Política e Resenha

O velho casarão que guarda uma história que Vitória da Conquista quase esqueceu

Memória • Patrimônio • Vitória da Conquista

H
á lugares que parecem apenas envelhecer. E há lugares que, enquanto envelhecem, guardam silenciosamente aquilo que uma cidade não pode se dar ao luxo de esquecer.

No sopé da Serra do Periperi, do outro lado da serra, existe um desses lugares.

Ali permanece, resistindo ao tempo, um velho casarão cuja presença discreta contrasta com a importância da história que pode estar escondida entre suas paredes. Para quem passa, talvez seja apenas uma construção antiga, marcada pelo tempo, cercada pela paisagem e quase silenciosa diante da cidade que cresceu ao seu redor. Para quem conhece ou se interessa pela história de Vitória da Conquista, porém, aquele casarão pode representar muito mais.

Pode ser um documento.

Pode ser uma testemunha material de um período em que a cidade ainda estava começando a se formar.

Pode ser, sobretudo, uma das poucas construções capazes de nos aproximar fisicamente de uma Vitória da Conquista que desapareceu.

É justamente aí que começa a inquietação.

Quem construiu aquele casarão? Quem viveu ali? Que famílias passaram por aquelas terras? Que acontecimentos ocorreram naquele lugar? E por que uma construção aparentemente esquecida pode ter relação com algumas das famílias mais importantes da formação social, econômica e política de Vitória da Conquista?

Essas perguntas não são meros exercícios de curiosidade. Elas nos conduzem a uma história que envolve antigos proprietários, famílias pioneiras, casamentos, deslocamentos, formação de linhagens e a própria ocupação do território conquistense.

O casarão teria sido construído há aproximadamente dois séculos. Isso, por si só, já seria suficiente para despertar a atenção de qualquer pessoa preocupada com a preservação do patrimônio histórico. Mas sua importância pode ser ainda maior quando colocada diante do desaparecimento de outros vestígios dos primeiros tempos da cidade.

A antiga capela associada a João Gonçalves da Costa não existe mais. Os primeiros casebres de pau a pique do antigo Arraial da Conquista desapareceram. A paisagem mudou, os caminhos mudaram, a cidade cresceu e a modernidade foi apagando, pouco a pouco, as marcas materiais de sua própria origem.

O casarão, entretanto, permaneceu.

E talvez seja exatamente por isso que ele mereça ser olhado de outra maneira. Não apenas como uma construção antiga, mas como um fragmento material da memória de Vitória da Conquista.

Há uma diferença enorme entre contar a história de uma cidade e poder tocar um pedaço dessa história. Livros registram acontecimentos. Documentos preservam nomes. Fotografias congelam momentos. Mas uma construção antiga possui uma força particular: ela sobrevive fisicamente às pessoas que a construíram e pode atravessar gerações como uma testemunha silenciosa.

Aquele casarão é, nesse sentido, um livro aberto — ainda que suas páginas sejam feitas de pedra, madeira, barro e tempo.

E talvez uma das histórias mais interessantes esteja justamente nos nomes que se encontram ao redor dele.

PRATES  •  GUSMÃO  •  LEMOS  •  SALES GUSMÃO

Famílias que, ao longo das gerações, se entrelaçaram por meio de casamentos, negócios, relações sociais, atividade política, fé e trabalho, ajudando a construir a sociedade conquistense.

É nesse ponto que o velho casarão deixa de ser apenas uma paisagem do passado e passa a fazer parte de uma pergunta maior:

quantos dos lugares que ajudaram a construir Vitória da Conquista ainda estão de pé — e quantos nós já deixamos desaparecer sem sequer compreender sua importância?

Talvez a história daquele casarão seja justamente uma dessas histórias que precisam ser recuperadas antes que o tempo leve também o último vestígio de sua existência.

Porque uma cidade não é feita apenas de avenidas, prédios e obras modernas.

Uma cidade também é feita das marcas que conseguiu preservar.

E, às vezes, é preciso parar diante de uma velha casa para descobrir que, dentro dela, ainda mora uma cidade inteira.

Aquele velho casarão, situado no sopé da Serra do Periperi, guarda uma história que merece ser conhecida, preservada e, sobretudo, valorizada. Aquela localidade está ligada às primeiras famílias que chegaram e se estabeleceram em Vitória da Conquista e, sem dúvida, ocupa um lugar importante na memória da formação da cidade.

Ali foi construído, há aproximadamente duzentos anos, um casarão que, tudo leva a crer, pode ser considerado um dos mais antigos marcos históricos da origem de Vitória da Conquista. Hoje, a propriedade pertence aos herdeiros do ex-prefeito Dr. Raul Ferraz.

A importância daquele casarão aumenta quando lembramos que a antiga capela construída por João Gonçalves da Costa foi demolida e que o próprio casebre que servia de residência ao fundador teve existência relativamente curta. Os demais casebres e casas de pau a pique que formavam o antigo Arraial da Conquista também desapareceram com o tempo.

Por isso, é preciso que as autoridades olhem com mais carinho para esse lugar. Preservar aquele casarão significa preservar uma parte concreta da memória de Vitória da Conquista. Se tantos dos primeiros vestígios materiais da cidade desapareceram, aquele prédio pode representar uma das poucas testemunhas ainda existentes de um tempo que já não podemos recuperar.

Tudo leva a crer que o casarão esteve ligado à família de Lourenço da Cruz Prates. A família Prates, como se sabe, está entre as primeiras famílias a ocupar a região de Vitória da Conquista. Trata-se, inclusive, da mesma família à qual pertence o deputado federal conhecido como Léo Prates.

O ENCONTRO DE PLÁCIDO GUSMÃO COM A FAMÍLIA PRATES

Lá pelos idos de 1820, Plácido da Silva Gusmão, oriundo de Araçuaí, em Minas Gerais, era um próspero negociante de cavalos e muares. Naquele tempo, esses animais constituíam um dos principais meios de transporte e tinham enorme importância para a economia e para a circulação de pessoas e mercadorias.

Plácido Gusmão era um grande comerciante desses animais. Em determinada ocasião, trouxe uma grande tropa com destino a Santo Amaro, no Recôncavo da Bahia, onde pretendia realizar seus negócios.

Ao passar por Vitória da Conquista, encontrou um lugar apropriado para pousar e descansar, tanto ele quanto seus companheiros e os animais, antes de prosseguir viagem. Essa pousada ficava justamente na fazenda onde hoje se encontra o velho casarão.

E é aí que a história ganha um de seus capítulos mais interessantes.

Plácido da Silva Gusmão foi bem acolhido pelo fazendeiro Lourenço da Cruz Prates. Durante aquela permanência, apaixonou-se pela filha do fazendeiro. O relacionamento prosperou, firmou-se o compromisso e, pouco tempo depois, Plácido Gusmão casou-se com a filha de Lourenço da Cruz Prates.

Desse encontro nasceu uma das importantes linhagens familiares que ajudariam a formar a sociedade conquistense.

Lourenço da Cruz Prates e Plácido Gusmão constituíram dois importantes troncos familiares que, juntamente com os descendentes de João Gonçalves da Costa, contribuíram para a formação da comunidade e da população de Vitória da Conquista.

GUSMÃO, PRATES E LEMOS: OS TRONCOS DE UMA CIDADE

Existe uma tradição segundo a qual, quando chegou à região, a família Gusmão teria se instalado nas proximidades do Capinal, área conhecida como Jiboeiro. Daí teria surgido uma denominação associada à própria família, conhecida como família Jiboeiro, identificada como um dos ramos da família Gusmão.

Seja exatamente no sopé da Serra do Periperi, seja nas imediações do Capinal, na região conhecida como Jiboia, o fato é que a presença da família Gusmão está profundamente ligada à formação histórica de Vitória da Conquista.

O mais importante é compreender que essas famílias constituíram alguns dos troncos familiares que ajudaram a povoar e desenvolver a região. A família Lemos veio em seguida, e, com o passar das gerações, houve um intenso entrelaçamento entre Prates, Gusmão e Lemos.

São histórias de famílias que se cruzaram por meio dos casamentos, da amizade, dos negócios, da vida social e, sobretudo, da construção de uma comunidade.

A ASCENSÃO DA FAMÍLIA GUSMÃO

A família Gusmão tornou-se uma das famílias de maior destaque na região, principalmente pela trajetória de alguns dos descendentes de Plácido Gusmão.

Entre eles está Tertuliano Gusmão, conhecido como “Velho Terto”. Homem de grande projeção em sua época, adquiriu conhecimentos evangélicos e teve participação importante na introdução e organização da tradição evangélica em Vitória da Conquista.

Quando olhamos para a descida, do outro lado da Serra do Periperi, encontramos justamente o velho casarão, vizinho da belíssima residência da fazenda que pertenceu ao ex-prefeito Raul Ferraz e que hoje está nas mãos de seus herdeiros.

É impossível passar por aquele lugar sem pensar na quantidade de histórias que aquelas paredes poderiam contar.

A FAMÍLIA SALES GUSMÃO

Com o passar das gerações, a família Gusmão também se entrelaçou, por meio de casamentos, com membros da família Sales. Dessa união nasceu uma das mais tradicionais e importantes famílias da história de Vitória da Conquista: a família Sales Gusmão.

A família Sales Gusmão teve participação expressiva na vida social, econômica e, principalmente, política do município. Seus membros participaram ativamente dos destinos administrativos de Vitória da Conquista.

Um dos grandes nomes dessa linhagem foi Gerson Gusmão Sales, considerado por muitos analistas da política conquistense como uma das maiores lideranças políticas da história do município. Foi prefeito de Vitória da Conquista por duas vezes e exerceu enorme influência na vida política local.

Outros integrantes da família Sales Gusmão também ocuparam posições importantes na administração municipal, entre eles Nelson Gusmão Cunha, vereador, presidente da Câmara Municipal e prefeito interino por mais de um ano.

Nelson Gusmão, além de empresário bem-sucedido, constituiu uma sólida família. Entre seus filhos, destaca-se o Dr. Hernani Gusmão. Ao prestar exame para ingressar na Faculdade de Medicina da Bahia, obteve o primeiro lugar.

Tornou-se um médico competente, mestre e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Autor de mais de dez livros, destacou-se não apenas na medicina e na vida acadêmica, mas também como astrônomo e poeta. É, enfim, um cidadão de bem e do bem, pertencente a essa importante família Gusmão de Vitória da Conquista.

Na mesma linhagem encontramos os descendentes de Gerson Gusmão Sales. Muitos de seus filhos, praticamente todos, seguiram o caminho da formação universitária.

Entre eles está o Dr. Orlando Sales, que também foi professor da Universidade Federal da Bahia, no curso de Medicina, e se tornou um dos mais renomados médicos da Bahia.

Também pertence a essa mesma tradição familiar o Dr. Manoel Augusto, um dos principais nomes ligados à criação e à fundação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, a UESB. Dr. Manoel Augusto aposentou-se como juiz de Direito da comarca de Vitória da Conquista.

São trajetórias diferentes, em áreas diferentes, mas que revelam a força de uma família que participou de maneira decisiva da construção social, política, intelectual e profissional de Vitória da Conquista.

PRESERVAR O CASARÃO É PRESERVAR A MEMÓRIA

Por tudo isso, aquele velho casarão situado do outro lado da Serra do Periperi não pode ser visto simplesmente como uma construção antiga.

Ele é um documento.

É uma testemunha silenciosa.

É uma espécie de livro de pedra e madeira onde estão inscritas histórias de famílias, de encontros, de casamentos, de trabalho, de política e de formação da própria cidade.

Por isso, as autoridades de Vitória da Conquista deveriam olhar para aquele patrimônio com especial atenção.

Não se trata apenas de preservar o Cristo de Mário Cravo, no alto da Serra, embora o tombamento e a preservação daquela obra tenham enorme importância para a memória conquistense. Trata-se também de compreender que patrimônio histórico não é apenas aquilo que é monumental ou artisticamente reconhecido.

Patrimônio também é aquilo que guarda a memória de quem fomos.

Preservar a história talvez seja tão importante quanto preservar os grandes símbolos da cidade. Afinal, uma geração que perde seus marcos históricos perde também parte da capacidade de compreender a própria origem.

Aquele casarão pode ser justamente uma dessas pontes entre o passado e o presente.

Ali passaram homens e mulheres que ajudaram a construir Vitória da Conquista. Ali se cruzaram famílias como Prates, Gusmão, Lemos e Sales. Ali está uma parte da história que não aparece nos livros com a força que deveria.

E se a cidade destrói seus últimos vestígios, chega um momento em que a história deixa de ser memória e passa a ser apenas imaginação.

Por isso, é preciso preservar.

Para que os conquistenses de hoje saibam de onde vieram.

E para que as futuras gerações possam olhar para aquele velho casarão e compreender que, muito antes dos prédios, das avenidas e da cidade moderna, houve homens e mulheres que começaram, naquele chão, a construir a história de Vitória da Conquista.

HERZEM GUSMÃO: UMA NOVA PÁGINA DE UMA VELHA HISTÓRIA

Não podemos encerrar essa lembrança sem mencionar um dos mais conhecidos e polêmicos prefeitos da história recente de Vitória da Conquista: Herzem Gusmão.

Descendente da tradicional família Gusmão, Herzem foi radialista, jornalista, bacharel em Direito e um dos grandes comunicadores da história recente da cidade.

Sua trajetória política o levou à Prefeitura de Vitória da Conquista, onde se tornou uma figura de enorme projeção e protagonismo na vida pública municipal.

Herzem foi, assim, mais um capítulo de uma história que começou muitas décadas antes, quando Plácido Gusmão chegou à região com sua tropa de animais, encontrou acolhida na propriedade de Lourenço da Cruz Prates e, naquele encontro, constituiu uma família que se tornaria parte inseparável da história de Vitória da Conquista.

É justamente por isso que aquele velho casarão merece ser olhado de outra maneira.

Ele não é apenas velho.

Ele é memória.

E talvez, entre suas paredes silenciosas, esteja guardada uma das mais antigas histórias da cidade que aprendemos a chamar de nossa.

MEMÓRIA
PATRIMÔNIO HISTÓRICO
VITÓRIA DA CONQUISTA
FAMÍLIAS TRADICIONAIS
SERRA DO PERIPERI

Durval Lemos Menezes

Texto e pesquisa histórica sobre a formação social de Vitória da Conquista.