará dentro dele. Estará nos livros. Estará nas histórias. Estará nas vozes dos escritores. Estará na memória daqueles que fizeram de Vitória da Conquista uma cidade de cultura.

E talvez seja esse o melhor destino que podemos oferecer a um patrimônio histórico: não apenas conservar suas paredes, mas permitir que continue contando a história da cidade para as futuras gerações.

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Padre Carlos Josaphat — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha