Por Padre Carlos
Há lugares que nós visitamos. Há outros que nos visitam para sempre.
A Pituba pertence a essa segunda categoria.
Posso mudar de cidade, atravessar ruas que nunca conheci, morar longe das praias onde passei a infância, envelhecer e ver o mundo se transformar diante dos meus olhos. Mas basta uma palavra — Pituba — para que alguma coisa dentro de mim se mova. É como se uma porta antiga se abrisse e, do outro lado, estivesse novamente aquele menino correndo pelas ruas de uma Salvador que já não existe.
Talvez seja essa a maior força da memória: ela não devolve o tempo, mas devolve aquilo que fomos.
Onde começou a minha história
Nasci na Pituba, em uma época em que o bairro ainda vivia entre dois mundos. De um lado, o antigo balneário, com suas casas de veraneio, seus jardins, coqueiros, praias e famílias que chegavam durante as férias. Do outro, uma cidade que crescia rapidamente e começava a transformar aquele pedaço de Salvador em um dos seus mais importantes bairros residenciais.
Meu pai veio do interior em busca de uma vida melhor. Minha mãe, ainda muito jovem, havia conhecido a vida religiosa e estava ligada às Irmãs Mercedárias. Eles tinham pouco dinheiro, mas carregavam aquilo que muitas famílias pobres carregavam naquele tempo: fé, esperança e disposição para trabalhar.
Foi assim que nossa família chegou àquela casa de veraneio dos Machado.
E foi ali, na simplicidade de uma casa de caseiro, que começou a minha história.
Quando penso naquela casa, não me lembro primeiro das paredes, das portas ou dos móveis. Lembro-me do jardim.
E, sobretudo, lembro-me do jasmim.
Havia um pé de jasmim branco que oferecia sombra nas tardes quentes. Minha mãe gostava daquela sombra. Talvez por isso, até hoje, o cheiro do jasmim tenha para mim alguma coisa de sagrado.
Existem perfumes que não pertencem às flores.
Pertencem à nossa história.
O cheiro do jasmim me devolve minha mãe.
Devolve-me a infância.
Devolve-me uma época em que a felicidade não precisava de muito. Bastava uma bicicleta, uma bola, alguns amigos, uma rua para correr e a certeza de que alguém estaria esperando por nós quando a noite chegasse.
Crianças brincando no meio da história
Naquele tempo, a Pituba ainda tinha espaços que hoje parecem pertencer à imaginação. Havia terrenos vazios, caminhos de terra, rios, fazendas, árvores, casas enormes e crianças que podiam transformar qualquer pedaço de chão em território de aventura.
Eu frequentava a Escola da Irmã Catarina, das Irmãs Mercedárias. Brincava com minha irmã Tereza, minha primeira companheira de aventuras. A infância era feita de pequenas coisas que, somente muitos anos depois, descobrimos terem sido gigantescas.
A gente não sabia que estava sendo feliz.
Apenas era.
Talvez essa seja uma das maiores ironias da vida.
Quando somos crianças, queremos crescer. Quando crescemos, passamos boa parte da vida tentando voltar ao lugar onde fomos crianças.
Quando a cidade começou a mudar
E a Pituba mudou.
Como mudou Salvador.
A antiga fazenda foi sendo transformada. O bairro planejado sonhado por Teodoro Fernandes Sampaio foi ganhando ruas, casas, comércio e novas avenidas. O antigo balneário foi deixando de ser apenas lugar de férias para se transformar em um dos grandes espaços urbanos de Salvador.
A modernidade chegou trazendo progresso, mas também carregando consigo histórias que nem sempre foram preservadas.
Onde hoje vemos avenidas, edifícios e jardins, existiram caminhos de terra.
Onde hoje há urbanização, existiram casas simples.
Onde existe o Jardim dos Namorados, existiram pessoas, famílias, pescadores e uma comunidade cuja história merece ser lembrada.
É justamente aí que a memória deixa de ser apenas saudade.
Ela passa a ser também responsabilidade.
Uma cidade não é feita somente de concreto.
É feita de lembranças.
É feita das pessoas que chegaram antes dos edifícios, das crianças que brincaram onde hoje existem avenidas, dos trabalhadores que construíram aquilo que outros desfrutariam depois, das famílias que deram nomes às ruas e dos personagens anônimos que jamais aparecerão nos livros oficiais.
A família, os amigos e a infância
A Pituba que conheci era muito diferente daquela que existe hoje.
Mas talvez ela não tenha desaparecido completamente.
Ela continua escondida em mim.
Está no cheiro do jasmim.
Está na lembrança de minha mãe.
Está na voz de meu pai.
Está nas brincadeiras com Tereza.
Está nos amigos da infância.
Está na família Meireles, que ocupou um lugar especial na minha história.
Os Meireles eram muitos. Aliás, as famílias eram grandes: Dona Núbia, Dona Esthe, Dona Maria de Filinho, Dona Naná, Dona Maria Clara e Dona Regina, Gil Ferreira e as corridas. E havia ainda as velhinhas que moravam na Rua São Paulo: Dona Zizi e Dona Tudinha.
Eram famílias grandes, daquelas que faziam uma casa parecer uma pequena cidade. Essas matriarcas e seus filhos fizeram parte de uma época em que as relações humanas tinham uma proximidade que hoje parece cada vez mais rara.
Eles nos acolheram.
E isso ficou em mim.
Talvez porque uma criança não compreenda perfeitamente as diferenças sociais. Ela percebe, antes de tudo, quem lhe estende a mão.
Foi naquele convívio que aprendi uma das lições mais importantes da minha vida: a dignidade não depende da condição econômica de uma pessoa, e o afeto verdadeiro não reconhece fronteiras sociais, culturais ou religiosas.
Um domingo no meio da transformação
Lembro-me das amizades, das brincadeiras e daquele grande piquenique que reuniu crianças da Pituba.
Saímos em direção às áreas ainda pouco ocupadas pela cidade. Caminhamos, atravessamos o rio, passamos por máquinas e tratores que anunciavam um futuro que nós, crianças, não conseguíamos compreender.
Enquanto brincávamos,
Salvador estava sendo construída.
Nós éramos crianças brincando no meio da história.
Hoje percebo isso com uma clareza que não tinha naquele domingo.
O que para nós era aventura era também transformação urbana.
As máquinas anunciavam novos conjuntos habitacionais. As ruas de terra dariam lugar ao asfalto. Os espaços vazios seriam ocupados por prédios. A paisagem desapareceria lentamente.
E nós também mudaríamos.
É assim que o tempo trabalha.
Primeiro ele modifica a paisagem.
Depois modifica as pessoas.
Um dia, percebemos que aquela rua já não existe. O amigo se mudou. A casa foi demolida. A árvore desapareceu. O comércio mudou de nome. A praia foi urbanizada. O terreno onde jogávamos bola virou um edifício.
E então compreendemos que não sentimos saudade apenas dos lugares.
Sentimos saudade de quem éramos quando aqueles lugares existiam.
O menino que ainda mora em mim
Hoje, quando penso na Pituba, não vejo apenas o bairro moderno, suas grandes avenidas, seus edifícios, restaurantes e comércio.
Vejo também a estrada de chão batido.
Vejo o bonde chegando pelo Largo de Amaralina.
Vejo a antiga paisagem da Fazenda Pituba.
Vejo as famílias chegando para o verão.
Vejo os pescadores.
Vejo crianças correndo.
Vejo meu pai.
Vejo minha mãe.
E vejo aquele menino que ainda mora em algum lugar dentro de mim.
Ele não sabe nada sobre o homem que eu me tornaria.
Não sabe das escolhas que faria.
Não conhece minhas vitórias nem minhas derrotas.
Não sabe que um dia eu entraria para o seminário, estudaria filosofia e teologia, viveria a experiência do sacerdócio, conheceria o amor, constituiria uma família e chegaria à maturidade carregando tantas histórias.
Ele apenas corre.
E talvez seja por isso que, quando penso nele, tenho vontade de abraçá-lo.
Dizer-lhe para não ter pressa.
Para brincar mais.
Para olhar melhor para o céu.
Para prestar atenção no cheiro das flores.
Para guardar o rosto da mãe.
Para aproveitar os amigos.
Para entender que aquele momento aparentemente comum seria, muitos anos depois, uma das maiores riquezas de sua vida.
Mas o menino não me escuta.
Ele continua correndo.
E eu continuo olhando.
Escrever para que a memória não morra
Talvez seja esse o mistério da existência: passamos a vida inteira tentando alcançar o futuro, sem perceber que um dia o futuro será justamente o momento em que estaremos olhando para o passado.
Por isso escrevo.
Escrevo porque tenho medo de que as cidades esqueçam seus mortos, suas crianças, suas casas, seus personagens e suas histórias.
Escrevo porque acredito que preservar a memória é uma forma de preservar a própria identidade.
Escrevo porque Salvador não pode ser apenas aquilo que está diante dos nossos olhos.
Salvador também é aquilo que desapareceu.
Os nomes que resistem ao tempo
A Pituba de minha infância já não existe fisicamente da mesma maneira.
Mas existe dentro de mim.
O Campo do Barreiro
O time Pitubinha
A Festa da Pituba
A Cabana de Pedro
O Boit de Aurino
O Clube Português
O Armazém Popular
E talvez seja essa a verdadeira vitória contra o tempo.
Os prédios podem substituir as casas. As avenidas podem cobrir os caminhos antigos. O progresso pode modificar a paisagem. As máquinas podem transformar terrenos inteiros.
Mas existe alguma coisa que o concreto não consegue destruir.
A memória.
Enquanto alguém lembrar, aquela Pituba continuará existindo.
Enquanto alguém contar a história de uma mãe sentada sob um pé de jasmim, ela continuará viva.
Enquanto alguém lembrar das crianças correndo pelas ruas, dos amigos, das famílias, dos piqueniques e das antigas paisagens, aquela Salvador continuará respirando.
Quando o perfume do jasmim volta
Por isso, quando sinto o perfume do jasmim, não é apenas uma flor que sinto.
É minha infância chegando devagar.
É minha mãe voltando por alguns segundos.
É meu pai novamente jovem.
É Tereza ao meu lado.
São meus amigos.
São as famílias que faziam parte das ruas Rio de Janeiro e São Paulo.
É a Pituba.
É Salvador.
E talvez seja também Deus me lembrando, silenciosamente, que a vida passa depressa, mas aquilo que amamos verdadeiramente encontra uma maneira de permanecer.
A Pituba mudou. Salvador mudou. Eu também mudei.
Mas há uma janela que o tempo jamais conseguiu fechar.
Abro essa janela quando escrevo.
E do outro lado ainda está aquele menino.
Correndo.
Livre.
Feliz.
Sob o céu azul da antiga Pituba.
E, por alguns instantes,
eu volto para casa.
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