Política e Resenha

QUANDO A ACUSAÇÃO SEM PROVA VIRA ARMA ELEITORAL

QUANDO A POLÍTICA TENTA TRANSFORMAR ACUSAÇÃO EM CONDENAÇÃO

Por Padre Carlos

Há momentos em que a política deixa de ser disputa de ideias e começa a se transformar em uma guerra pela destruição da reputação alheia. Vitória da Conquista parece estar entrando perigosamente nesse terreno.

Na eleição municipal de 2024, a população deu uma resposta contundente às forças que pretendiam derrotar Sheila Lemos. A prefeita foi reeleita no primeiro turno, com 58,83% dos votos, enquanto o segundo colocado ficou com 26,74%. Foram mais de 116 mil votos.

Foi uma derrota eleitoral que não pode ser apagada por narrativa de ocasião.

Mas política é movimento. E, quando alguém perde uma eleição, pode escolher dois caminhos: reconstruir-se democraticamente, apresentando novas ideias ao eleitor, ou tentar destruir o adversário que ocupa o espaço que se deseja conquistar.

A acusação não é a condenação

É aqui que começa a minha preocupação.

O que estamos assistindo em Vitória da Conquista é uma escalada de acusações contra o grupo político da prefeita Sheila Lemos e, particularmente, contra Wagner Alves, candidato a deputado estadual apoiado pelo grupo.

Recentemente, uma vereadora e candidata ao mesmo cargo fez acusações graves contra Wagner, afirmando que ele estaria utilizando procedimentos de saúde para obter apoio eleitoral. O problema é que, segundo as reportagens que registraram o episódio, documentos ou provas públicas que comprovassem a acusação não foram apresentados. Wagner negou categoricamente e anunciou que pretende recorrer à Justiça. A própria Fundação Pública de Saúde declarou que os procedimentos do Hospital Esaú Matos obedecem aos fluxos de regulação do SUS e a critérios técnicos, sem vinculação político-partidária.

Isso não significa que uma denúncia deva ser ignorada.

Muito pelo contrário.

Se alguém tem provas de crime eleitoral, deve apresentá-las à Justiça Eleitoral. Se existe compra de votos, abuso de poder, utilização indevida da máquina pública ou qualquer outra irregularidade, que se investigue, que se produza prova e que os responsáveis sejam punidos.

Mas há uma diferença gigantesca entre denunciar e condenar.

E essa diferença é justamente o que alguns parecem querer eliminar.

“Uma acusação não é uma sentença. Uma suspeita não é uma prova. Uma narrativa política não substitui uma decisão judicial.”

O próprio Tribunal Regional Eleitoral da Bahia recentemente negou liminar em uma ação que questionava suposto abuso de poder político e econômico envolvendo Sheila Lemos e Wagner Alves. Segundo a decisão divulgada, as acusações apresentadas naquela fase estavam baseadas em reportagens e presunções, sem provas concretas suficientes para justificar a intervenção liminar pretendida. O processo, naturalmente, continua sujeito à apuração e ao julgamento do mérito.

Justiça investiga. Imprensa informa. O eleitor decide.

Eis a questão fundamental.

A Justiça deve investigar. A imprensa deve informar. A oposição deve fiscalizar. Mas ninguém deveria transformar uma acusação em condenação antes da existência da prova.

Isso vale para a esquerda.

Vale para a direita.

Vale para o centro.

Vale para qualquer político.

O eleitor não pode ser tratado como massa de manobra de uma estratégia construída para produzir um escândalo eleitoral às vésperas da votação.

Porque existe uma técnica antiga na política: lança-se uma acusação suficientemente grave, espalha-se a suspeita nas redes sociais, transforma-se a suspeita em manchete, a manchete em narrativa e, finalmente, a narrativa passa a ser apresentada como se fosse fato comprovado.

Quando a verdade chega, às vezes já é tarde.

A reputação já foi destruída.

É o conhecido julgamento pelas redes sociais.

E isso é perigoso para a democracia.

Mais perigoso ainda quando a disputa não se limita mais a Vitória da Conquista e começa a ganhar repercussão na capital, tentando transformar uma disputa política local em um problema de dimensão estadual.

Não existe imunidade política — mas também não existe condenação sem prova

Não tenho procuração para defender ninguém que eventualmente tenha cometido irregularidade. Se Wagner Alves ou qualquer outro candidato tiver cometido crime eleitoral, que responda por seus atos. Não existe imunidade política para ninguém.

Mas também não aceito que alguém seja condenado pela opinião pública antes que tenha o direito de apresentar sua defesa.

A política não pode funcionar como tribunal de exceção.

Não se combate um suposto erro democrático destruindo as próprias regras da democracia.

Denunciar é legítimo. Fiscalizar é necessário. Investigar é indispensável. Condenar, porém, é tarefa da Justiça, depois da prova e do devido processo.

A disputa pelo protagonismo da direita

Há, ainda, uma questão política que não pode ser ignorada: quando adversários que pertencem ao mesmo campo político começam a se atacar com tamanha intensidade, é preciso perguntar se estamos diante de uma legítima divergência ou de uma disputa pelo espólio político.

Porque o que está em jogo em Vitória da Conquista não é apenas uma cadeira na Assembleia Legislativa.

É o futuro protagonismo da direita conquistense.

E aí a política fica muito mais interessante.

Depois da vitória expressiva de Sheila Lemos em 2024, consolidou-se um grupo político com capacidade eleitoral. Agora, na eleição de 2026, diferentes atores começam a disputar o direito de falar em nome desse campo.

E quando o protagonismo político está em disputa, surgem as tentações.

Uma delas é tentar crescer pela própria força.

A outra é tentar diminuir o adversário.

Eu prefiro a primeira.

Quem deseja liderar a direita em Vitória da Conquista precisa apresentar projeto, demonstrar capacidade, conquistar votos e construir confiança.

Não precisa destruir ninguém.

O tribunal das redes sociais

A política deveria ser uma competição de ideias, não uma competição para descobrir quem consegue produzir a acusação mais devastadora.

E existe algo ainda mais grave: utilizar a proximidade com instituições, redes sociais ou veículos de comunicação para criar uma espécie de tribunal político informal, no qual a acusação já chega acompanhada da sentença.

Isso não é democracia.

É linchamento reputacional.

E aqui faço uma advertência que serve para todos os lados: não podemos combater aquilo que consideramos errado utilizando os mesmos métodos que condenamos nos nossos adversários.

Se a oposição acredita que existe corrupção, abuso de poder ou compra de votos, apresente documentos.

Se possui testemunhas, que sejam ouvidas.

Se existem provas materiais, que sejam entregues à Justiça.

Se existe crime, que haja investigação.

Mas se não existem provas, é preciso ter responsabilidade com aquilo que se fala.

A reta final exige responsabilidade

A liberdade de expressão protege a crítica. A democracia protege a oposição. A imprensa deve fiscalizar o poder. Mas nenhuma dessas garantias transforma uma acusação sem prova em verdade absoluta.

E é exatamente por isso que a reta final de uma eleição exige ainda mais responsabilidade.

Quanto menor o tempo para o eleitor avaliar os fatos, maior o risco de uma acusação viralizada produzir um dano irreversível.

A política pode ser dura.

Pode ser feroz.

Pode ser disputada voto a voto.

Mas existe uma linha que não deveríamos ultrapassar: aquela que separa a denúncia responsável da fabricação de uma condenação política.

Vitória da Conquista merece mais

Vitória da Conquista merece uma eleição em que o eleitor escolha candidatos pelo que fizeram, pelo que prometem fazer e pela confiança que conseguem construir.

Não por aquilo que alguém simplesmente decidiu dizer sobre eles.

Se existem provas, que apareçam.

Se existem crimes, que sejam punidos.

Se existem apenas acusações, que continuem sendo tratadas como acusações.

Porque, em uma democracia, ninguém deveria ser condenado antes de ser julgado — e ninguém deveria transformar adversário político em culpado apenas porque precisa abrir espaço para si mesmo.

A verdade pode até demorar. Mas, quando chega, costuma ser implacável com quem tentou substituí-la pela narrativa.

E talvez seja justamente disso que a política de Vitória da Conquista mais esteja precisando neste momento: menos acusações lançadas ao vento e mais coragem para apresentar provas.

Porque eleição se ganha com voto.

Protagonismo se conquista com liderança.

E reputação não deveria ser destruída por aquilo que ainda não foi provado.

Política
Vitória da Conquista
Eleições 2026
Democracia
Justiça Eleitoral

Padre Carlos

Articulista — Política e Resenha