Entre a Luta de Classes e os Novos Sujeitos da Política
Padre Carlos
Há momentos na história em que uma corrente política não desaparece, mas muda de pele. Continua carregando os mesmos sonhos de igualdade, justiça e emancipação, porém passa a enxergar o mundo por outros olhos. Talvez seja isso que esteja acontecendo com a esquerda brasileira. A filósofa Márcia Tiburi chama esse processo de uma “mutação historicamente necessária”. E talvez a palavra mais adequada seja mesmo metamorfose.
A esquerda que nasceu no século XIX, cresceu com o movimento operário e encontrou no século XX sua expressão mais organizada nos sindicatos, partidos, movimentos populares e na luta de classes não poderia permanecer eternamente igual. O mundo mudou. O capitalismo mudou. O trabalhador mudou. As relações sociais mudaram. E os sujeitos que reivindicam direitos também mudaram.
A questão é saber se a esquerda percebeu essa transformação a tempo.
Durante muito tempo, falar em esquerda significava falar fundamentalmente em trabalhador, sindicato, salário, exploração, propriedade, capital e luta de classes. Essa tradição continua absolutamente necessária. Afinal, não existe democracia social quando milhões de pessoas trabalham e continuam pobres; quando o emprego não garante dignidade; quando a riqueza se concentra nas mãos de poucos; quando o acesso à educação, à saúde e à moradia continua determinado pela renda.
Mas há uma coisa que a história ensinou: o trabalhador não existe no mundo apenas como trabalhador.
Ele tem cor, gênero, sexualidade, origem, território, religião, cultura e uma história familiar. Uma mulher negra que trabalha oito horas por dia não sofre apenas a exploração econômica. Pode sofrer também o racismo e o machismo. Uma mulher trabalhadora pode enfrentar, dentro e fora de casa, desigualdades que um homem não experimenta. Um jovem periférico pode carregar simultaneamente a condição de trabalhador, negro, morador de uma comunidade vulnerável e vítima da violência.
É justamente nesse ponto que a reflexão de Tiburi ganha importância.
“A esquerda brasileira está em uma mutação historicamente necessária.” — Márcia Tiburi
Classe e identidade não são adversárias
A nova esquerda não necessariamente abandonou a luta de classes. Ela ampliou a compreensão sobre quem é o sujeito dessa luta. As mulheres, os negros, os indígenas, os quilombolas e a população LGBTQIA+ não chegaram à política para destruir a esquerda tradicional. Chegaram porque também são parte da sociedade que historicamente lutou contra a exploração e a exclusão. (Brasil 247)
O erro está em transformar essas lutas em adversárias.
Durante anos, uma parte da esquerda tratou determinadas reivindicações como secundárias diante da chamada “questão principal”. De outro lado, surgiu uma reação igualmente problemática: a tentativa de reduzir toda a esquerda contemporânea ao chamado “identitarismo”.
As duas posições são insuficientes.
Não existe contradição necessária entre lutar por melhores salários e combater o racismo. Não existe incompatibilidade entre defender a classe trabalhadora e defender os direitos das mulheres. Não existe razão para escolher entre justiça econômica e igualdade racial. O desafio político do nosso tempo é justamente compreender que essas dimensões frequentemente se encontram na vida concreta das mesmas pessoas.
O problema começa quando a esquerda transforma diferenças legítimas em trincheiras internas.
Uma esquerda dividida entre “classe” e “identidade” corre o risco de combater a si própria enquanto a extrema direita cresce. Márcia Tiburi já havia alertado, em reflexão anterior, para o perigo de uma esquerda transformar suas próprias diferenças em instrumento de divisão. (Revista Cult)
A linguagem que falta
Mas há uma pergunta que também precisa ser feita à esquerda contemporânea: será que a incorporação das novas pautas foi acompanhada de uma linguagem capaz de conversar com o trabalhador comum?
Esse talvez seja um dos grandes dilemas da política progressista.
A esquerda não pode falar apenas para quem já concorda com ela. Não pode transformar a política em um sofisticado debate interno entre militantes, acadêmicos, intelectuais e ativistas. Precisa voltar a conversar com a dona de casa, com o pedreiro, com o motorista, com o pequeno comerciante, com o trabalhador rural, com o jovem desempregado, com o aposentado, com a mãe que teme a violência e com o trabalhador que está preocupado em saber se terá dinheiro para pagar as contas no final do mês.
A política começa quando conseguimos transformar uma grande ideia em uma linguagem que o povo compreenda.
E aqui está uma das grandes diferenças entre a velha esquerda e o mundo político contemporâneo. As redes sociais mudaram radicalmente a maneira como as pessoas recebem informação. A extrema direita percebeu isso com enorme velocidade. Aprendeu a transformar medo, ressentimento e indignação em combustível político. A esquerda, muitas vezes, ainda parece presa à lógica dos antigos comícios, das reuniões partidárias e dos discursos dirigidos aos próprios militantes.
Não basta ter razão. É preciso saber disputar a sociedade.
A metamorfose da esquerda, portanto, não pode ser apenas uma mudança de vocabulário. Precisa ser uma transformação na maneira de fazer política.
E talvez esse seja o ponto mais importante da reflexão de Tiburi: distinguir política de simples jogo de poder. A própria filósofa já havia criticado uma esquerda burocrática que se aproxima da direita quando transforma a política exclusivamente em disputa por espaços, cargos e controle institucional. (Swissinfo)
Uma esquerda que perde a capacidade de sonhar torna-se apenas uma máquina eleitoral.
E uma máquina eleitoral pode até ganhar eleições, mas dificilmente transforma uma sociedade.
O Brasil de 2026
O Brasil de 2026 oferece uma demonstração dessa complexidade. Um levantamento recente da Folha, baseado no comportamento real dos partidos, mostra que PT e PSOL continuam situados no campo da esquerda, enquanto o sistema partidário permanece profundamente fragmentado e atravessado por alianças e deslocamentos ideológicos. (Folha de S.Paulo)
Um levantamento baseado em candidatos que disputaram eleições em 2022 e voltaram a concorrer em 2026 encontrou um dado inquietante: entre os que estavam no centro e mudaram de campo, três em cada quatro caminharam para a direita. (Folha de S.Paulo)
Isso deveria servir de alerta.
A extrema direita não está esperando que a esquerda resolva suas disputas internas. Ela está ocupando espaços, construindo narrativas e disputando os sentimentos da sociedade.
Por isso, a metamorfose da esquerda precisa significar mais do que incorporar novas identidades. Precisa significar reconstruir uma maioria social.
Uma maioria que consiga dizer ao trabalhador que a defesa do seu salário é inseparável da defesa da dignidade humana. Que consiga explicar ao jovem negro da periferia que combater o racismo também significa combater a desigualdade. Que consiga dizer à mulher trabalhadora que feminismo não é uma pauta distante de sua vida, mas também está presente na luta por creche, salário digno, segurança, saúde e autonomia. Que consiga mostrar ao pequeno empreendedor que justiça social não precisa significar hostilidade contra quem trabalha para construir seu próprio negócio.
Uma esquerda em movimento
A esquerda precisa voltar a falar de futuro.
Não apenas do futuro de determinados grupos, mas do futuro de uma sociedade inteira.
Esse talvez seja o verdadeiro sentido da metamorfose.
A esquerda do século XXI não pode ser simplesmente uma cópia nostálgica da esquerda do século XX. Mas também não pode cometer o erro inverso de acreditar que tudo aquilo que veio antes perdeu validade. Marx continua importante porque a desigualdade econômica continua existindo. Rosa Luxemburgo continua importante porque democracia e liberdade continuam sendo questões fundamentais. A tradição socialista continua importante porque a concentração da riqueza não desapareceu.
Mas nenhuma dessas referências pode ser transformada em dogma.
A esquerda precisa ter coragem para conservar seus princípios e abandonar suas certezas quando a realidade exigir.
Talvez seja esse o significado mais profundo de uma esquerda em mutação: não abandonar sua identidade, mas compreender que identidade também é movimento.
A esquerda que sobreviver será aquela capaz de unir o velho e o novo. A luta por salário e a luta contra o racismo. A defesa dos trabalhadores e o feminismo. A justiça econômica e a preservação ambiental. A democracia social e a liberdade individual. A organização partidária e a espontaneidade dos movimentos sociais. A tradição histórica e a criatividade das novas gerações.
Não se trata de escolher entre classe e identidade.
Trata-se de compreender que a classe trabalhadora do século XXI é muito mais diversa do que aquela imaginada pelas fotografias em preto e branco da Revolução Industrial.
O trabalhador de hoje tem rosto, gênero, cor, território, desejos, medos e identidades. E é justamente por isso que a esquerda precisa aprender a enxergá-lo em sua totalidade.
Talvez a esquerda não esteja morrendo. Talvez esteja nascendo outra.
E toda metamorfose provoca estranhamento porque, antes de revelar aquilo que está nascendo, precisa destruir a forma antiga.
O desafio da esquerda brasileira não é voltar ao passado nem abandonar suas raízes. É fazer aquilo que toda força política verdadeiramente viva precisa fazer: compreender seu tempo.
Porque a história não pergunta se estamos preparados para mudar. Ela simplesmente muda.
E quem não compreende a mudança corre o risco de transformar uma grande tradição de luta por igualdade em apenas uma lembrança do passado.
A esquerda brasileira precisa, portanto, completar sua metamorfose sem perder sua alma. Precisa continuar ao lado dos trabalhadores, mas compreender quem são os trabalhadores de hoje. Precisa defender os pobres, mas ouvir suas novas demandas. Precisa combater a desigualdade, mas reconhecer todas as formas pelas quais ela se manifesta. Precisa enfrentar a extrema direita, mas também enfrentar seus próprios erros.
Porque uma esquerda que aprende com seus erros pode renascer. Uma esquerda que se recusa a aprender pode simplesmente desaparecer.
E talvez seja justamente aí que esteja a grande lição da metamorfose: mudar não é necessariamente abandonar aquilo que somos.
Às vezes, mudar é a única maneira de continuar sendo aquilo que acreditamos.
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Márcia Tiburi
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha





