SHEILA, RECEBA OS BOLSONARISTAS ANTES QUE OS AVENTUREIROS TOMEM A DIREITA DE CONQUISTA

Há uma frase atribuída a D. João VI que atravessou a história política brasileira e que, curiosamente, pode servir de conselho para a prefeita Sheila Lemos neste momento: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros.”
A frase, dita no contexto da Independência do Brasil, carregava uma preocupação essencialmente política: se uma mudança era inevitável, era melhor que a liderança permanecesse nas mãos de alguém conhecido do que fosse entregue a aventureiros.
É exatamente essa lógica que eu colocaria diante da prefeita Sheila Lemos.
Prefeita, receba os bolsonaristas.
Receba Flávio Bolsonaro. Receba João Roma. Receba as lideranças conservadoras. Converse com aqueles que se identificam com a direita.
Não porque a senhora tenha obrigação de aderir ao bolsonarismo, mas porque a política não se faz expulsando adversários internos do próprio campo; faz-se ocupando espaços antes que outros os ocupem.
Flávio Bolsonaro estará em Vitória da Conquista nesta quinta-feira, 17 de setembro, acompanhado de lideranças do campo da direita, entre elas João Roma. E já surgiu a pergunta inevitável: Sheila Lemos irá ou não ao encontro?
Eu diria que deveria ir.
Não necessariamente para declarar apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro. Não para abandonar a posição que o União Brasil vem construindo na Bahia. Não para contrariar ACM Neto, que declarou apoio a Ronaldo Caiado para a Presidência da República.
Mas para fazer política.
Porque existe uma diferença enorme entre apoiar um candidato e dialogar com o eleitorado que esse candidato representa.
“Antes seja para ti […] do que para algum desses aventureiros.”
A direita não pertence ao bolsonarismo — mas o bolsonarismo faz parte dela
Sheila Lemos venceu a eleição municipal de 2024 com uma vitória expressiva. Construiu uma liderança política que ultrapassou os limites de um grupo partidário. Hoje, ela é uma das principais referências da direita institucional em Vitória da Conquista.
Mas liderança política não é patrimônio eterno. Liderança precisa ser ocupada todos os dias.
Se Sheila se afastar do eleitorado bolsonarista, alguém ocupará esse espaço.
É preciso ter maturidade para compreender uma coisa muito simples: a direita brasileira é maior do que Jair Bolsonaro, mas Bolsonaro continua sendo uma força dentro da direita.
Ignorar isso é um erro. Assim como seria um erro imaginar que todo eleitor de direita é bolsonarista.
Há liberais, conservadores, democratas-cristãos, antipetistas, eleitores independentes, eleitores de centro-direita e até pessoas que votam em candidatos diferentes dependendo da eleição. Esse é o eleitor que uma liderança inteligente precisa conquistar.
Sheila não precisa escolher entre União Brasil e bolsonarismo como se estivesse diante de uma guerra religiosa. Ela pode conversar com todos.
Pode receber Flávio Bolsonaro e continuar defendendo a posição do seu partido. Pode conversar com João Roma e continuar apoiando ACM Neto. Pode respeitar o eleitor bolsonarista sem necessariamente se tornar bolsonarista.
Isso não é incoerência. Isso é política.
O maior perigo para Sheila não é Flávio Bolsonaro
Há uma ironia nessa história.
Alguns podem imaginar que receber Flávio Bolsonaro representaria uma ameaça à liderança de Sheila. Eu penso exatamente o contrário.
O verdadeiro risco para Sheila é não receber.
Porque, se ela não ocupar esse espaço, alguém ocupará. E talvez esse alguém não tenha a mesma experiência administrativa, a mesma legitimidade eleitoral ou a mesma capacidade de diálogo que a prefeita possui.
É aí que entram os aventureiros.
A política detesta o vácuo. Quando uma liderança abandona um espaço político, alguém aparece para ocupá-lo. E aqueles que hoje parecem pequenos podem crescer rapidamente quando encontram um eleitorado órfão de representação.
Não se trata de apoiar Flávio. Trata-se de não entregar a direita
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Receber Flávio Bolsonaro em Vitória da Conquista não significa necessariamente apoiar sua candidatura presidencial. Significa reconhecer que existe uma parcela significativa da população que se identifica com o bolsonarismo. E essa população merece ser tratada com respeito.
Política democrática não consiste em conversar apenas com quem pensa igual. Pelo contrário. Grande liderança é aquela que consegue conversar com quem pensa diferente sem perder sua própria identidade.
“Sou do União Brasil.”
“Meu grupo tem uma posição definida para a eleição presidencial.”
“Meu candidato ao governo da Bahia é ACM Neto.”
E, ao mesmo tempo, abrir as portas da cidade para Flávio Bolsonaro.
Uma coisa não elimina a outra.
O exemplo de ACM Neto também precisa ser considerado
ACM Neto sabe que precisa ampliar seu eleitorado. A eleição para o Governo da Bahia está apertada. Nesse cenário, qualquer movimento que restrinja o campo eleitoral pode custar caro.
É por isso que a direita precisa evitar uma armadilha perigosa: transformar toda eleição em uma guerra nacional entre Lula e Bolsonaro.
A Bahia tem suas próprias contradições. Vitória da Conquista também. O eleitor pode votar em Lula para presidente e em ACM Neto para governador. Pode votar em um candidato de direita para deputado e escolher outro partido para o Senado. Pode rejeitar o PT sem ser bolsonarista. Pode gostar de Bolsonaro e votar em ACM Neto. Pode votar em Sheila e não concordar com todas as posições do União Brasil.
O eleitor não pertence aos partidos. Os partidos é que precisam disputar o eleitor.
Prefeita, não entregue a liderança da direita
É aqui que eu faço um apelo direto à prefeita Sheila Lemos.
Não entregue a liderança da direita de Vitória da Conquista para ninguém.
Muito menos para aventureiros que podem aparecer agora tentando transformar a insatisfação de uma parcela do eleitorado em projeto pessoal de poder.
Receba os bolsonaristas. Converse com eles. Escute suas demandas. Respeite suas posições. Mas mantenha sua autonomia.
Não permita que a direita conquistense seja dividida em pequenas tribos políticas disputando quem é mais bolsonarista, mais conservador ou mais radical.
A direita precisa de liderança. E liderança não se constrói apenas nas redes sociais. Constrói-se com voto, gestão, presença, diálogo e capacidade de vencer eleições.
Sheila tem uma vantagem que muitos de seus adversários não têm: ela já passou pelo teste das urnas. Foi eleita. Governou. Foi reeleita. E construiu uma referência política que não pode ser desperdiçada por falta de diálogo.
A lição de D. João
Voltemos, então, àquela velha frase.
“Antes seja para ti […] do que para algum desses aventureiros.”
Não estou propondo que Sheila trate a direita como propriedade particular. Muito pelo contrário. Estou dizendo que ela deve compreender a responsabilidade de quem ocupa uma liderança.
Se existe um eleitorado de direita em Vitória da Conquista, cabe à liderança política dialogar com ele. Se existe um eleitorado bolsonarista, cabe conversar com ele.
Se Flávio Bolsonaro vem à cidade, por que transformar uma visita política em um problema?
Recebê-lo não significa ajoelhar-se diante dele.
Cumprimentá-lo não significa votar nele.
Conversar com João Roma não significa abandonar ACM Neto.
Estar presente não significa aderir.
Política é presença.
E quem deixa de estar presente acaba permitindo que outro ocupe o lugar.
A direita conquistense precisa de liderança, não de donos
Vitória da Conquista não precisa de donos da direita. Precisa de liderança.
E liderança política não pode ser construída na base da exclusão.
A prefeita Sheila Lemos tem diante de si uma oportunidade: mostrar que é suficientemente forte para conversar com todos os segmentos da direita sem perder sua identidade.
Se fizer isso, ninguém poderá dizer que ela abandonou o eleitor conservador. E ninguém poderá ocupar facilmente o espaço que ela já conquistou.
Mas, se virar as costas para esse eleitorado, outros chegarão. E talvez cheguem justamente aqueles que hoje se apresentam como os únicos verdadeiros representantes da direita.
É aí que mora o perigo.
Porque, como ensinou a velha política, quando existe um espaço vazio, alguém sempre aparece para ocupá-lo.
Prefeita Sheila, receba os bolsonaristas.
Receba Flávio Bolsonaro.
Converse com João Roma.
Respeite o eleitor conservador.
Defenda ACM Neto.
Preserve a identidade do União Brasil.
E continue sendo Sheila Lemos.
Não entregue a liderança da direita de Vitória da Conquista.
Porque, parafraseando D. João, se a direita conquistense tiver de mudar de mãos, é melhor que permaneça nas mãos de quem já conhece a cidade, conhece sua gente e já provou nas urnas que sabe vencer — do que cair nas mãos de algum aventureiro.
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