Política e Resenha

A Coluna Prestes, a passagem por Condeúba e Ituaçu e duas memórias de Carlos Prestes

Por Professor Durval Menezes

Quero deixar claro, desde o início, que este texto foi organizado a partir do meu depoimento, preservando, com a maior fidelidade possível, as informações, lembranças, avaliações e afirmações que apresentei. As estimativas numéricas, interpretações políticas e versões históricas aqui relatadas fazem parte da minha memória e da minha maneira de interpretar os acontecimentos. Não estou apresentando, neste artigo, uma verificação documental independente de cada uma dessas informações.

Há histórias que pertencem aos livros. Outras pertencem à memória de quem as viveu, ouviu ou delas guardou uma lembrança que atravessou décadas. A história que quero contar reúne essas duas dimensões: a grande marcha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil e uma pequena, mas extraordinária, memória pessoal — a minha e a de Elquisson Soares, dois homens de Vitória da Conquista que tivemos a oportunidade de conhecer Carlos Prestes e apertar sua mão.

A notícia que despertou minhas lembranças

Tudo começou com uma notícia que recebi pela internet: estaria prevista, para a semana seguinte, a passagem por Vitória da Conquista de um filho de Carlos Prestes, o lendário líder conhecido em grande parte do Brasil e do mundo.

Soube que estava sendo organizada uma recepção para esse visitante. Ele percorreria a região por onde passou a Coluna Prestes, movimento liderado por seu pai, Carlos Prestes, aquele que ficou conhecido como o Cavaleiro da Esperança.

Soube também que ele iria a Condeúba, porque a Coluna Prestes passou por aquela localidade. A marcha alcançou ainda Ituaçu, onde, segundo a minha memória, fez uma parada de descanso de 24 horas. Foi justamente em Ituaçu, de acordo com aquilo que guardo na lembrança, que a coluna permaneceu por mais tempo na região.

Essa notícia me fez voltar no tempo.

Fez-me pensar na passagem da Coluna Prestes pela Bahia e por essas cidades e na oportunidade que temos agora de revisitar a trajetória de Carlos Prestes e dos homens que o acompanharam durante aquela longa marcha pelo interior do Brasil.

Eu e Elquisson: os dois conquistenses que conhecemos Carlos Prestes

Existe um fato que sempre considerei curioso.

Vitória da Conquista possui aproximadamente 400 mil habitantes. Ao longo de sua história, milhares e milhares de pessoas viveram nesta cidade. Ainda assim, pelo que sei e pelo que guardo de memória, somente duas pessoas de Vitória da Conquista conheceram Carlos Prestes de perto e tiveram a oportunidade de apertar sua mão.

Essas duas pessoas somos eu, Durval Menezes, e Elquisson Soares.

Lembro que outras figuras conhecidas da vida política e intelectual de Conquista não conheceram Carlos Prestes pessoalmente.

Entre os nomes que posso citar estão o professor Everardo, Jadiel, que se dizia socialista e comunista, Pedral, que foi preso e apontado como comunista, embora, segundo aquilo que sempre soube e afirmo, nunca tivesse sido comunista, e Rui Medeiros.

Sobre Rui Medeiros, tenho uma avaliação política própria. Para mim, ele foi o único socialista de fato, com ideologia de esquerda, em Vitória da Conquista. Considero Rui Medeiros 100% socialista.

Também me lembro de Nude, que teria alcançado projeção como preso e sido engenheiro da Petrobras acusado de ser comunista. Pelo que sei, ele também não conheceu Carlos Prestes.

O professor Everardo igualmente não o conheceu.

Por isso, repito aquilo que considero uma das lembranças centrais deste relato: eu e Elquisson Soares fomos, entre as pessoas de Vitória da Conquista, os dois que tivemos a oportunidade de conhecer Carlos Prestes e apertar sua mão.

Meu encontro com Carlos Prestes no Rio de Janeiro

Esse encontro aconteceu, segundo a minha lembrança, em 1963 ou 1964, antes da Revolução que menciono em meu depoimento.

Naquela época, eu estudava Jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Uma colega da minha turma era sobrinha de Carlos Prestes. Foi ela quem me convidou para participar de uma reunião com ele.

Carlos Prestes realizava essas reuniões de maneira clandestina. Havia contra ele uma ordem de prisão válida em qualquer parte do território nacional. Mesmo assim, ele continuava promovendo seus encontros políticos.

Eu convidei Elquisson Soares para ir comigo. Nós dois morávamos juntos naquela época.

A reunião aconteceu em um prédio comercial situado na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.

Lembro que, assim que entrávamos na sala, todos os participantes eram apresentados a Carlos Prestes. Ele apertava a mão de cada pessoa e agradecia a presença.

Foi assim que eu e Elquisson, dois cidadãos de Vitória da Conquista, conhecemos pessoalmente Carlos Prestes.

Faço questão, entretanto, de esclarecer uma coisa: meu contato com o movimento de Carlos Prestes se limitou àquele encontro. Eu não tive qualquer outra participação na organização ou na atividade política de Prestes.

Sempre que conto essa história, volto à mesma lembrança: eu estudava Jornalismo no Rio de Janeiro, minha colega de turma era sobrinha de Carlos Prestes e me convidou, juntamente com outros dois colegas, para aquela reunião. Como eu morava com Elquisson, convidei-o para me acompanhar. E foi assim que ele também conheceu Carlos Prestes.

O Carlos Prestes que conheci pela história antes de ele se tornar comunista

Eu sei que Carlos Prestes se tornou conhecido mundialmente e no Brasil por ter criado e comandado o Partido Comunista durante dezenas de anos.

Mas existe uma coisa que considero importante destacar: Carlos Prestes não entrou no movimento revolucionário como comunista. Naquele momento, ele era engenheiro e capitão do Exército. Ele e vários jovens militares se revoltaram contra a corrupção existente no Brasil.

É verdade que, quando comparo aquela corrupção com a corrupção atual, considero que a corrupção daquela época não era comparável à de hoje. Mas, para aqueles jovens militares, ela já era suficiente para provocar uma revolta.

Esses militares organizaram um levante. Entre eles estavam Carlos Prestes e Juarez Távora, que, muitos anos depois, se tornaria candidato à Presidência da República e chegaria ao posto de general.

É nesse contexto que eu situo Carlos Prestes como comandante de um movimento que participaria da Revolução de 1930 e que ficaria conhecido como Coluna Prestes.

Por que se chamou Coluna Prestes

Sempre compreendi a palavra “coluna”, na linguagem militar e revolucionária, como uma força pronta e preparada para a luta, para a guerra e para enfrentar qualquer circunstância.

Foi por isso que o movimento revolucionário passou a ser chamado de Coluna Prestes, em homenagem ao seu comandante e ao nome de Carlos Prestes. Naquela época, ele era capitão e engenheiro do Exército.

A partir daí, o nome Coluna Prestes passou a estar associado à longa marcha de homens armados que atravessaram extensas áreas do território brasileiro e enfrentaram forças governamentais e grupos armados locais.

A dimensão extraordinária da marcha

Segundo aquilo que conheço e que relato em meu depoimento, a Coluna Prestes foi a maior movimentação de tropas já realizada no mundo.

A coluna teria chegado a reunir 30 mil homens e percorrido 36 mil quilômetros.

Foram utilizados, segundo relato, 100 mil cavalos.

Toda essa movimentação teria durado três anos.

Considero esse percurso a segunda maior marcha registrada na história mundial. A primeira, segundo a minha referência, teria sido a marcha de Alexandre, o Grande, que teria comandado um exército por mais de 40 mil quilômetros.

Assim, apresento a marcha de Carlos Prestes como a segunda maior da história, considerando-a também a maior trajetória já realizada por um movimento revolucionário.

De São Paulo ao Rio Grande do Sul e depois de volta

O movimento revolucionário surgiu em São Paulo e seguiu em direção à Região Sul do Brasil, alcançando o Rio Grande do Sul.

Depois, a coluna retornou e iniciou uma marcha que, segundo aquilo que relato, foi feita praticamente toda a pé. Houve alguns trechos em que foram utilizados trens, mas a maior parte do deslocamento foi realizada a pé.

No retorno, a Coluna Prestes passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Depois, dirigiu-se em direção ao Norte do Brasil e ao Nordeste.

Foi no Nordeste, segundo a minha narrativa, que a coluna encontrou as maiores dificuldades.

Quando o Governo Federal chamou os coronéis e os jagunços

Naquele momento, o Governo Federal já não dispunha, segundo o meu relato, de homens e armas suficientes para combater a Coluna Prestes. Diante disso, teria recorrido aos coronéis e aos jagunços para preservar o governo e enfrentar a marcha revolucionária.

Na Bahia, os coronéis teriam reunido uma grande força sob o comando do coronel Horácio de Matos. Atribuo a Horácio de Matos o comando de mais de 10 mil homens. Além dele, lembro dos nomes de Franklin e outros coronéis. Juntos, eles teriam conseguido reunir mais de 20 mil jagunços.

Faço ainda uma comparação que consta do meu depoimento: cada jagunço valeria, em combate, por 50 homens da Coluna Prestes. A explicação que apresento é que os jagunços estavam preparados para lutar na caatinga, conheciam o território e utilizavam táticas de guerrilha.

Foi nesse contexto que Carlos Prestes comandou a marcha pela Bahia. A Coluna Prestes entrou na Chapada, passou por Condeúba e chegou a Ituaçu. Segundo aquilo que relato, quando entrou na Bahia, a coluna quase foi destruída pela força dos jagunços comandados por Horácio de Matos.

O sofrimento que imagino ao reconstruir aquela marcha

Quando penso nos combates e no deslocamento da Coluna Prestes, vejo uma luta terrível, uma verdadeira peregrinação marcada por sofrimento extremo.

Menciono, em meu depoimento, documentos históricos segundo os quais cinco médicos acompanhavam a coluna. Esse número, para mim, ajuda a dimensionar a dificuldade: eram cinco médicos para mais de 30 mil homens. Em determinado período, esses médicos já não teriam condições físicas de continuar trabalhando.

Em uma batalha ocorrida na Chapada Diamantina, contra os jagunços de Horácio de Matos, um veterinário teria sido obrigado a operar dois integrantes da Coluna Prestes. Segundo o relato, ele teria amputado um braço e uma perna sem anestesia.

Vejo esse episódio como uma demonstração do sofrimento enfrentado pelos integrantes da coluna e também do idealismo que, segundo a minha interpretação, fazia com que continuassem lutando.

A presença de um veterinário também se explica pela enorme quantidade de cavalos utilizada na marcha. Se foram realmente utilizados 100 mil cavalos, era necessário contar com profissionais capazes de cuidar desses animais. Por isso, havia um veterinário entre os integrantes ou acompanhantes do movimento.

Por que eu entendo que eles se revoltaram

Sempre que volto a essa história, retorno à pergunta sobre as razões que levaram à formação da Coluna Prestes. A resposta que apresento é que os revoltosos se levantaram contra a corrupção existente naquele período e contra as mazelas do governo.

Quando comparo aquela situação com o Brasil atual, vejo corrupção em todos os níveis de governo. Vejo administrações municipais, governos estaduais e o Governo Federal, tanto de direita quanto de esquerda. Na minha avaliação, a corrupção daquela época seria uma coisa simples quando comparada à corrupção e às mazelas praticadas atualmente.

Ainda assim, aqueles revoltosos conseguiram levantar 30 mil homens sob o comando de Carlos Prestes. Por onde passava, Prestes teria encontrado adesões e despertado a esperança de um futuro melhor para o Brasil. Foi por isso que recebeu o nome de Cavaleiro da Esperança.

Ceará, Padre Cícero e Lampião

A Coluna Prestes avançou até o Ceará e alcançou também o Rio Grande do Norte. Quando chegou ao Ceará, segundo o meu depoimento, o Governo Federal já não tinha condições de combater a coluna e estava perdendo espaço.

Foi então que o governo teria recorrido ao Padre Cícero, tentando convencê-lo a mobilizar os cangaceiros para participar da luta contra a Coluna Prestes. Segundo aquilo que relato, Padre Cícero convocou Lampião e outros líderes cangaceiros.

Depois, teria entregado a Lampião 300 fuzis novos e 3 mil cápsulas de bala, para que ele ajudasse o governo a combater a coluna. Em outro momento do meu depoimento, menciono a possibilidade de terem sido entregues mais de 3 mil ou 30 mil cartuchos. Mantenho essa diferença porque ela faz parte da maneira como essa informação aparece na minha própria narrativa.

Lampião teria recebido ainda a patente de capitão, concedida pelo governo por intermédio de Padre Cícero. Segundo a narrativa que guardo, ao receber as armas e a patente, Lampião teria perguntado:

“Mas, Padrim Padre Cícero, como é que eu vou lutar contra esse homem se ele não fez nada comigo? Eu nem o conheço.”

A atitude de Lampião teria sido permanecer com todas as armas, sem entrar na luta contra Carlos Prestes.

Eu concluo, a partir desse episódio, que muitas pessoas inocentes podem ter morrido posteriormente com as armas entregues pelo padre Cícero. Por isso, afirmo que muita gente considera Padre Cícero tão bandido quanto Lampião.

A volta por Goiás e a perseguição de Horácio de Matos

Depois da passagem pelo Nordeste, a Coluna Prestes teria retornado pelo Estado de Goiás. Nesse momento, o coronel Horácio de Matos, que comandava os jagunços reunidos, teria passado a comandar o próprio Exército Brasileiro.

Na minha narrativa, Horácio de Matos aparece como um coronel chefe de jagunços que perseguiu Carlos Prestes e empurrou a coluna até expulsá-la do Brasil pela fronteira da Bolívia. A perseguição teria ultrapassado a fronteira brasileira. Horácio de Matos teria chegado a invadir a Bolívia para continuar perseguindo Carlos Prestes.

Depois que a Coluna Prestes foi expulsa do Brasil, Carlos Prestes e seus líderes deixaram o país. Horácio de Matos teria retornado ao Brasil na posição de comandante das Forças Armadas, embora ainda fosse apresentado, em meu relato, como chefe de jagunços.

O desarmamento e a morte de Horácio de Matos

De acordo com aquilo que relato, o Exército percebeu que Horácio de Matos estava mais armado do que o próprio Exército Brasileiro.

É nesse ponto que entra na minha narrativa Juracy Magalhães, que atuava como interventor da Bahia. Segundo o meu depoimento, Juracy Magalhães teria convencido os coronéis a entregar suas armas porque sabia que Horácio de Matos poderia se tornar governador da Bahia. Eu descrevo essa articulação como um “esquemão”.

Ao final, Horácio de Matos foi assassinado.

Como vejo a transformação de Carlos Prestes

Depois de ser expulso do Brasil como revoltoso e revolucionário, Carlos Prestes, segundo a minha narrativa, não teria encontrado outra saída senão procurar as lideranças comunistas que estavam em evidência naquela época. É a partir desse momento que situo a transformação de Prestes em comunista.

Faço questão de enfatizar que, na minha compreensão, ele não fez uma revolução comunista no Brasil. Sua revolta inicial teria sido contra a corrupção, o desmando do governo e as estruturas políticas associadas aos governos de Arthur Bernardes e Getúlio Vargas, que descrevo no depoimento como parte de “quadrilhas” políticas.

Nessa primeira fase, vejo Carlos Prestes como um homem de bem, preocupado com o Brasil e orientado pelo desejo de fazer o bem ao país. É essa imagem que, para mim, explica o apelido de Cavaleiro da Esperança.

Depois de ser expulso do Brasil, Prestes teria entrado no mundo comunista. Segundo aquilo que relato, ele morou na Rússia, então União Soviética, retornou ao Brasil e passou a liderar o Partido Comunista. A partir daí, teria vivido como clandestino durante quase toda a sua vida política.

O que permanece na minha memória

Quando penso agora na notícia de que o filho de Carlos Prestes estaria visitando a região por onde passou seu pai, percebo como uma história aparentemente distante continua muito próxima de nós.

Para mim, Carlos Prestes foi o Cavaleiro da Esperança. Considero-o o mais autêntico, sincero e honesto comunista que a América Latina teria conhecido.

A visita de seu filho representa uma oportunidade de lembrar a presença da Coluna Prestes em localidades como Condeúba e Ituaçu e de recuperar a memória daquela marcha que, segundo o meu depoimento, atravessou milhares de quilômetros, reuniu dezenas de milhares de homens e enfrentou combates, perseguições, escassez de recursos e sofrimento extremo.

Mas, para mim, essa história tem também uma dimensão pessoal que não posso separar da história maior. Eu e Elquisson Soares apertamos a mão de Carlos Prestes.

Isso aconteceu no Rio de Janeiro, quando eu estudava Jornalismo e fui convidado por uma colega de turma, sobrinha de Carlos Prestes, para participar de uma reunião clandestina. Eu convidei Elquisson, com quem morava, e nós dois estivemos presentes naquele prédio comercial da Avenida Rio Branco.

É essa lembrança que carrego comigo. A grande história da Coluna Prestes, com seus milhares de homens, seus cavalos, seus combates, suas marchas e seus sofrimentos, acabou cruzando a minha pequena história pessoal naquele momento em que entrei naquela sala e apertei a mão de Carlos Prestes.

E é justamente por isso que a notícia da passagem de seu filho pela região me toca de maneira tão particular. Ela faz voltar à memória a Coluna Prestes, Condeúba, Ituaçu, a Chapada, Horácio de Matos, Padre Cícero, Lampião, a Bolívia e, sobretudo, aquele encontro no Rio de Janeiro.

Duas memórias de uma mesma história: a memória de um Brasil que marchou pelo interior e a memória de dois homens de Vitória da Conquista que, por alguns instantes, estiveram diante do homem que ficou conhecido como o Cavaleiro da Esperança.

Minha lembrança em uma linha do tempo

Na minha memória, os acontecimentos podem ser organizados assim:

  Na década de 1920 e no início da década de 1930, jovens militares, entre eles o capitão e engenheiro Carlos Prestes, revoltaram-se contra a corrupção e os desmandos do governo.

  Surgiu a Coluna Prestes, associada ao comando de Carlos Prestes.

  A coluna partiu de São Paulo em direção à Região Sul e chegou ao Rio Grande do Sul.

  Depois retornou pelo interior do Brasil, passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, seguindo em direção ao Norte e ao Nordeste.

  Na Bahia, entrou na Chapada, passou por Condeúba e chegou a Ituaçu, onde, segundo a minha lembrança, permaneceu por 24 horas.

  Vieram os combates contra os jagunços reunidos pelos coronéis, especialmente sob o comando de Horácio de Matos.

  Em meio ao sofrimento, havia falta de recursos médicos e um veterinário teria realizado amputações sem anestesia.

  A coluna passou pelo Ceará e pelo Rio Grande do Norte, enquanto o Governo Federal tentava mobilizar Padre Cícero e Lampião contra ela.

  Padre Cícero teria entregado a Lampião 300 fuzis e milhares de cartuchos, além da patente de capitão.

  A coluna retornou por Goiás e foi perseguida por Horácio de Matos até ser expulsa do Brasil pela fronteira da Bolívia.

  Depois da expulsão, Carlos Prestes procurou lideranças comunistas, aproximou-se do comunismo, viveu na União Soviética e posteriormente liderou o Partido Comunista no Brasil.

  Em 1963 ou 1964, eu e Elquisson Soares participamos de uma reunião clandestina com Carlos Prestes no Rio de Janeiro.

  Agora, com a notícia da visita do filho de Carlos Prestes à região por onde passou a coluna, essas lembranças voltam à minha memória.

Considerações finais

Quando organizo essas lembranças, percebo que minha narrativa reúne três dimensões.

A primeira é regional: a passagem da Coluna Prestes por Condeúba, Ituaçu e pela Chapada. A segunda é nacional: a marcha, os combates, a participação de coronéis, jagunços, Padre Cícero e Lampião e a expulsão da coluna para a Bolívia. A terceira é pessoal: o encontro que eu e Elquisson Soares tivemos com Carlos Prestes no Rio de Janeiro.

Também faço uma distinção que considero fundamental entre o Carlos Prestes anterior ao comunismo e aquele que veio depois. O primeiro Carlos Prestes que apresento em minha memória era o engenheiro e capitão do Exército que se revoltou contra a corrupção. O segundo é o Carlos Prestes que, depois de ser expulso do Brasil, aproximou-se do movimento comunista, viveu na União Soviética e posteriormente liderou o Partido Comunista no Brasil.

Mas, acima de todas essas lembranças, permanece para mim uma cena simples e inesquecível.

Eu entrando naquela sala no Rio de Janeiro. Eu, estudante de Jornalismo, acompanhado de Elquisson Soares. Carlos Prestes diante de nós. Ele cumprimentando cada pessoa que chegava. E eu apertando a mão daquele homem que já havia percorrido milhares de quilômetros pelo Brasil e que entraria definitivamente para a história como o Cavaleiro da Esperança.

Logo depois, conforme registro em meu depoimento, teria estourado a Revolução. E é assim que termina a lembrança que conservo:

“Logo depois estourou a Revolução…”

Coluna Prestes
Carlos Prestes
Condeúba
Ituaçu
Memória Política
Vitória da Conquista

Professor Durval Menezes