
Uma reflexão sobre memória, militância e o que a política perdeu pelo caminho
Há uma geração inteira escondida em fotografias amareladas — homens e mulheres que um dia acreditaram que transformar o mundo também significava estar juntos, dividir o pão, dançar um forró e não abandonar os companheiros pelo caminho.
Há fotografias que envelhecem mais depressa do que as pessoas.
Ficam esquecidas numa gaveta, dentro de uma caixa de sapatos, entre documentos antigos, cartas que ninguém mais lê e santinhos de campanhas eleitorais que já não dizem nada a ninguém. O papel amarela. As bordas se gastam. A tinta perde a força. Mas os rostos permanecem.
Olhe bem para uma dessas fotografias.
Talvez haja um salão simples. Cadeiras de plástico. Uma mesa improvisada. Um microfone que insiste em falhar. Cartazes pregados tortos na parede. Rostos jovens, ainda sem os sulcos que o tempo depois desenharia. Há mãos levantadas numa plenária. Há olhos acesos. Há suor. Há esperança.
E, em algum canto, talvez alguém esteja sorrindo.
Não era preciso muito.
Uma lona estendida no terreno baldio. Uma fogueira. Uma sanfona. Um pouco de cachaça. Uma panela de comida. Um forró improvisado para arrecadar alguns trocados para a campanha.
E assim se fazia política.
Mas, olhando hoje para aquela fotografia, talvez percebamos que ali havia alguma coisa que não cabia nos estatutos, nas atas das reuniões ou nos programas partidários.
Havia pertencimento.
Aquelas pessoas não estavam apenas organizadas em torno de uma ideia.
Elas estavam juntas. E talvez seja justamente isso que tenhamos perdido.
O Cheiro da Política de Antigamente
Quem viveu os anos 1970, 1980 e 1990 sabe que a política brasileira tinha outro cheiro.
Tinha cheiro de mimeógrafo. De papel recém-impresso. De café passado numa cozinha pequena. De suor depois de uma caminhada. De poeira levantada nas ruas. De salão de sindicato. De igreja de bairro. De reunião que começava às oito e terminava quase à meia-noite.
E tinha também o cheiro da esperança.
A esquerda brasileira nasceu e cresceu em ambientes onde política e vida cotidiana quase se confundiam. O movimento sindical, as pastorais, as comunidades populares, o movimento estudantil, as associações de bairro e tantas outras formas de organização social ajudaram a criar uma cultura política que não dependia apenas de estruturas formais.
Era uma política feita de gente.
Gente que chegava cedo. Gente que carregava cadeira. Gente que emprestava o carro. Gente que fazia comida. Gente que vendia rifas. Gente que colocava alguns reais dentro de um envelope porque acreditava que aquela pequena contribuição ajudaria a mudar alguma coisa.
Não havia grandes estruturas. Havia vontade.
E havia uma palavra que talvez tenha envelhecido junto com aquela geração: companheiro.
Companheiro não era simplesmente uma forma de tratamento. Era quase uma promessa.
Significava: “eu caminho com você”. Significava: “se você cair, eu ajudo a levantar”. Significava: “se perdermos, voltamos amanhã”.
Talvez por isso algumas das amizades construídas naquele tempo tenham sobrevivido a eleições, derrotas, mudanças de partido, casamentos, separações e até às divergências políticas. Porque antes de serem adversários, aquelas pessoas haviam sido companheiras.
Uma História de Amor Nascida na Militância
Conheço uma história que sempre me pareceu bonita demais para ser esquecida.
Uma amiga encontrou seu companheiro justamente dentro daqueles ambientes de militância.
Não foi num aplicativo. Não foi num restaurante sofisticado. Não foi numa festa planejada para solteiros. Foi naqueles encontros em que se misturavam política, juventude, música e esperança.
Havia um arraial. Havia gente trabalhando. Havia gente discutindo política. Havia uma fogueira. Havia um forró.
E, no meio daquela confusão bonita da juventude, duas pessoas se encontraram.
O tempo passou. Eles se casaram. E continuam juntos.
Talvez essa pequena história diga mais sobre aquela época do que muitos discursos. Porque havia uma dimensão da política que hoje parece quase esquecida: a política também era lugar de encontro.
As pessoas não se encontravam apenas para decidir candidaturas. Encontravam-se para conversar. Para rir. Para namorar. Para brigar. Para fazer as pazes. Para comer. Para cantar. Para sonhar.
O coletivo era uma espécie de casa. E quando uma comunidade política deixa de ser casa, alguma coisa fundamental começa a desaparecer.
“A convivência, mesmo quando produz conflito, também produz humanidade. Quando nos encontramos repetidamente com alguém, conhecemos seus defeitos, sua família, suas dificuldades. A convivência impede que o outro se transforme completamente em caricatura.”
Sem Romantizar o Passado
Não quero romantizar aquele passado. Seria intelectualmente desonesto.
Havia sectarismo. Havia intolerância. Havia disputas duríssimas. Havia erros. Havia dogmatismos. Havia gente que acreditava possuir a verdade inteira dentro de uma pequena fração do mundo.
A esquerda nunca foi um território de santos. Aliás, talvez nenhuma política seja.
Mas havia uma diferença importante. As pessoas tinham tempo para conviver. E a convivência, mesmo quando produz conflito, também produz humanidade.
Quando nos encontramos repetidamente com alguém, conhecemos seus defeitos. Conhecemos sua família. Conhecemos suas dificuldades. Sabemos quando está triste. Sabemos quando está doente. Sabemos quando perdeu alguém.
Hoje, muitas vezes, basta uma divergência para que o antigo companheiro seja transformado em inimigo. Uma publicação nas redes sociais. Uma frase. Uma votação. Uma escolha de candidatura. Um cargo. E pronto.
Aquele que ontem dividia o pão passa a ser acusado de traição. O amigo vira adversário. O companheiro vira obstáculo. O antigo aliado vira nome que não deve mais ser pronunciado.
E talvez aí esteja uma das maiores tragédias da política contemporânea. Não aprendemos apenas a discordar. Aprendemos a desumanizar quem discorda.
As Vaidades por Trás das Bandeiras
A história da esquerda brasileira também é uma história de sucessivos rachas. Muitos deles nasceram, evidentemente, de divergências ideológicas reais.
Mas seria ingênuo acreditar que todas as rupturas foram apenas fruto de grandes debates sobre concepções de mundo. Às vezes, a bandeira ideológica apenas ofereceu uma linguagem nobre para uma disputa muito mais antiga e muito mais humana: a disputa das vaidades.
Ego ferido. Protagonismo. Ressentimento. Falta de escuta. Ambição. Dificuldade de reconhecer o mérito do outro. A velha necessidade humana de ser o dono da última palavra.
É uma ironia histórica que uma tradição política fundada na ideia de emancipação possa, em determinados momentos, tornar-se tão dependente de personalidades.
O culto à personalidade não pertence apenas aos regimes autoritários. Ele pode surgir também onde se fala diariamente em democracia. Basta que o projeto coletivo comece a ter rosto demais.
Quando isso acontece, o partido deixa de ser instrumento e passa a ser extensão de seus líderes.
E o companheiro deixa de ser companheiro. Passa a ser corrente interna. Grupo. Tendência. Apoio. Voto. Número.
Quando o Movimento Vira Instituição
Foi assim, aos poucos, que o movimento foi se transformando em instituição.
O sindicato ganhou estrutura. O partido ganhou sede. O mandato ganhou gabinete. A campanha ganhou profissionais. A comunicação ganhou especialistas. A política ganhou marketing.
E o militante ganhou, muitas vezes, uma função cada vez menor.
A institucionalização trouxe conquistas extraordinárias. Não se pode negar isso. A chegada de forças populares às instituições abriu portas antes fechadas. Produziu direitos, políticas públicas, representatividade e novas possibilidades históricas.
Mas toda conquista carrega também seus custos.
Quando o movimento entra no Estado, precisa aprender a linguagem do Estado. Quando chega ao governo, precisa administrar. Quando administra, precisa negociar. Quando negocia, precisa ceder. Quando precisa vencer eleições, aprende a calcular.
E quando aprende demais a calcular, corre o risco de esquecer por que começou a caminhar.
Talvez essa seja uma das grandes contradições da política moderna: o movimento precisa chegar ao poder para transformar a realidade, mas o poder pode transformar o movimento.
Onde Estão Agora?
E onde estão agora aqueles que foram protagonistas dessa história? Essa é a pergunta que mais me incomoda.
Alguns morreram. Outros se afastaram. Alguns foram para casa. Outros simplesmente desistiram. Há quem tenha sido derrotado. Há quem tenha sido esquecido. Há quem tenha sido descartado. Há quem ainda participe, mas já não reconheça a casa onde um dia entrou cheio de esperança.
Aquela juventude envelheceu. Os cabelos embranqueceram. As mãos que seguravam bandeiras agora seguram remédios, bengalas, netos, documentos de aposentadoria. Os pés que percorriam bairros inteiros já não caminham com a mesma facilidade.
Os que gritavam palavras de ordem agora falam mais baixo. Alguns perderam a voz. Outros perderam amigos. E alguns perderam até a vontade de contar suas histórias.
Mas eles continuam carregando algo que nenhum arquivo partidário possui completamente: memória. Eles sabem quem estava lá. Quem chegou primeiro. Quem ajudou. Quem traiu. Quem resistiu. Quem chorou. Quem morreu. Quem foi injustiçado. Quem nunca recebeu homenagem. Quem desapareceu sem deixar fotografia oficial.
A História Subterrânea
Há uma história oficial da política. Ela está nos livros. Nas atas. Nos jornais. Nos arquivos. Nas fotografias de palanque.
Mas existe outra história. Uma história subterrânea. A história dos anônimos.
A história da mulher que cozinhava para os militantes. Do trabalhador que emprestava o carro. Do estudante que distribuía panfletos. Do rapaz que colava cartazes de madrugada. Do aposentado que contribuía com uma pequena quantia. Da família que abria a sala de casa para uma reunião. Do sujeito que perdeu a eleição, mas voltou no dia seguinte para ajudar quem havia vencido.
Essa gente raramente aparece nos monumentos. Mas sem ela os monumentos talvez nem existissem.
Uma instituição registra uma eleição. Uma pessoa lembra quem chorou depois da derrota. Um partido registra um mandato. Uma pessoa lembra quem caminhou quilômetros para fazer campanha. Um arquivo guarda uma ata. Uma memória guarda um abraço.
E talvez seja por isso que a memória seja tão perigosa para o poder. Porque ela devolve rosto aos números.
Reencontrar uma Geração
Existe uma geração inteira que precisa ser reencontrada. Não necessariamente para voltar aos palanques. Não para disputar cargos. Não para pedir voto. Não para ocupar fotografias de campanha.
É preciso reencontrá-la para ouvir. Para perguntar: Como era? Quem estava lá? O que vocês sonhavam? O que aconteceu? Quem ficou pelo caminho? Onde erramos? O que perdemos?
Talvez algumas respostas doam. E é justamente por isso que precisam ser ouvidas.
Uma política sem memória fica condenada a repetir seus próprios erros com novos personagens. Muda o cenário. Mudam os nomes. Mudam os partidos. Mudam as bandeiras.
Mas os velhos ressentimentos continuam esperando numa esquina qualquer.
O Militante Não Cabe numa Planilha
Resgatar a figura do militante não é saudosismo. É resistência.
Porque o militante não é um número na estatística eleitoral. Não é uma filiação partidária. Não é um voto. Não é uma fotografia conveniente ao lado de uma liderança.
O militante é um ser humano. Tem carne. Tem história. Tem contradições. Tem amor. Tem fé. Tem frustrações. Tem derrotas. Tem sonhos. E, sobretudo, tem memória.
Talvez a política contemporânea tenha se tornado eficiente demais para perceber isso. Tudo precisa ser mensurado. Engajamento. Alcance. Voto. Intenção. Conversão. Rejeição.
A política transformou pessoas em métricas.
Mas uma pessoa não cabe numa planilha. Uma vida não cabe numa pesquisa eleitoral. Uma amizade não cabe numa estratégia de campanha. E uma história de cinquenta anos não pode ser apagada porque seu protagonista deixou de ser útil.
Abrir Novamente as Gavetas
Talvez esteja na hora de abrir novamente aquelas gavetas. De procurar as fotografias. De perguntar pelos nomes que ninguém mais menciona.
De visitar os antigos militantes. De sentar com eles. Ouvir suas histórias. Deixar que contem as derrotas. As vitórias. Os erros. Os romances. As brigas. As festas. As madrugadas. Os sonhos. As decepções.
Porque uma sociedade que só procura seus heróis quando eles ainda podem lhe dar votos não está fazendo política. Está fazendo cálculo. E cálculo não substitui memória.
Volto à Fotografia
Ela continua ali. O papel amarelado. Os rostos jovens. As mãos levantadas. Aquela alegria quase infantil de quem acreditava que o mundo podia mudar.
Talvez alguns daqueles rostos já não estejam vivos. Talvez outros estejam sentados sozinhos numa sala, olhando pela janela. Talvez alguém tenha guardado aquela fotografia durante cinquenta anos.
Talvez uma filha tenha encontrado a imagem recentemente e perguntado: — Quem são essas pessoas?
E talvez o pai tenha respirado fundo antes de responder. Porque como explicar uma juventude inteira em poucas palavras? Como explicar que aqueles desconhecidos foram, um dia, seus companheiros? Como explicar que ali havia sonhos? Como explicar que ali havia uma época?
Como explicar que algumas das pessoas daquela fotografia ajudaram a construir o mundo que veio depois — mas foram esquecidas por ele?
É difícil. Muito difícil. Porque o tempo é um fotógrafo cruel. Ele deixa algumas pessoas no enquadramento. E corta outras.
Talvez o maior gesto de coragem política hoje não seja construir mais um palanque. Talvez seja voltar para aqueles que ficaram fora da fotografia oficial. Ouvir quem foi esquecido. Reconhecer quem foi deixado para trás. Dar nome aos anônimos. Devolver dignidade aos antigos companheiros.
Não para idealizar o passado. Mas para compreender o presente. Porque ninguém constrói futuro sobre um chão onde os mortos foram esquecidos e os vivos foram descartados.
Não se faz história sem sujeitos. E não se constrói futuro apagando quem construiu o passado.
Talvez aquela fotografia não esteja velha. Talvez sejamos nós que tenhamos envelhecido demais para enxergá-la.
E talvez, no fundo daquela gaveta, entre o papel amarelado e a poeira dos anos, ainda exista uma coisa que a política moderna parece ter perdido: a capacidade de olhar para um rosto e enxergar nele um companheiro antes de enxergar um adversário.
É por isso que precisamos voltar à fotografia.
Não para morar no passado. Mas para lembrar quem éramos antes que o poder nos ensinasse a esquecer uns dos outros.
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Sobre o autor Um escritor interessado nas memórias esquecidas da política brasileira e nas pessoas que construíram a história por trás dos palanques. |




