Memórias • Vida • Saudade
Por Edvaldo Paulo de Araújo
Ao longo das nossas vidas, carregamos algumas lembranças no fundo da alma que doem demais. Na época, não entendemos. Os anos passam e a marca vai aflorando como um espinho na carne, principalmente quando nos vem através de uma canção, de um momento de introspecção, de silêncio ou pela luz de uma sublime oração.
Estava em Ilhéus, na praia, e, de repente, o meu pequeno aparelho de som tocou uma canção que me fez chorar. Voltei ao ano de 1964. Tinha 10 anos e morava no distrito de Veredinha, a 48 quilômetros da minha amada Vitória da Conquista.
Minha mãe anunciou que eu iria embora para Conquista. Iria morar com um tio e dar prosseguimento aos estudos. Na época, estava na terceira série do primário. Alguns dias depois, ela arrumou minhas roupas numa “trouxa” e me conduziu até um caminhão-caçamba, que me levaria para o desconhecido, para a cidade grande.
Segurou a minha mão e me levou até o veículo. Quando subi, notei seus olhos cheios de lágrimas, carregados de tristeza. Eu ainda não entendia tudo aquilo. Meu coração estava tomado pela dor de deixar minha terra, onde eu era livre, inocente, solto e feliz.
Foi dura a separação. Vieram a saudade, a adaptação à casa dos “outros”, as ruas desconhecidas e a escola cheia de alunos diferentes.
“Eu estava te entregando ao mundo”
Alguns anos depois, soube que meu pai ficou muito triste e que minha mãe chorou durante uma semana inteira. Ela ficava num lugar alto, olhando para o infinito e chorando.
Quando perguntei por que aquelas lágrimas, ela me respondeu:
“Naquele momento começava nossa separação e eu estava te entregando ao mundo.”
A canção de Zezé Di Camargo & Luciano, “No Dia em que Eu Saí de Casa”, foi fundo no meu coração. Sua mensagem descrevia com impressionante semelhança aquele momento que vivi aos 10 anos: a despedida, o olhar da mãe, o medo do mundo, a oração silenciosa e a necessidade de partir mesmo quando tudo dentro de nós queria ficar.
Há partidas que acontecem apenas uma vez na estrada, mas continuam acontecendo dentro de nós durante toda a vida.
O menino que precisou aprender cedo demais
Hoje, ouvindo essa canção e já nessa idade, entendo que não saí apenas de um lugar. Saí do cheiro da fazenda, do silêncio, do barulho dos bichos, da voz da minha mãe na cozinha e da liberdade de correr pelos campos.
Entendo também que, naquela idade, eu ainda precisava de colo. Mas precisei aprender a ser forte cedo demais.
Essa dor de ter que amadurecer antes da hora deixa marcas em quem passou por isso. A saudade vira raiz. Quem foi arrancado cedo da terra nunca mais esquece de onde veio. A fazenda ficou dentro de mim.
A força veio da falta. Aprendi sozinho, muito cedo, a me virar, a aguentar calado e a não dar trabalho aos meus tios. Isso que hoje chamam de resiliência eu aprendi na marra, menino ainda.
Uma história compartilhada por uma geração
Eu sei que muita gente da minha geração passou por isso. Ir para a cidade estudar era, muitas vezes, o único caminho. E o preço era alto: a separação doída. Não havia escolha.
Aquilo me marcou tanto que, até hoje, choro quando lembro. E sei que é porque deixei muito amor para trás.
Conto aos meus filhos e netos como foi difícil para mim. Lembro-me integralmente do dia da partida, do cheiro da fazenda, da primeira noite na cidade grande, do quarto estranho e da cama desconhecida, onde fiquei chorando sem conseguir dormir.
Transformei essa dor em legado, em luta para seguir meu caminho com força, para que tudo aquilo valesse a pena.
Memória que permanece
A primeira noite longe de casa talvez tenha sido também a primeira noite em que percebi, mesmo sem compreender completamente, que crescer significaria aprender a conviver com ausências.
A esperança de voltar
O que mais me fortalecia era a esperança de, em breve, rever os meus. Nas férias, imaginava voltar para o meu canto, tirar leite, prender o gado, comer beiju na casa de farinha, montar nos cavalos do moinho, rever os amigos que lá ficaram e pedir diariamente a bênção à minha mãe de leite, mãe Tima.
Todos os dias eu pensava em voltar.
Na realidade, nunca voltei como imaginava. O tempo seguiu seu caminho, a vida mudou, eu mudei, as pessoas mudaram. Mas a lembrança doída continua no fundo da minha alma.
Veredinha nunca saiu de mim
Compreendi que assim caminha a vida e que foi naquele momento que começou a minha separação de meu pai e de minha mãe para que eu pudesse construir minha própria vida e seguir meu próprio caminho.
“Eu saí de Veredinha, mas ela nunca saiu de mim.”
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ARTIGO DE OPINIÃO
Edvaldo Paulo de Araújo
Autor de “Lembranças Doidas”





