Prefeita afirma que novos equipamentos são importantes, mas defende prioridade para o financiamento da assistência e cobra mais recursos do Governo do Estado
A discussão sobre a saúde pública de Vitória da Conquista ganhou um novo capítulo — e, desta vez, a palavra que está no centro do debate é custeio.
Ao comentar uma fala do governador Jerônimo Rodrigues durante o debate entre os candidatos ao Governo da Bahia, a prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos, foi direta ao responder qual alternativa escolheria caso tivesse que optar entre receber recursos para custear a saúde ou ganhar um novo hospital.
“Eu quero custeio”, afirmou.
A declaração, dada em entrevista ao BandNews, traduz uma questão que costuma ficar escondida atrás das grandes obras: não basta construir um hospital; é preciso ter dinheiro para fazê-lo funcionar.
E hospital sem médico, sem medicamentos, sem profissionais, sem insumos e sem manutenção é apenas uma estrutura de concreto. A saúde pública, afinal, acontece dentro das paredes, mas depende do dinheiro que mantém essas paredes vivas.
“Se puder vir os dois, maravilha”
Sheila não descartou a importância de novos equipamentos. Pelo contrário. A prefeita deixou claro que, se houver possibilidade de receber as duas coisas, melhor ainda.
“Se puder vir os dois, maravilha”, afirmou.
Mas, diante da necessidade de escolher, a prioridade, segundo ela, deveria ser o custeio.
A lógica apresentada pela prefeita é simples: Vitória da Conquista já possui uma estrutura de saúde que precisa funcionar plenamente. Portanto, antes de acrescentar novos prédios à rede, seria necessário garantir recursos suficientes para manter e ampliar a assistência oferecida à população.
“É com o equipamento que nós já temos e com o dinheiro que vem que você vai dar assistência à saúde às pessoas”, argumentou.
É uma discussão menos fotogênica do que inaugurar um prédio novo, mas talvez muito mais importante para quem está do outro lado do balcão esperando atendimento.
A conta que não aparece na placa da inauguração
Toda grande obra pública costuma ter uma imagem poderosa: autoridades, capacetes, máquinas, fita sendo cortada e uma placa anunciando o investimento.
O problema é que a saúde não termina na inauguração.
Depois da fotografia vêm a folha de pagamento, os medicamentos, os exames, os contratos, a manutenção, os equipamentos, os profissionais e toda a engrenagem necessária para que o serviço continue funcionando diariamente.
Em Vitória da Conquista, esse debate ganha dimensão ainda maior porque a cidade exerce papel de polo regional de saúde.
Informações divulgadas pela própria administração municipal e repercutidas pela imprensa local apontam que o Hospital Municipal Esaú Matos atende pacientes de dezenas de municípios e enfrenta pressão financeira decorrente da demanda regional. Em entrevista publicada pelo Blog do Anderson, a direção da Fundação Pública de Saúde relatou déficit mensal e dificuldades relacionadas à defasagem dos recursos do SUS.
Ou seja: a conta da saúde conquistense não é apenas conquistense.
A crítica do governador e a resposta da prefeita
Na entrevista, Sheila também reconheceu parte da crítica feita pelo governador à atenção básica do município.
“Realmente não tá boa”, disse a prefeita, referindo-se à saúde básica e primária.
A frase chama atenção justamente porque não tenta fugir da questão. Mas, na sequência, Sheila apresenta aquilo que considera a raiz do problema:
“A gente só consegue fazer saúde se tiver o recurso. A gente não consegue fazer sem recurso.”
É aí que o debate deixa de ser apenas municipal e passa a envolver a relação entre os diferentes níveis de governo.
O Sistema Único de Saúde foi construído sobre uma lógica de responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios. Na prática, porém, a divisão de responsabilidades frequentemente encontra uma realidade bastante conhecida pelos prefeitos: a demanda chega primeiro à porta do município, mas o dinheiro nem sempre acompanha a velocidade da necessidade.
Hospital novo resolve?
A pergunta feita pelo governador — hospital ou custeio? — pode parecer simples, mas contém uma discussão bastante mais profunda.
Um novo hospital pode ampliar a capacidade instalada, criar novos leitos e melhorar a estrutura regional. Mas, sem financiamento permanente, a nova unidade corre o risco de se transformar em mais uma obrigação financeira para o município.
Por outro lado, investir exclusivamente no custeio sem ampliar a infraestrutura pode também ser insuficiente quando a demanda supera a capacidade instalada.
Por isso, a própria resposta de Sheila contém uma ressalva importante: “Se puder vir os dois, maravilha.”
Em outras palavras, a prefeita não está dizendo que Vitória da Conquista não precisa de novos equipamentos. Está afirmando que, diante de uma escolha, prefere garantir aquilo que considera essencial para fazer funcionar a estrutura que já existe.
Uma cidade que atende além dos seus limites
O problema ganha contornos ainda mais complexos quando se observa a posição de Vitória da Conquista no mapa da saúde baiana.
A cidade é um dos principais polos de atendimento médico do interior do Estado e recebe pacientes de diversas cidades da região. O próprio debate sobre o Esaú Matos evidencia essa característica: a unidade municipal atende uma população que ultrapassa os limites administrativos de Conquista.
Esse fenômeno não é novo.
Há anos a discussão sobre saúde em Vitória da Conquista envolve a necessidade de integração entre municípios, Estado e União. Em 2014, por exemplo, durante a campanha ao Governo da Bahia, já se discutia a criação de uma rede integrada envolvendo hospitais estaduais, municipais, privados e filantrópicos para atender à demanda regional.
Mais de uma década depois, a pergunta continua atual:
Quem paga a conta de uma cidade que atende uma região inteira?
O debate que precisa sair do palanque
A fala de Sheila Lemos coloca sobre a mesa um debate que merece ser tratado para além da disputa eleitoral.
Se a atenção básica está sobrecarregada, é preciso saber por quê.
Se os hospitais municipais recebem pacientes de outros municípios, é preciso discutir como esse atendimento será financiado.
Se existe necessidade de novos hospitais, é preciso estabelecer quem construirá, quem administrará e, principalmente, quem custeará a operação.
E se o problema está no financiamento, não basta anunciar investimentos pontuais. É necessário discutir recursos permanentes.
Porque saúde pública não funciona com inauguração.
Funciona segunda-feira de manhã, às três da tarde, de madrugada, no feriado e no domingo.
Funciona quando falta médico. Quando acaba o medicamento. Quando a fila cresce. Quando chega uma ambulância. Quando uma criança precisa de atendimento. Quando uma mãe procura a maternidade. Quando um idoso precisa de exame.
É aí que o custeio deixa de ser uma palavra técnica do orçamento e passa a ter rosto.
O dinheiro que salva vidas
A declaração da prefeita, portanto, desloca o debate de uma velha tentação da política brasileira: a obsessão pela obra visível.
Hospital aparece.
Custeio, muitas vezes, não.
Mas é o custeio que paga quem atende, compra o que é necessário, mantém o equipamento funcionando e permite que o serviço continue existindo depois que as autoridades deixam o palanque.
Sheila foi categórica ao justificar sua escolha: “senão nós não vamos conseguir salvar vidas”.
É uma frase forte — e que exige responsabilidade de todos os lados.
Ao Governo do Estado cabe responder se há disposição para ampliar o financiamento da saúde em Vitória da Conquista e em que condições.
Ao município cabe demonstrar com transparência onde os recursos são aplicados, quais são as prioridades e quais resultados estão sendo entregues.
E à população cabe acompanhar, cobrar e perguntar.
Porque, no fim das contas, hospital é patrimônio; custeio é funcionamento. E saúde pública precisa dos dois.
A grande questão que emerge da fala da prefeita não é, portanto, simplesmente escolher entre um prédio e dinheiro.
É saber quanto custa cuidar de uma população que transformou Vitória da Conquista em referência regional de atendimento — e quem deve assumir essa conta.
Esse talvez seja o verdadeiro debate que a eleição estadual precisa enfrentar.
Sem maquiagem.
Sem promessa vazia.
E, sobretudo, sem esquecer que por trás de cada número do orçamento existe alguém esperando ser atendido.





