Política e Resenha

O Dia da(o) Florista e as Pragas da Antevéspera da Primavera

José Alcimar de Oliveira*

“A rosa é sem porquê, floresce porque floresce, pouco importa se alguém a vê”
— Angelus Silesius

S
etembro: mês em que se inicia a primavera e se comemora o Dia da(o) Florista. E muito gostaria de falar da primavera, das flores (inclusive as do bem) sem manifestar a menor restrição às do mal da bela e forte composição poética de Baudelaire. Setembro é meu mês preferido, porque nele vim ao mundo e agora caminho para os 70 no próximo dia 15. Mas no Brasil, neste 2026, setembro se iniciou estranho, pesado, aterrador, sob o registro de uma espetacularização mediática do palco político. Como subtrair cinzas aos dias?

I. O silêncio que fala mais alto

Nunca o silêncio foi mais explícito, óbvio e falou com tanta força como nessa quebra de sigilo (nome sofisticado para vazamento seletivo), que desde o dia 01 de setembro de 2026, e ainda, continua a hegemonizar o noticiário do poder mediático nacional e associado. Vários setores da burguesia entraram em ritmo de festim. Ainda não é o fim da história. Cabe perguntar: a quem interessa implodir o STF numa ação pensada e modulada por um ministro do próprio STF, direcionada a um único ministro do STF para, a partir do alvo escolhido, embaralhar o jogo político?

E toda a ação a poucos dias das eleições presidenciais de 2026. Desde o dia um desse mês o Brasil reativou e acelerou mais uma vez o velho e regressivo modo golpista. Mas como dar voz ao que é silenciado e produzido pelo silêncio de um vazamento seletivo? De quantos silêncios seletivos se constitui um golpe de Estado?

II. O apelo do STF e o silêncio das instituições

Do atual presidente do STF, ministro Edson Fachin, veio o apelo à “serenidade, responsabilidade e firmeza”. Apelo necessário. Mas faltou imprimir energia ao apelo. Golpismo não se combate de modo anódino e protocolar. Mesmo sob o Estado burguês a guarda maior do ainda constitucional Estado Democrático de Direito é atribuição do STF.

Por que se eximir de dar nome próprio às coisas. O que esperar das ruas, de onde deveria se organizar a verdadeira resistência? No momento, penso que pouco ou nada, para ser otimista. E dos Sindicatos, Movimentos, Associações, Instituições Civis, Universidades e Institutos Públicos de Ensino e Pesquisa Federais, Estaduais, Distritais e Municipais? Apenas silêncio obsequioso? E do Congresso, em grande medida pautado pelo reacionarismo? Menos ainda. O Executivo está acuado.

Só nos resta, na verdade, o STF, contraditoriamente de onde emergiu a faísca que ameaça se alastrar e submergir todo o arcabouço institucional num golpe dentro do golpe dentro do golpe… Parodiando o grande Brecht: onde há aquelas e aqueles que lutam e resistem, a solução só poderá vir de quem luta e resiste.

III. A aposta da extrema direita

A extrema direita, com um candidato medíocre, que, organicamente, só tem a seu favor o antipetismo, fez uma aposta com muitas consequências e risco. Foi para o tudo ou nada. Se tudo prosperar a seu favor e o golpe se consolidar, com o Império do Norte cercando o que trata como seu quintal, tendo ocupado e transformado a Venezuela em sua mais rica colônia, vamos desgraçadamente concluir que os quatro anos do inominável foi apenas a antecâmara do inferno. O poder do pior sempre pode mais.

Post scriptum

Ontem revisitei meditações sobre o silêncio e o recolhimento feitas pelo monge trapista Thomas Merton, precocemente falecido em 1968, aos 53 anos. Seguem atuais suas palavras diante do inferno e da agitação, da tagarelice e da superficialidade desses tempos de redes digitais:

“No inferno não há recolhimento. Os condenados são exilados não só de Deus e dos outros, mas de si mesmos.”

Em síntese, penso: não é preciso recorrer à metafísica da cristandade medieval para concluir pela existência do inferno. Ele nos cerca — e, pior, pode nos habitar de forma histórica, contínua e imanente.

*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Setembro de 2026.

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José Alcimar de Oliveira — Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas — Política e Resenha