Política e Resenha

Entre o real e o ideal: o Brasil na terceira encruzilhada

Análise  |  Eleições 2026

Entre o real e o ideal: o Brasil na terceira encruzilhada

Entre o real e o ideal: o Brasil na terceira encruzilhada

31 de agosto de 2026

F
oi lendo um texto do professor José Alcimar de Oliveira, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, que passei a enxergar a tal “polarização” brasileira de outro jeito. Não como um resumo do que ele escreveu, mas como uma reflexão que nasceu depois dessa leitura — e é dessa mudança de olhar que trata este artigo.

O Brasil chega perto de outubro com uma pergunta que já não é nova, mas segue incomodando: será que o país vai colocar, pela terceira vez seguida, a extrema-direita de volta ao poder? A cada eleição esse grupo político parece mais bravo, mais sem freio e mais organizado — não numa disputa comum de ideias, mas numa tentativa de tratar quem pensa diferente como um inimigo a ser apagado do mapa. Isso tem um nome, mas normalmente não é o nome que aparece nos jornais.

Chamamos isso de “polarização”. Mas será que é mesmo o nome certo? Polarizar é discordar, disputar, defender um lado. Tratar o outro lado como algo a ser eliminado é outra coisa — e vale a pena parar um instante para entender essa diferença antes de seguir adiante.

2018: quando a porta se escancarou

Em 2018 o Brasil viveu um dos momentos mais intensos de desgaste político dos últimos tempos. Muita gente chamou aquilo de polarização — como se fossem só dois times discutindo. Mas o filósofo alemão Theodor Adorno tinha uma ideia simples sobre para que serve a política: ela existe justamente para que as pessoas não acabem se agredindo umas às outras. Quando o debate público vira ataque pessoal e ódio organizado, a política já não está fazendo o seu trabalho.

2022: saímos do inferno, mas ainda não chegamos a lugar nenhum de tranquilo

Em 2022, ainda dentro dessa disputa desigual, a esquerda e o centro venceram a extrema-direita — só que por uma margem apertada. Foi um alívio, um respiro depois de anos difíceis. Mas alívio não é o mesmo que segurança. Saímos de uma situação muito ruim para uma situação apenas mediana: nem no fundo do poço, nem no lugar tranquilo que gostaríamos de estar.

“Cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas.”
— Karl Marx, ao comentar o Programa de Gotha

Karl Marx, mesmo sendo bastante crítico de certos programas políticos do seu tempo, deixou uma lição que ainda vale: de nada adianta ter o programa perfeito no papel se ele não vira ação concreta. A ideia é simples — continuar lutando, avançar no que é possível fazer agora, sem por isso desistir do que se sonha lá na frente.

2026: a mesma semente, ainda viva

O escritor alemão Bertolt Brecht morreu há setenta anos, em 1956, e uma de suas frases mais lembradas segue atual: o terreno que produziu o fascismo continua fértil. Ou seja — o perigo não desapareceu só porque perdeu uma eleição. A base que sustenta esse tipo de política continua ali, pronta para crescer de novo se ninguém cuidar do terreno.

E é por isso que a pergunta para 2026 não é “vamos ter uma terceira onda de polarização?” — é outra: desde a saída de Dilma Rousseff da presidência em 2016, movida por setores conservadores da elite econômica, o espaço de debate democrático foi sendo trocado, aos poucos, por linchamento e ódio organizado como estratégia política. Isso já não é discordância entre dois lados. Isso tem outro nome.

O vazio que a política não pode se dar ao luxo de ter

Existe um debate antigo na física sobre se pode existir vácuo — um espaço completamente vazio. Na política, essa dúvida não existe: quando um lado desiste de ocupar o debate público, de organizar as pessoas, de explicar suas ideias, esse espaço não fica vazio por muito tempo. Alguém sempre entra. E, como diz um velho ditado, cabeça vazia é oficina do diabo — o mesmo vale para o espaço público deixado sem disputa.

O que as pesquisas mostram agora

Enquanto esse debate segue no campo das ideias, as urnas de outubro já começam a aparecer nos números. Uma pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (31/08) traçou o retrato de um segundo turno tecnicamente empatado em praticamente todos os cenários testados.

Foram ouvidas 2.005 pessoas com 16 anos ou mais, por telefone, entre os dias 28 e 30 de agosto. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com 95% de confiança, e a pesquisa está registrada no TSE sob o código BR-08900/2026. Veja como ficaria o segundo turno em cada cenário testado:

Lula (PT) x Flávio Bolsonaro (PL-RJ)

Lula — 46%
Flávio Bolsonaro — 45%

Brancos/nulos/nenhum: 8%  •  Não sabem: 1%  •  Empate técnico, mesmo resultado da pesquisa anterior (24/08)

Lula (PT) x Ronaldo Caiado (PSD)

Lula — 44%
Ronaldo Caiado — 42%

Brancos/nulos/nenhum: 10%  •  Não sabem: 1%  •  Lula caiu 1 ponto e Caiado subiu 2, dentro da margem de erro

Lula (PT) x Romeu Zema (Novo)

Lula — 46%
Romeu Zema — 41%

Brancos/nulos/nenhum: 12%  •  Não sabem: 1%  •  Vantagem de Lula recuou um pouco frente à pesquisa anterior (47% a 41%)

Lula (PT) x Renan Santos (Missão)

Lula — 47%
Renan Santos — 38%

Brancos/nulos/nenhum: 14%  •  Não sabem: 1%  •  Vantagem de Lula é a maior entre todos os cenários testados

A pesquisa não projetou cenários com outros nomes ainda em disputa, como o escritor Augusto Cury (Avante).

Os números mostram um país dividido quase ao meio contra o principal adversário à direita, mas também mostram algo importante: quanto mais o discurso do outro lado escapa do centro e se aproxima do extremo, maior a vantagem de Lula. É um indício de que a maioria dos brasileiros, mesmo insatisfeita com muita coisa, ainda hesita diante do risco de um projeto radical. Essa hesitação é o “passo do movimento real” de que falava Marx: pequeno, mas decisivo. A tarefa de quem está à esquerda e no centro democrático é justamente não desperdiçar esse espaço — ocupá-lo com organização, presença e explicação, para que ele não seja preenchido, de novo, pelo ódio.


Política
Eleições 2026
Extrema-direita
Pesquisa Eleitoral
Opinião

Padre Carlos