Política e Resenha
Durval Lemos Menezes
Há lugares que desaparecem do mapa, mas continuam existindo dentro da memória de quem os conheceu. Há vilas que deixam de ter casas, ruas, comércio e gente, mas permanecem vivas nas histórias contadas por seus últimos habitantes. Foi com esse sentimento que, neste último fim de semana, aproveitando o feriado dedicado a Nossa Senhora das Vitórias, padroeira de Vitória da Conquista, fiz um retiro pelo Vale do Rio Gavião e cheguei à antiga comunidade de Lage do Gavião.
Confesso que não estava preparado para o que encontrei.
Ou melhor: para o que não encontrei.
Não havia movimento. Não havia comércio. Não havia crianças correndo pelas ruas, homens conversando nas portas, mulheres preparando o almoço, sino chamando para a missa. Não havia sequer uma casa habitada.
Havia apenas o silêncio.
E, entre os escombros, a memória.
Uma vila que já foi centro de tudo
É difícil imaginar que aquele lugar, hoje transformado em uma espécie de vila fantasma, já foi um dos mais importantes centros de desenvolvimento daquela região da Caatinga. No início do século passado, Lage do Gavião era mais desenvolvida do que muitas localidades que hoje possuem posição consolidada no mapa do sudoeste baiano. Era o centro convergente de uma vasta região, atraindo pessoas, mercadorias, comerciantes, religiosos e viajantes.
Ali existia usina de beneficiamento de algodão, armazéns, estabelecimentos comerciais, escola, posto policial, cartório, banda de música e uma igreja que, segundo a memória dos antigos moradores, era uma das mais importantes de toda aquela região.
A padroeira não era Nossa Senhora. Era São Gonçalo.
E as festas religiosas de Lage do Gavião tinham uma dimensão que ultrapassava os limites da pequena comunidade. Gente de Vitória da Conquista, Brumado, Poções e até de Salvador se deslocava para participar das celebrações.
Imagine isso.
Uma pequena comunidade encravada no sertão, às margens do Rio Gavião, transformada em ponto de encontro de gente de lugares distantes. A fé reunia pessoas. O comércio movimentava a economia. A cultura dava identidade à comunidade.
Lage do Gavião tinha vida.
Tinha futuro.
Tinha gente.
E talvez seja justamente isso que torna sua história tão dolorosa.
Porque uma vila não desaparece apenas quando suas casas caem. Uma vila desaparece quando as novas gerações deixam de saber que ela existiu.
Lage do Gavião, felizmente, ainda resiste em algumas memórias.
E uma dessas memórias tem nome, voz e sorriso: Dona Aurora Rezadeira.
Dona Aurora Rezadeira: memória viva do vale
Ao chegar ao povoado do Alegre, encontrei uma mulher extraordinária. Nascida em 27 de julho de 1918, Dona Aurora carrega 108 anos de vida e, mais do que isso, carrega dentro de si uma biblioteca viva da história do Vale do Rio Gavião.
Ela é, segundo as informações que ouvi durante a visita, uma das últimas — senão a última — testemunhas vivas daquela antiga Lage do Gavião.
E que testemunha!
Dona Aurora não conta o passado como quem repete uma história decorada. Ela parece voltar a ele.
Lembra dos pais, das famílias para as quais trabalhou, das pessoas, dos costumes, das águas do rio, das canoas que subiam e desciam transportando pessoas e mercadorias.
Conta que, quando menina, ficava observando as canoas navegando pelo Rio Gavião.
Hoje, o mesmo rio que um dia serviu como caminho para pessoas e mercadorias pode ser atravessado, em determinados pontos, sem qualquer dificuldade por uma criança.
O tempo tem dessas ironias.
Aquilo que já foi estrada líquida para o comércio pode se transformar em um simples riacho.
Aquilo que já foi centro de uma região pode virar ruína.
Aquilo que já teve centenas de vozes pode ser tomado pelo silêncio.
Dona Aurora também guarda pequenas lembranças que, aparentemente insignificantes, são justamente aquelas que tornam a história humana.
Ela recorda, por exemplo, que, quando seus pais deixaram uma família para a qual trabalhavam, receberam uma quantia em dinheiro. Com aquele valor, compraram seis pratos, seis xícaras e um urinol.
Ela faz questão de pronunciar a palavra.
Urinol.
E sorri.
É impossível não sorrir também.
Porque a história não é feita apenas de grandes acontecimentos, guerras, governos e personagens famosos. A história também é feita de seis pratos, seis xícaras, um urinol, uma menina olhando as canoas e uma mulher de 108 anos contando tudo isso com um sorriso.
É aí que percebemos que a memória é uma coisa extraordinária.
Ela guarda aquilo que os documentos oficiais muitas vezes esquecem.
Os filhos ilustres da vila esquecida
Lage do Gavião também foi berço de personagens importantes da história de Vitória da Conquista e da Bahia.
De lá saiu o engenheiro Dr. Advaldo Flores, que foi prefeito de Vitória da Conquista e chegou a governar a Bahia. Daquela região também veio Dona Olívia Flores, nome que hoje identifica uma das mais importantes avenidas de Vitória da Conquista.
Ali nasceu ainda Erathósthenes Menezes, poeta, tabelião, vereador por vários mandatos, um dos fundadores da Academia Conquistense de Letras e seu presidente.
Na mesma região nasceram ou foram criadas pessoas ligadas a importantes famílias da vida pública e cultural do sudoeste baiano, entre elas a mãe do ex-deputado Leônidas Cardoso e da professora e escritora Ana Isadel Rocha.
E há ainda uma lembrança que, para mim, possui um significado particularmente especial.
Meu avô, Abdias Menezes, viveu naquela região e foi o primeiro professor nomeado pelo Governo do Estado para ensinar naquela comunidade, atendendo centenas de crianças.
Quando caminho por aqueles lugares, portanto, não estou apenas visitando uma ruína.
Estou, de alguma maneira, caminhando por dentro da minha própria história.
A tragédia das águas
Mas o que aconteceu com Lage do Gavião?
A resposta está nas águas.
Segundo a memória preservada pelos antigos moradores, grandes chuvas atingiram a Bahia nas primeiras décadas do século XX e provocaram uma devastação extraordinária naquela região do Vale do Rio Gavião.
A força das águas teria sido tão intensa que arrastou casas, destruiu construções e modificou profundamente a vida da comunidade.
Dona Aurora, com seus 108 anos, ainda conserva relatos desse passado transmitidos pela memória familiar e comunitária.
Para quem conhece a força das enchentes do sertão, talvez seja possível imaginar a cena.
A água descendo com violência.
O rio crescendo.
As margens desaparecendo.
As casas sendo ameaçadas.
A população tentando salvar o que podia.
E depois, quando a água finalmente baixou, nada mais era como antes.
As famílias começaram a partir.
Umas foram para Vitória da Conquista. Outras para Brumado, Poções, Anagé, Condeúba, Aracatu e outras localidades.
A vila que antes atraía pessoas passou a expulsá-las.
E assim começou a morte lenta de Lage do Gavião.
Mas a história não terminou exatamente ali.
Do luto ao Alegre: uma nova esperança
Em 1951, durante a administração do prefeito de Vitória da Conquista Gerson Gusmão Sales, foi criado, em uma área mais elevada e próxima da antiga Lage do Gavião, o povoado do Alegre.
A ideia era construir uma nova comunidade em local mais seguro.
Foram distribuídos lotes. Surgiram praça, escola, posto de saúde, mercado, igreja e campo de futebol.
Nascia uma nova esperança.
O Alegre tornou-se, de certa maneira, o filho que nasceu depois da tragédia.
E existe uma ironia bonita nessa história.
Lage do Gavião morreu.
O Alegre nasceu.
Uma comunidade recebeu o peso da tragédia; outra recebeu o nome da esperança.
Ao longo do tempo, o povoado do Alegre passou por diferentes administrações territoriais, tendo pertencido a Aracatu, depois a Anagé e, após mudanças na delimitação territorial, passou para o município de Caetanos.
Hoje, o Alegre continua vivo.
E quem chega ali encontra um povo trabalhador, ordeiro e, sobretudo, alegre.
A vida seguiu.
Ao redor do povoado, propriedades agrícolas produzem manga, pinha e coco. A agricultura encontrou novas possibilidades. O trabalho continua sendo a força que mantém aquela comunidade de pé.
E há também uma tradição artesanal que merece ser conhecida e valorizada: a fabricação de chapéus de couro.
Ali, artesãos trabalham o couro de boi e de bode e produzem peças que ultrapassam os limites da Bahia.
Entre os admiradores desse artesanato estão nomes conhecidos da cultura regional, como o cantor e compositor Elomar Figueira Mello e o cantor e compositor Xangai.
É bonito perceber que uma região pode perder uma vila e, ao mesmo tempo, preservar uma identidade.
Lage do Gavião desapareceu.
Mas o povo não desapareceu.
A cultura não desapareceu.
A memória não desapareceu.
Talvez seja essa a maior lição de toda essa história.
Existe uma frase atribuída ao químico francês Antoine Lavoisier que diz que, na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
Com as comunidades humanas também acontece algo parecido.
Uma vila pode desaparecer. Uma igreja pode virar ruína. Uma estrada pode deixar de ser usada. Um rio pode mudar seu curso. Um povoado pode mudar de município.
Mas a história encontra outras formas de permanecer. Ela permanece numa fotografia. Num nome de avenida. Num livro. Num antigo sino. Numa ruína. Numa lembrança. Ou na voz de uma mulher de 108 anos.
O sino que mudou de cidade
E há ainda uma história envolvendo o antigo sino da Igreja de São Gonçalo que merece ser registrada.
Dona Aurora conta que o sino daquela igreja era considerado um dos maiores de toda a região. Como Lage do Gavião estava encravada no vale, o som de suas badaladas, segundo a memória dos moradores, podia ser ouvido a muitos quilômetros de distância.
Depois que a vila foi destruída, o sino permaneceu entre os escombros.
Anos mais tarde, segundo o relato de Dona Aurora, três padres foram até o local e retiraram o gigantesco sino, levando-o para Caetité.
Não sei quantas vezes aquele sino tocou.
Mas gosto de imaginar que, durante décadas, suas badaladas foram uma espécie de voz da comunidade.
Chamava para a missa.
Anunciava festas.
Marcava acontecimentos.
Reunia pessoas.
E talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu com a própria Lage do Gavião: enquanto havia gente, havia sino; enquanto havia comunidade, havia voz.
Hoje, resta o silêncio.
Mas é preciso ter cuidado com o silêncio.
Porque silêncio não significa necessariamente ausência.
Às vezes, o silêncio é apenas uma forma diferente de a memória falar.
Quando olhei para os escombros da antiga Igreja de São Gonçalo, não enxerguei somente pedras velhas.
Vi uma multidão que já não está ali.
Vi comerciantes abrindo suas portas.
Vi crianças correndo.
Vi professores ensinando.
Vi agricultores chegando.
Vi famílias preparando suas casas para as festas.
Vi pessoas atravessando longas distâncias para celebrar São Gonçalo.
Vi meu avô ensinando crianças.
Vi o rio cheio.
Ouvi, dentro da imaginação, o sino.
E então compreendi que uma vila pode morrer duas vezes.
A primeira morte acontece quando as pessoas partem.
A segunda acontece quando ninguém mais se lembra.
Lage do Gavião já sofreu a primeira.
Não podemos permitir que sofra a segunda.
Memória como patrimônio
É preciso registrar suas histórias, fotografar seus escombros, ouvir seus últimos testemunhos, preservar os nomes, identificar os lugares e contar às novas gerações que ali existiu uma comunidade que foi importante para a formação social, econômica, religiosa e cultural de uma parte significativa do sudoeste da Bahia.
Porque memória também é patrimônio.
E patrimônio não é apenas aquilo que está restaurado, pintado e protegido por uma placa.
Às vezes, patrimônio é uma ruína. É um sino que mudou de cidade. É um velho caminho. É uma história contada por uma senhora de 108 anos. É uma fotografia de uma igreja que já não existe. É o nome de uma vila que quase desapareceu.
Quando deixei Lage do Gavião, levei comigo uma sensação difícil de explicar.
Era tristeza, certamente.
Mas não era apenas tristeza.
Era também gratidão.
Gratidão por ter conhecido aquele pedaço esquecido da nossa história.
Gratidão por ter encontrado Dona Aurora.
Gratidão por ouvir uma mulher que atravessou mais de um século e ainda consegue sorrir quando fala do passado.
E talvez tenha sido justamente o sorriso dela que me ensinou a última lição.
A história de Lage do Gavião é triste.
Mas não precisa terminar na tristeza.
Porque, ao lado das ruínas, existe o Alegre.
E o Alegre continua vivendo.
A vida, afinal, tem uma extraordinária capacidade de renascer onde muitos imaginam que tudo terminou.
Morreu a antiga Lage do Gavião.
Ficaram os escombros. Ficou o rio. Ficou a memória. Ficou Dona Aurora. Ficaram os descendentes. Ficaram as histórias.
E enquanto houver alguém disposto a contá-las, Lage do Gavião continuará existindo.
Talvez não mais como vila.
Mas como memória.
E, às vezes, memória é a forma mais resistente de vida que existe.





