Política e Resenha

ARTIGO — QUANDO UMA FOTOGRAFIA DEVOLVE A JUVENTUDE

 

 

Padre Carlos

Hoje, ao navegar pela vastidão da internet, uma fotografia me fez parar.

Não era uma fotografia qualquer. Era o rosto de alguém que eu não via havia mais de trinta anos. Por alguns segundos, fiquei olhando para aquela imagem como quem olha para uma janela aberta para um tempo distante. E, de repente, a internet deixou de ser internet. Transformou-se numa máquina do tempo.

O homem da fotografia era José Sérgio Gabrielli.

E, ao reencontrar Gabrielli, reencontrei também um pedaço de mim.

Voltei aos anos 1970. Voltei à juventude, quando a política ainda tinha para mim o sabor da descoberta, da esperança e da rebeldia. Eu cursava o Ensino Médio e participava do movimento secundarista. Gabrielli, ao lado de Zezéu, brilhava no movimento universitário. Eram tempos de efervescência política, de debates intermináveis, de sonhos enormes e de uma geração que acreditava que o Brasil poderia ser transformado.

Hoje, olhando para trás, percebo que talvez não soubéssemos exatamente o tamanho das dificuldades que enfrentaríamos. Mas sabíamos que não queríamos permanecer indiferentes diante delas.

É difícil explicar para quem não viveu aquela época o que significava ser jovem e acreditar que as ideias podiam mudar o mundo.

A política não era apenas uma disputa por cargos. Era, para muitos de nós, uma forma de existência. Era acreditar que a democracia, a justiça social, os direitos dos trabalhadores e a construção de um país menos desigual eram causas pelas quais valia a pena dedicar tempo, energia e até a própria juventude.

Foi nesse ambiente que nossas histórias se cruzaram.

Mais tarde, a aproximação ganhou uma dimensão ainda maior com a construção do Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980, num período em que o Brasil começava a respirar novos ares políticos depois de anos de autoritarismo. O PT nasceu naquele ambiente de reorganização da sociedade civil e dos movimentos sociais que marcou o início dos anos 1980. (Atlas Histórico do Brasil)

Em 1982, apoiei a candidatura de Zé Sérgio Gabrielli a deputado federal. Estávamos juntos, entre outros companheiros, com Paulo Pontes e Zé Sérgio Dapievi. Éramos um grupo que, carinhosamente, chamávamos de “Cordão da Orla”.

Hoje, talvez essas palavras pareçam pequenas diante da história que veio depois.

Mas é justamente aí que mora a força da memória.

A história não é feita apenas dos grandes acontecimentos que aparecem nos livros. Ela também é feita das conversas nas esquinas, das reuniões, dos amigos, das campanhas eleitorais, dos sonhos compartilhados e daqueles momentos em que jovens acreditavam que estavam ajudando a escrever um novo capítulo da história do Brasil.

E nós estávamos.

O tempo, entretanto, tem uma maneira silenciosa de passar.

As pessoas tomam caminhos diferentes. As circunstâncias mudam. A vida profissional se impõe. A família chega. Os filhos crescem. As responsabilidades aumentam. Alguns amigos permanecem próximos; outros desaparecem do nosso cotidiano.

Mas desaparecer do cotidiano não significa desaparecer da história de alguém.

Foi isso que aquela fotografia me ensinou.

Gabrielli seguiu sua trajetória. Tornou-se professor, dirigente e personagem importante da vida pública brasileira. Chegou à presidência da Petrobras, onde permaneceu entre 2005 e 2012. A Petrobras, por sua vez, atravessaria naquele período transformações importantes em sua trajetória empresarial e na exploração de petróleo, dentro de um processo que marcou profundamente a história recente da companhia. (Portal da Transparência Petrobras)

Mas, diante daquela fotografia, confesso que não foi o presidente da Petrobras que enxerguei primeiro.

Eu enxerguei o jovem.

Enxerguei aquele companheiro dos tempos do movimento estudantil. Enxerguei o homem que fazia parte de uma geração que acreditava na política como instrumento de transformação.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas e mais dolorosas do envelhecimento: descobrimos que carregamos dentro de nós várias versões de quem fomos.

O jovem continua existindo em algum lugar da nossa memória.

Ele apenas ficou escondido atrás das rugas, das responsabilidades, das perdas, das conquistas e das marcas que o tempo deixou.

Quando encontramos alguém que pertenceu àquela época, é como se uma porta se abrisse.

E, do outro lado dela, estão os nossos vinte anos.

Estão os amigos.

Estão as discussões.

Estão os sonhos.

Estão também aqueles que não chegaram conosco até aqui.

Por isso, aquele reencontro virtual com José Sérgio Gabrielli foi muito mais do que uma lembrança política.

Foi um encontro com a minha própria história.

E talvez seja por isso que algumas fotografias tenham um poder que nenhuma palavra consegue explicar.

Elas congelam o tempo, mas também o ressuscitam.

Aquela imagem me fez pensar no Brasil de hoje.

Vivemos uma época de profunda polarização política. O debate público muitas vezes se transformou numa guerra de identidades. O adversário deixou de ser alguém que pensa diferente e passou, muitas vezes, a ser tratado como inimigo.

É curioso pensar nisso quando lembro daquela juventude.

Não porque naquela época não existissem divergências. Existiam, e muitas. A esquerda brasileira sempre foi plural, atravessada por diferentes correntes, pensamentos e projetos. O próprio movimento de reconstrução democrática e estudantil daquele período foi marcado por disputas, diferenças e intensa participação política. (FGV ID 020)

Mas havia algo que parece ter se perdido em algum lugar do caminho: a capacidade de acreditar que pessoas diferentes poderiam participar de um projeto coletivo.

Talvez essa seja uma das grandes lições que a memória nos oferece.

Não precisamos concordar em tudo para caminhar juntos.

Não precisamos pensar exatamente da mesma maneira para reconhecer no outro um companheiro de humanidade.

A política precisa voltar a compreender isso.

Porque uma democracia não é construída apenas quando vencemos uma eleição. Ela também é construída quando aprendemos a conviver com quem perdeu, quando conseguimos ouvir quem discorda e quando somos capazes de reconhecer que o Brasil é maior do que qualquer partido, qualquer liderança ou qualquer projeto individual.

Ao olhar para aquela fotografia, fiquei pensando nos sonhos que tínhamos.

Quantos deles sobreviveram?

Quantos foram abandonados?

Quantos se transformaram?

E quantos ainda continuam dentro de nós, esperando uma oportunidade para voltar a florescer?

Talvez os ideais de juventude não morram.

Talvez eles apenas amadureçam.

O jovem que queria mudar o mundo descobre, com o passar dos anos, que o mundo é mais complexo do que imaginava. Descobre que a política é feita de contradições, que as pessoas são imperfeitas e que nenhuma transformação acontece exatamente como sonhamos.

Mas isso não significa que devemos abandonar os sonhos.

Significa apenas que precisamos aprender a sonhar de outra maneira.

Foi isso que o reencontro com Zé Sérgio Gabrielli me fez pensar.

A fotografia trouxe de volta uma época, mas trouxe também uma pergunta: o que fizemos com os sonhos daquela juventude?

Não tenho uma resposta definitiva.

Talvez ninguém tenha.

Sei apenas que algumas pessoas permanecem ligadas a nós por uma espécie de fio invisível. Podemos passar décadas sem vê-las, sem conversar com elas, sem saber exatamente por onde caminham. Mas basta uma fotografia, uma música, uma rua ou uma lembrança para que tudo volte.

É como se o tempo dissesse:

“Eu levei vocês para longe, mas não consegui apagar o que vocês viveram.”

E talvez seja esse o verdadeiro significado da amizade.

Não é necessariamente estar presente todos os dias.

É permanecer.

Permanecer na memória.

Permanecer na história.

Permanecer naquele lugar íntimo onde guardamos as pessoas que ajudaram a construir quem somos.

Por isso, meu reencontro com José Sérgio Gabrielli não termina em Gabrielli.

Ele termina em todos nós.

Porque todos temos um “José Sérgio Gabrielli” em nossa vida.

Todos temos alguém que representa uma época.

Um amigo de escola.

Um companheiro de militância.

Um professor.

Um colega de trabalho.

Alguém com quem dividimos um sonho que, naquele momento, parecia grande demais para caber dentro de nós.

E talvez seja justamente por isso que reencontrar essas pessoas tenha tanto poder sobre nossas emoções.

Porque não reencontramos apenas alguém.

Reencontramos quem éramos quando estávamos ao lado daquela pessoa.

Hoje, depois de tantas décadas, olho para aquela fotografia e percebo que o tempo não apagou aquela história.

Ele apenas a colocou em silêncio.

E, de repente, uma imagem encontrada por acaso na internet fez o silêncio desaparecer.

Por alguns instantes, voltei a ser aquele jovem que acreditava na força das ideias, na política, na amizade e na possibilidade de construir um Brasil diferente.

Talvez seja isso que a memória faz conosco.

Ela nos devolve aquilo que pensávamos ter perdido.

E, ao reencontrar um velho companheiro de lutas, descobri que algumas partes da nossa juventude não envelhecem.

Elas apenas esperam que alguém, ou alguma fotografia, nos ajude a encontrá-las novamente.

Padre Carlos