O PRÍNCIPE VIROU SAPO?

Por Padre Carlos
Há candidaturas que chegam para somar. Há outras que, ainda que involuntariamente, começam a produzir rachaduras dentro do próprio campo político que pretendem representar. A candidatura da vereadora Dra. Lara a deputada estadual parece estar entrando justamente nessa zona delicada da política de Vitória da Conquista.
Que uma vereadora queira disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia é absolutamente legítimo. Faz parte da democracia, da ambição política e do direito de qualquer liderança construir seu próprio caminho.
A questão não é a candidatura.
A questão é como ela está sendo construída.
Ao assumir uma postura cada vez mais oposicionista em relação à administração municipal, com críticas e denúncias que, até o momento, não vêm acompanhadas publicamente das provas necessárias para sustentar acusações dessa natureza, a vereadora corre o risco de produzir um efeito político maior do que aquele pretendido.
Porque na política existe uma regra elementar: quem acusa precisa provar.
Não basta levantar suspeitas, lançar acusações ou produzir manchetes. Quando se coloca sob suspeita a conduta de pessoas públicas, é preciso apresentar documentos, fatos e elementos concretos que permitam à sociedade avaliar aquilo que está sendo denunciado.
Do contrário, aquilo que deveria ser fiscalização pode começar a parecer apenas disputa política.
A política também é percepção
E aqui surge uma questão ainda mais interessante.
A vereadora não está politicamente isolada de seu marido. Ele é o atual vice-prefeito e vinha sendo naturalmente observado como um nome com potencial para ocupar posição de protagonismo no grupo político da prefeita na disputa de 2028.
Mas política também é percepção.
Quando um dos integrantes de um projeto político começa a se afastar da administração e adota um discurso cada vez mais próximo da oposição, inevitavelmente surgem perguntas sobre os efeitos dessa postura para o restante do grupo.
Não estou afirmando que o vice-prefeito tenha rompido com a prefeita.
Não estou afirmando que exista uma decisão tomada sobre 2028.
Não estou afirmando que alguém tenha sido escolhido para substituí-lo.
Não estou colocando palavras na minha própria boca.
Estou apenas analisando um movimento político e suas possíveis consequências.
E elas podem ser importantes.
Na política, não existe vácuo
Porque existe uma velha lei da política que se parece muito com uma lei da Física: não existe vácuo.
Quando um espaço fica vazio, alguém acaba ocupando.
Na Física, o vácuo tende a ser preenchido. Na política, o princípio também funciona de maneira curiosamente semelhante. Quando uma liderança perde espaço, quando uma candidatura deixa de reunir consenso ou quando um grupo percebe que determinada alternativa começa a produzir mais problemas do que soluções, imediatamente outros nomes passam a ser observados.
E é justamente aí que está o risco.
Pode ser que hoje ninguém esteja ocupando esse espaço.
Pode ser que amanhã apareça um nome.
Pode ser que depois surjam dois, três ou vários pretendentes.
A política não costuma esperar.
O poder não é hereditário.
O capital político não é propriedade privada.
E nenhuma candidatura está garantida dois anos antes de uma eleição.
É preciso conquistar confiança todos os dias.
É preciso manter aliados.
É preciso compreender o momento.
É preciso saber a diferença entre fiscalização e confronto, entre crítica construtiva e ruptura, entre independência política e isolamento.
O risco para o próprio grupo
E talvez seja justamente aí que esteja o maior perigo para o projeto político da família.
Ao tentar construir sua própria candidatura a deputada estadual, Dra. Lara pode acabar provocando um movimento inverso: em vez de fortalecer o espaço político de seu grupo, pode abrir uma discussão antecipada sobre quem poderá ocupar, em 2028, o espaço que até pouco tempo parecia naturalmente reservado ao seu marido.
Não estou dizendo que isso já aconteceu.
Estou dizendo que a política começa a discutir aquilo que os políticos imaginam que ainda não está em discussão.
É assim que surgem alternativas.
É assim que aparecem novos nomes.
É assim que começam as articulações.
É assim que uma candidatura considerada natural deixa de ser unanimidade.
O príncipe virou sapo?
E aqui volto à metáfora que talvez seja a mais provocadora de todas.
Será que o príncipe virou sapo?
Talvez ainda não.
Talvez seja apenas uma fotografia de um momento político.
Talvez exista tempo suficiente para corrigir os rumos, reconstruir pontes e reorganizar alianças.
Mas uma coisa é certa: na política, ninguém deveria confundir vantagem momentânea com direito adquirido.
O eleitor muda.
Os grupos mudam.
As alianças mudam.
As circunstâncias mudam.
E, sobretudo, o espaço político nunca permanece vazio por muito tempo.
Se uma liderança começa a perder espaço, outras começam a aparecer.
Se uma candidatura deixa de ser consenso, surgem alternativas.
Se um grupo percebe que existe um vácuo, alguém tentará ocupá-lo.
A pergunta que fica
Por isso, talvez a grande pergunta neste momento não seja quem será o candidato de 2028.
É outra:
quem estará politicamente de pé quando chegar a hora de escolher?
A resposta ainda está aberta.
E é justamente por estar aberta que todos os pretendentes — conhecidos ou ainda desconhecidos — devem prestar atenção.
Porque na política, como na Física,
não existe vácuo.
Ele sempre acaba sendo ocupado.
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