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á cidades que crescem, constroem avenidas, levantam prédios e ampliam seus espaços urbanos. Mas uma cidade só se torna verdadeiramente grande quando também é capaz de preservar a memória daqueles que ajudaram a construir sua identidade. É por isso que considero tão importante a proposta do presidente da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, Ivan Cordeiro (PL), de denominar o Arquivo Público Municipal de Vitória da Conquista como Arquivo Público Municipal Professor José Mozart Tanajura.
Mais do que atribuir um nome a um equipamento público, a proposta representa um gesto de reconhecimento a um homem que dedicou sua vida à educação, à cultura, à literatura e, sobretudo, à preservação da memória conquistense. Mozart Tanajura faria 90 anos em 2026. Sua ausência física, porém, não diminuiu a presença de sua obra. Pelo contrário: quanto mais o tempo passa, mais percebemos a dimensão de seu legado.
Nascido em Livramento de Nossa Senhora, em 14 de setembro de 1936, Mozart Tanajura encontrou em Vitória da Conquista o lugar onde construiria sua trajetória intelectual e profissional. Licenciado em Letras Vernáculas pela Faculdade de Formação de Professores, hoje vinculada à UESB, foi professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira na rede estadual. Mas sua atuação foi muito além da sala de aula.
Tanajura pertence àquela geração de intelectuais que compreendia que conhecer uma cidade é também conhecer sua memória. E talvez seja justamente por isso que sua contribuição para a história de Vitória da Conquista tenha adquirido uma dimensão tão especial.
Em 1978, participou da própria criação do Arquivo Público Municipal, instituição que chegou a coordenar. É difícil imaginar homenagem mais coerente do que associar seu nome justamente ao espaço destinado a guardar os documentos que ajudam a contar a história da nossa cidade.
Um arquivo é memória, não depósito
O Arquivo Público não é simplesmente um lugar onde documentos antigos são armazenados. Ali estão fragmentos daquilo que fomos: relatórios do Poder Legislativo, livros contábeis, fotografias, jornais e tantos outros registros que permitem às novas gerações compreenderem como Vitória da Conquista foi construída ao longo do tempo.
Preservar documentos é preservar possibilidades. Cada fotografia, cada jornal, cada registro administrativo pode, no futuro, responder a uma pergunta que ainda nem foi formulada. É por isso que arquivos públicos são instituições fundamentais para uma sociedade democrática: eles protegem a memória contra o esquecimento e a história contra a manipulação.
E poucos compreenderam essa missão com tanta intensidade quanto Mozart Tanajura.
Em 1992, publicou “História de Conquista: Crônica de uma cidade”, obra que se tornou referência fundamental para quem deseja compreender as origens e a evolução de Vitória da Conquista. O livro representou uma das primeiras grandes iniciativas de sistematização da história do município e resultou de pesquisas em arquivos, entrevistas com famílias tradicionais e levantamento documental, inclusive no Fórum João Mangabeira.
Tanajura não escreveu apenas sobre o passado. Ele buscou impedir que o passado desaparecesse.
Seu trabalho também alcançou outras dimensões da cultura. Foi cofundador da Academia Conquistense de Letras e da Casa da Cultura, colaborador do Museu Regional e teve papel importante na preservação da obra do poeta Camillo de Jesus Lima.
Sua trajetória revela um intelectual múltiplo: professor, jornalista, escritor, poeta e historiador. Um homem que transitava entre a literatura, a cultura, a história e a educação sem enxergar fronteiras rígidas entre esses campos.
Talvez esteja aí uma das maiores riquezas de seu legado.
Do sertão para o Brasil
Mozart Tanajura compreendia que a história de uma cidade não está apenas nos grandes acontecimentos políticos ou nos nomes que aparecem nos livros oficiais. Ela também está nas tradições populares, no folclore, nas manifestações religiosas, nas relações sociais, na cultura material e imaterial, na paisagem e na vida cotidiana de seu povo.
Essa percepção fez de sua obra uma importante ponte entre a tradição memorialística e aquilo que posteriormente seria desenvolvido pela historiografia acadêmica regional.
Em “História de Livramento: A Terra e o Homem”, por exemplo, encontramos uma elaboração ainda mais madura de sua visão histórica. Ao relacionar território, sociedade, cultura e experiência humana, Tanajura demonstrou uma compreensão ampla dos processos que moldam a vida de uma comunidade.
Seu olhar para o sertão baiano não era um olhar menor, limitado ao local. Pelo contrário. Ele percebia que compreender uma cidade, uma região ou um povo é também contribuir para compreender o próprio Brasil.
Essa é uma lição que permanece atual.
Durante muito tempo, a produção intelectual dos grandes centros recebeu maior reconhecimento, enquanto o conhecimento produzido no interior do país foi, muitas vezes, tratado como algo secundário. Mozart Tanajura demonstra justamente o contrário: é possível produzir conhecimento relevante, rigoroso e profundo a partir do lugar onde se vive.
Seu trabalho, realizado em uma época em que as universidades ainda não tinham alcançado a presença que possuem hoje no interior baiano, ajudou a estabelecer bases para aquilo que posteriormente seria desenvolvido pela pesquisa acadêmica regional.
Sua parceria intelectual com Carlos Jeová também merece ser lembrada. Juntos, contribuíram para documentar, preservar e interpretar aspectos importantes da memória de Vitória da Conquista e do sudoeste da Bahia. Eram homens movidos por uma paixão que não pode ser medida apenas por títulos acadêmicos: a paixão pelo conhecimento e pela própria terra.
Outro capítulo importante desse legado está em seu acervo pessoal, atualmente sob a guarda da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Biblioteca, manuscritos, correspondências, anotações, poemas e textos históricos revelam a dimensão de um intelectual que manteve permanente diálogo com diferentes áreas do conhecimento.
Esse acervo não pertence apenas ao passado. Ele pertence também ao futuro.
Uma homenagem que olha para a frente
Cada geração precisa reencontrar seus grandes homens e mulheres para compreender melhor o caminho que percorreu. E uma cidade que não conhece seus construtores corre o risco de perder parte de sua própria identidade.
Por isso, homenagear Mozart Tanajura é muito mais do que reconhecer um intelectual do passado. É afirmar que Vitória da Conquista valoriza sua história, sua cultura e sua memória.
Dar seu nome ao Arquivo Público Municipal é estabelecer uma espécie de diálogo entre o homem e sua obra. O professor que ensinou gerações; o escritor que registrou histórias; o historiador que pesquisou documentos; o intelectual que ajudou a preservar nossa cultura passará a ter seu nome associado justamente ao lugar onde a cidade guarda parte de sua memória.
Há homenagens que são protocolares. Esta, porém, pode ser simbólica.
Porque Mozart Tanajura dedicou parte significativa de sua vida a impedir que Vitória da Conquista esquecesse de onde veio. Agora, Vitória da Conquista pode fazer o mesmo por ele.
Segundo Ivan Cordeiro, ao propor esta homenagem, não estamos apenas olhando para trás. Estamos olhando para as próximas gerações. Estamos dizendo aos nossos estudantes, pesquisadores, professores, jornalistas e cidadãos que a memória importa. Que os documentos importam. Que a cultura importa. Que aqueles que dedicaram suas vidas ao conhecimento merecem ser lembrados.
Uma cidade que preserva sua memória não fica presa ao passado. Ao contrário, compreende melhor o presente e se prepara com mais consciência para construir o futuro.
Mozart Tanajura ajudou a escrever a história de Vitória da Conquista. Cabe a nós garantir que seu nome continue fazendo parte dela.
É nesse espírito que apresento a proposta para que o Arquivo Público Municipal receba o nome de Professor José Mozart Tanajura. Não como uma simples denominação, mas como um reconhecimento público, histórico e afetivo a um dos grandes guardiões da memória conquistense.
Que seu nome permaneça onde sua vocação sempre esteve: entre os documentos, os livros, as histórias e as lembranças que ajudam uma cidade a saber quem ela é.
ARQUIVO PÚBLICO
VITÓRIA DA CONQUISTA
CULTURA





