Política e Resenha

ARTIGO — Entre a Igreja e o Partido: quando a verdade cabia dentro de uma única instituição

 

Padre Carlos

 

Houve um tempo em que o mundo parecia dividido por fronteiras muito mais rígidas do que as fronteiras geográficas. Era o tempo das grandes certezas, das verdades absolutas e das instituições que acreditavam possuir não apenas uma verdade, mas a verdade. Do início do século XX até a Segunda Guerra Mundial, a humanidade viveu sob o peso de grandes ideologias políticas, religiosas e filosóficas que disputavam o coração e a consciência das pessoas.

No universo católico, durante séculos prevaleceu uma compreensão que pode ser resumida na conhecida expressão “fora da Igreja não há salvação”. A frase tinha raízes teológicas profundas e não pode ser interpretada simplesmente como uma condenação automática de todos os que não pertenciam formalmente à Igreja. Mas, na prática histórica, ela alimentou durante muito tempo uma visão segundo a qual a Igreja Católica ocupava uma posição privilegiada como guardiã da verdade e da salvação.

Do outro lado do espectro político, especialmente depois da Revolução Russa de 1917, outra espécie de certeza ganhou força. Para muitos militantes revolucionários, não existia esquerda verdadeira fora do Partido Comunista. Ser socialista, revolucionário ou defensor dos trabalhadores parecia exigir uma adesão quase religiosa a uma determinada doutrina e, em muitos casos, a uma organização política.

É interessante perceber a semelhança psicológica entre essas duas atitudes aparentemente opostas. De um lado, a Igreja; do outro, o Partido. De um lado, a ortodoxia religiosa; do outro, a ortodoxia ideológica. Em ambos os casos, havia pessoas que acreditavam ter encontrado o caminho definitivo para explicar a realidade.

O século XX foi extraordinariamente fértil em contradições. Homens e mulheres atravessaram fronteiras que seus próprios grupos consideravam intransponíveis. Católicos tornaram-se socialistas. Socialistas aproximaram-se do cristianismo. Comunistas romperam com Stalin. Religiosos defenderam a democracia contra regimes autoritários. Intelectuais de esquerda criticaram o próprio socialismo real.

É justamente aí que aparece uma questão fascinante: seria possível, naquele universo de identidades tão rígidas, alguém ser simultaneamente católico e comunista?

Tomemos uma hipótese quase provocativa: e se Svetlana Alliluyeva, filha de Josef Stalin, tivesse decidido ser católica e, ao mesmo tempo, permanecesse comunista? Para muitos militantes de seu tempo, isso pareceria uma contradição insuportável. Para muitos católicos, também.

Mas talvez a contradição dissesse mais sobre as instituições do que sobre a pessoa.

Porque uma pessoa é sempre maior do que o partido ao qual pertence, maior do que a religião que professa e maior ainda do que os rótulos que os outros lhe atribuem.

A história mostrou isso muitas vezes.

Um dos grandes dramas intelectuais do século XX foi justamente a dificuldade que tivemos para compreender que ninguém possui o monopólio da verdade. Nem a Igreja, nem o Partido, nem o Estado, nem uma ideologia, nem sequer um grande intelectual.

Paulo Freire é um exemplo extraordinário dessa questão.

Paulo Freire foi um homem profundamente marcado pelo cristianismo e, ao mesmo tempo, tornou-se um dos maiores símbolos da educação popular e da esquerda brasileira. Sua pedagogia dialogou com o marxismo, com o pensamento cristão, com a filosofia e com as experiências concretas das classes populares.

Isso criou uma situação curiosa: para alguns setores conservadores, Freire era simplesmente “comunista”. Para determinados setores da esquerda, tornou-se quase uma referência incontestável. E talvez ambas as posições sejam insuficientes para compreender a complexidade do homem e de sua obra.

Grandes homens também carregam contradições.

E talvez seja justamente a capacidade de conviver com contradições que os torna grandes.

O problema começa quando transformamos pensadores em santos e adversários em demônios. Quando fazemos isso, deixamos de estudar suas ideias para simplesmente venerá-las ou destruí-las.

O cristianismo possui uma longa tradição de pensamento, mas também possui uma história de conflitos internos, reformas e revisões. A esquerda possui igualmente uma história marcada por sonhos generosos de justiça social, mas também por autoritarismos, dogmatismos e experiências políticas que produziram sofrimento.

Não precisamos abandonar nossas convicções para reconhecer isso.

Ao contrário.

Uma convicção verdadeiramente madura é aquela que consegue sobreviver ao questionamento.

A Segunda Guerra Mundial deveria ter ensinado alguma coisa à humanidade. O nazismo demonstrou até onde pode chegar uma sociedade quando uma ideologia transforma seres humanos em categorias inferiores. O stalinismo mostrou, por outro caminho, os perigos da concentração absoluta do poder e da transformação de uma ideologia emancipadora em instrumento de controle político.

Depois da tragédia, tornou-se ainda mais necessário desconfiar daqueles que dizem possuir respostas definitivas para todos os problemas humanos.

A fé pode existir sem fanatismo.

A política pode existir sem dogmatismo.

A esquerda pode existir sem culto ao partido.

A direita pode existir sem autoritarismo.

E a Igreja pode anunciar sua verdade sem transformar todos os que pensam diferente em inimigos.

Talvez essa seja uma das maiores lições que podemos retirar do século XX: a verdade não precisa ter medo da liberdade.

Quando uma pessoa precisa proibir a pergunta para preservar sua certeza, talvez já não esteja defendendo a verdade, mas apenas protegendo uma crença.

Foi assim em muitos momentos da história religiosa. Foi assim também em muitos momentos da história política.

E é justamente por isso que precisamos olhar para grandes figuras como Paulo Freire sem transformá-las em ídolos. Podemos admirar sua contribuição e, ao mesmo tempo, discutir seus limites. Podemos reconhecer sua importância sem transformar cada uma de suas ideias em dogma.

A liberdade intelectual começa quando conseguimos dizer: “concordo com você em algumas coisas e discordo em outras, mas continuo reconhecendo sua humanidade e sua contribuição.”

Talvez o verdadeiro amadurecimento da sociedade moderna esteja justamente nessa passagem: sair do mundo em que só havia lugar para os “de dentro” e construir uma sociedade capaz de dialogar com os “de fora”.

Durante séculos, muitos acreditaram que não havia salvação fora da Igreja.

Em determinado momento da história política, muitos acreditaram que não havia esquerda fora do Partido.

Hoje sabemos que a realidade humana é muito mais complexa.

Uma pessoa pode ser religiosa e defender justiça social. Pode ser de esquerda e criticar o comunismo. Pode ser católica e discordar da hierarquia. Pode admirar Marx sem ser marxista. Pode admirar Paulo Freire e questionar aspectos de sua pedagogia.

A maturidade democrática começa exatamente aí.

Quando deixamos de perguntar a que tribo alguém pertence e começamos a perguntar o que essa pessoa tem a dizer.

Talvez essa seja a grande ruptura entre o século das certezas e o século da liberdade: compreender que ninguém precisa abandonar completamente sua identidade para conversar com quem pensa diferente.

A história não é feita por santos perfeitos nem por demônios absolutos.

É feita por seres humanos.

E os seres humanos, felizmente, são contraditórios.