Artigo de Opinião — Memória e Reparação Histórica
Uma reparação de nome, de autoria e de justiça histórica
Há equívocos que o tempo consolida e que só a insistência da verdade é capaz de desfazer. Um deles é o nome com que a cidade, por hábito e por esquecimento, passou a chamar um dos seus casarões mais imponentes: o “casarão dos Ferrazes”. Escrevo este artigo não para disputar sobrenomes, mas para devolver a Vitória da Conquista um capítulo de sua própria memória que foi silenciosamente apagado. Aquela casa não nasceu dos Ferrazes. Aquela casa foi erguida, habitada e vivida por mais de quarenta anos por um homem chamado João Lopes — e é como casarão dos Lopes que a história, bem contada, deveria conhecê-la.
O nome que a cidade esqueceu de guardar
É comum que, com o passar das gerações, uma casa grande acabe herdando o sobrenome de quem por último a habitou, de quem a comprou, ou simplesmente de quem ficou mais recente na lembrança coletiva. É assim que memórias inteiras se apagam sem que ninguém perceba o crime: não por malícia, mas por omissão. João Lopes casou-se com uma mulher da família Ferraz, e é razoável supor que tenha sido esse laço matrimonial — e não a autoria, não a construção, não os quarenta anos de residência — que deu origem ao nome que hoje circula de boca em boca. Mas um casamento não apaga uma biografia. E a biografia de João Lopes é, ela mesma, parte estrutural da formação econômica e urbana de Vitória da Conquista.
“A casa era identificação de culto e alma de João Lopes. Perante toda a comunidade, era ele — e não a família de sua esposa — quem se fazia presente naquela praça, naquele jardim, naquele casarão.”
O homem que trouxe a indústria para Conquista
João Lopes não foi um simples proprietário de terras nem um comerciante qualquer entre tantos que passaram pela então pujante Conquista. Foi, isto sim, o primeiro grande empresário a instalar na cidade uma indústria própria — a de louças e azulejos —, num tempo em que produzir localmente aquilo que antes só se importava era um gesto de visão e de coragem. Foi também provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista, dedicando parte de sua energia e de seus recursos ao cuidado dos mais frágeis. E foi um dos primeiros a fazer funcionar, com dignidade e competência, a Associação Comercial Empresarial Industrial, organizando uma classe produtiva que até então caminhava dispersa. Chegou a ser candidato a prefeito da cidade, respeitadíssimo por toda a comunidade — um homem rico, sim, mas rico de um jeito que construía cidade, não apenas patrimônio pessoal.
O Jardim que a cidade não sabia que precisava
Antes de João Lopes, Vitória da Conquista ainda não possuía uma praça urbanizada. Foi ele, com recursos inteiramente próprios, quem construiu o belíssimo jardim conhecido pela cidade como Jardim de Lopes — a Praça João Lopes, hoje o espaço onde se ergue o prédio da Receita Federal. Não houve verba pública, não houve comissão, não houve edital: houve um homem que amava Conquista, mesmo sem nela ter nascido, e que decidiu dar à cidade um lugar de convívio e de beleza que ela ainda não tinha sabido pedir para si.
Se a praça carregou seu nome por direito e por gratidão popular, por que razão a casa onde ele viveu por mais de quatro décadas haveria de carregar o nome de outra família?
Um retrato do legado, em linhas gerais
Para dimensionar a presença de João Lopes na vida conquistense, vale organizar em poucas linhas as frentes em que sua atuação deixou marca profunda na cidade:
| Frente de Atuação | Contribuição de João Lopes |
| Indústria | Primeiro grande industrial de Conquista, fundador de indústria de louças e azulejos |
| Filantropia | Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista |
| Classe Empresarial | Organizador da Associação Comercial Empresarial Industrial |
| Vida Pública | Candidato a prefeito de Vitória da Conquista, respeitado pela comunidade |
| Urbanismo | Construtor, com recursos próprios, da primeira praça urbanizada da cidade — o Jardim de Lopes |
| Residência | Morador do casarão por mais de 40 anos, ao lado de sua família |
Um retrato visual simples ajuda a enxergar o peso relativo de cada uma dessas frentes na construção da presença pública de João Lopes na cidade:
Por que “dos Ferrazes” apaga a autoria
Nomear um bem histórico não é um detalhe decorativo: é um ato de memória, é dizer à cidade a quem ela deve aquele patrimônio. Chamar o casarão de “dos Ferrazes” é atribuir a uma família por afinidade aquilo que pertence, por autoria, esforço e vivência, a João Lopes. É como celebrar o jardineiro do vizinho pelo jardim que outro plantou. Não se trata de negar a família Ferraz ou de disputar honrarias — trata-se, simplesmente, de restituir o nome de quem ergueu a casa com as próprias mãos e nela viveu a maior parte de sua vida adulta, construindo ao redor dela uma cidade inteira.
Se a praça em frente ainda guardasse hoje o nome de Jardim de Lopes, ninguém hesitaria em chamar a casa ao seu lado de casarão dos Lopes. É hora de a cidade reconciliar esses dois símbolos e devolver a João Lopes o crédito que a história, por descuido, deixou escapar.
Que fique registrado, então, com todas as letras: aquele não é o casarão dos Ferrazes. É o casarão de João Lopes. É a casa dos Lopes.
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Durval Lemos Menezes
Articulista e cronista da história de Vitória da Conquista





