Política e Resenha

A FIDELIDADE POLÍTICA ACIMA DA CONVENIÊNCIA PARTIDÁRIA

Política & Análise

Por Padre Carlos

Na política, há momentos em que uma decisão vale mais do que um discurso. É justamente nesses momentos que se mede a dimensão de uma liderança. Otto Alencar, senador da República e presidente do PSD da Bahia, está diante de uma dessas circunstâncias. O PSD nacional decidiu disputar a Presidência da República com Ronaldo Caiado, tendo Gilberto Kassab como candidato a vice. Mas a Bahia tomou outro caminho político: Otto reafirmou que o PSD baiano continuará apoiando Luiz Inácio Lula da Silva.

Não se trata de uma informação secundária dentro do cenário eleitoral de 2026. É uma demonstração concreta de que um partido nacional pode apresentar uma estratégia própria para a disputa presidencial e, ao mesmo tempo, preservar nos estados alianças políticas construídas ao longo dos anos. Otto não esconde essa posição. Ao contrário, tornou-a pública e reafirmou que sua fidelidade à aliança construída na Bahia permanece.

Uma trajetória construída sobre alianças

Essa posição ganha ainda mais significado quando se observa a trajetória política de Otto Alencar. Experiente, articulado, firme e reconhecido pela capacidade de diálogo, o senador construiu sua liderança política sobre relações que atravessaram diferentes momentos da história recente da Bahia. Em pronunciamento no Senado, ele próprio lembrou que, desde 2010, mantinha uma aliança política com Jaques Wagner, posteriormente estendida a Rui Costa e ao atual governador Jerônimo Rodrigues.

Na mesma manifestação, Otto afirmou que o PSD mantinha sustentação política aos governos de Lula no Senado e na Câmara e definiu sua posição como uma atuação de centro associada à defesa da área social. É nesse contexto que sua posição atual precisa ser compreendida. A política de Otto não parece estar sendo conduzida pela lógica de simplesmente acompanhar a decisão nacional do partido. Há uma lógica estadual, uma história de alianças e compromissos políticos que ele considera relevantes.

“Minha fidelidade ao senhor não vai parar em momento nenhum.”

— Otto Alencar, a Lula, julho de 2026

Quando declarou essa frase, Otto deixou explícita a natureza de sua escolha. O caso do PSD baiano revela, portanto, uma particularidade importante do federalismo partidário brasileiro. O mesmo partido pode ter, em Brasília, uma candidatura presidencial própria e, na Bahia, apoiar outro candidato à Presidência. Essa realidade pode parecer contraditória à primeira vista, mas é compatível com a diversidade das alianças estaduais que caracterizam a política brasileira.

Uma equação política específica

No caso baiano, Otto Alencar tornou-se o principal responsável por administrar essa equação. De um lado está a decisão nacional do PSD de disputar a Presidência com Ronaldo Caiado; de outro, está a decisão do diretório baiano de permanecer ao lado de Lula e da aliança política construída no estado. Não é uma questão de “terceira via”, nem de apresentar uma alternativa entre campos políticos. É uma situação mais específica: um partido com projeto presidencial próprio e uma direção estadual que mantém uma aliança presidencial diferente.

Duas estratégias, uma só legenda

É justamente aí que está o aspecto mais marcante da trajetória de Otto Alencar: a capacidade de separar a estratégia nacional do partido das relações políticas que considera fundamentais para a Bahia. O senador não rompeu com o PSD nacional, tampouco esconde que a legenda tem candidato à Presidência. Ao mesmo tempo, mantém sua posição em favor de Lula e da aliança política construída no estado.

O PSD baiano, sob sua liderança, segue uma lógica própria dentro da federação partidária. Otto Alencar, com sua experiência, sua serenidade, sua firmeza e sua capacidade de articulação, tornou-se o rosto dessa decisão. E talvez essa seja a imagem mais interessante para compreender o momento: enquanto o PSD nacional marcha com seu candidato à Presidência, o PSD da Bahia permanece ao lado de Lula.

No tabuleiro político brasileiro, são caminhos diferentes dentro da mesma legenda. E Otto Alencar deixou claro qual caminho pretende percorrer na Bahia.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha