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Do apedrejamento ao tombamento: a longa reconciliação de Conquista com seu Cristo
Nesta segunda-feira, Dia Nacional do Patrimônio, o Monumento ao Cristo Crucificado é reconhecido como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico de Vitória da Conquista
Às dez da manhã desta segunda-feira, dia 17, Dia Nacional do Patrimônio, a Serra do Periperi será palco de um gesto que, à primeira vista, parece apenas protocolar: a cerimônia oficial de tombamento do Monumento ao Cristo Crucificado. Mas quem conhece a história desta escultura sabe que não se trata de um mero rito administrativo. Trata-se do reconhecimento tardio — e por isso mesmo ainda mais precioso — de que Vitória da Conquista abriga, em sua paisagem mais alta, um dos gestos artísticos mais radicais e mais conquistenses já erguidos sobre pedra e ferro.
Tive a honra e a responsabilidade de elaborar o parecer técnico que fundamentou essa proteção institucional, atuando como membro do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Vitória da Conquista — órgão cuja missão é identificar, salvaguardar e promover a valorização dos nossos bens de relevância cultural, natural e arquitetônica. Escrevo, portanto, não como observador distante, mas como alguém que debruçou meses sobre documentos, memórias orais e registros fotográficos para sustentar, com rigor técnico, o que a cidade já sabia no corpo: que aquele Cristo pertence a todos nós.
Uma tese, uma vida, um monte
Essa solenidade ganha, para mim, um significado ainda mais profundo. O monumento de Mário Cravo Júnior é também o objeto central da minha pesquisa no Doutorado em Linguística/Análise do Discurso pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), sob a orientação da linguista Edvânia Gomes da Silva. A proposta da tese é analisar o Cristo Crucificado como um acontecimento discursivo — porque a obra rompe radicalmente com a tradição da iconografia sacra clássica, habituada a um Cristo angelical e sereno, para impor a crueza do expressionismo em uma figura macérrima, de traços sertanejos e feições de dor.
Não é exagero afirmar que Cravo Júnior, ao esculpir aquele corpo emagrecido, de ossos aparentes e rosto vincado pelo sofrimento, fez o que poucos artistas sacros ousaram fazer no Brasil: substituiu o Cristo europeu, pálido e resignado, por um Cristo do sertão, mestiço, seco como a caatinga, sofrido como o povo que o contempla de baixo.
“Ao longo das décadas, esta ruptura estética gerou um rico acervo de reações — que vão do estranhamento e pavor inicial relatados em memórias orais, passando por tentativas de apedrejamento, como me relatou Pedro Alexandre Massinha, até a apropriação devocional e identitária pela comunidade.”
É justamente nessa transição — de objeto de polêmica a patrimônio eleito — que reside a força viva do monumento como vestígio material da consciência crítica e da memória coletiva conquistense. Uma cidade que primeiro rejeitou, depois se assustou, depois discutiu e finalmente abraçou sua própria imagem refletida em granito e resina é uma cidade que amadureceu diante da própria obra de arte. Poucos patrimônios contam, em si mesmos, uma história tão completa de disputa e reconciliação simbólica.
O que protegemos quando tombamos

Proteger formalmente o Cristo pelo instituto do tombamento é reconhecer que a sua monumentalidade não está apenas em seus 33 metros de altura na paisagem, nem pelo fato de ter sido esculpido por um dos maiores gênios da arte plástica brasileira, mas nos sentidos e discursos que ele continua a movimentar quase 46 anos depois de sua instalação. O tombamento não guarda pedra: guarda significado. E significado, uma vez perdido, não se recupera por decreto.
É por isso que este ato de segunda-feira interessa às futuras gerações muito mais do que às presentes. Quem já nasceu vendo o Cristo do Periperi no horizonte da cidade talvez nunca tenha se perguntado por que ele está ali, por que tem aquele rosto, por que provoca o silêncio de quem sobe a serra ao entardecer. Mas as crianças que ainda vão nascer em Vitória da Conquista precisarão de algo além da silhueta: precisarão de memória documentada, de proteção jurídica contra a especulação imobiliária, contra o abandono, contra o esquecimento institucional que costuma ser mais perigoso que qualquer pedra atirada por mãos assustadas.
Tombar é, no fundo, um ato de fé no tempo que ainda não chegou. É dizer a quem virá depois de nós: isto aqui teve importância, isto aqui foi disputado, sofrido, incompreendido e, por fim, amado — e agora é seu dever, também, zelar por ele.
Entre a pedra atirada e a pedra fundamental
Há algo de profundamente teológico, e não apenas patrimonial, nesse itinerário. O Cristo que assustou, que foi hostilizado, que quase foi apedrejado por não corresponder à imagem confortável que se esperava do sagrado, é hoje pedra fundamental da identidade conquistense. Não é a primeira vez que a história repete essa parábola: aquilo que os construtores rejeitam torna-se, com o tempo, cabeça de esquina. O expressionismo cru de Cravo Júnior obrigou Vitória da Conquista a olhar para um Cristo que sofre como o sertanejo sofre, que emagrece como a seca emagrece, que resiste como o povo resiste — e essa obrigação estética acabou por gerar pertencimento.
Como historiador e como pesquisador, permito-me dizer: talvez seja exatamente esse desconforto inicial, essa recusa em suavizar o sofrimento humano, que faça do Cristo do Periperi uma obra tão honesta com o seu povo. Ele não promete conforto fácil. Promete companhia na dor. E é essa companhia, esculpida em concreto sobre a serra mais alta da cidade, que agora o poder público reconhece formalmente como patrimônio de todos.
Que o tombamento desta segunda-feira seja, portanto, mais do que um carimbo em processo administrativo. Que seja um compromisso público e renovado: o de que as próximas gerações de Vitória da Conquista não apenas verão o Cristo no horizonte, mas saberão por que ele está lá, o que custou colocá-lo ali, e por que vale a pena, sempre, protegê-lo.
Patrimônio
Mário Cravo Júnior
Serra do Periperi
Vitória da Conquista
FÁBIO SENA SANTOS — Política e Resenha




