Política e Resenha

LULA E A HISTÓRIA: COMO UM OPERÁRIO SE TORNOU UM FENÔMENO POLÍTICO MUNDIAL

LULA E O FENÔMENO POLÍTICO QUE JÁ ENTROU PARA A HISTÓRIA

Por Padre Carlos

Há personagens que atravessam a política. Há outros que são atravessados por ela. E há, em raríssimos momentos da história, aqueles que parecem se confundir com o próprio tempo em que vivem. Luiz Inácio Lula da Silva pertence a essa última categoria. Gostem dele ou não, concordem com suas ideias ou as combatam, é intelectualmente difícil analisar a política brasileira contemporânea sem reconhecer que Lula se tornou um dos maiores fenômenos eleitorais da história da República.

E aqui não se trata de paixão política, muito menos de propaganda. Trata-se de análise.

Quem olha para a trajetória de Lula com o distanciamento que se espera de um observador da história política precisa admitir a excepcionalidade do personagem. O homem que saiu do movimento sindical, chegou à Presidência da República, enfrentou derrotas, crises, acusações, prisão, perseguições políticas e voltou ao Palácio do Planalto não construiu apenas uma carreira. Construiu uma permanência política extraordinária.

Lula é, sob qualquer critério sério de análise, um fenômeno.

É preciso separar, portanto, o julgamento ideológico da observação histórica. Uma coisa é ser lulista. Outra é reconhecer o lulismo como fenômeno político. Uma coisa é apoiar Lula. Outra, completamente diferente, é negar a dimensão histórica de sua trajetória.

E os números ajudam a compreender aquilo que a paixão política frequentemente tenta esconder.

A força de uma trajetória eleitoral

Em 2002, Lula venceu a eleição presidencial. Em 2006, voltou a vencer. Em 2010, embora não pudesse disputar um terceiro mandato consecutivo, sua força política foi determinante para a eleição de Dilma Rousseff. Em 2014, Dilma foi novamente eleita tendo Lula como principal referência política do campo governista. Em 2018, Lula estava preso e, ainda assim, permaneceu no centro da disputa política nacional, embora tenha sido impedido de concorrer. Em 2022, voltou às urnas e venceu Jair Bolsonaro no segundo turno.

É uma sequência impressionante.

Mas há algo ainda mais importante do que simplesmente contar eleições: Lula conseguiu sobreviver politicamente a circunstâncias que, para a maioria dos líderes, significariam o fim da carreira.

A derrota de 1989 não o matou politicamente. As derrotas posteriores não o eliminaram. O desgaste provocado pelo mensalão não o destruiu. A Lava Jato não encerrou sua trajetória. A prisão não apagou sua liderança. A polarização política não dissolveu sua base social.

Ao contrário.

Lula saiu de algumas das maiores crises de sua vida política e retornou ao jogo.

Isso, para qualquer estudioso da ciência política, merece atenção.

A democracia não precisa de santos

Não se trata de dizer que Lula é infalível. Não é. Não se trata de afirmar que seus governos foram perfeitos. Não foram. Tampouco significa ignorar erros, contradições, escândalos ou decisões políticas que podem e devem ser criticadas.

A democracia não precisa de santos.
Precisa de análise.

E uma análise honesta precisa reconhecer que Lula estabeleceu uma relação extraordinariamente duradoura com parcelas expressivas da sociedade brasileira. Ele não é apenas um candidato competitivo. Tornou-se uma referência política capaz de organizar o campo da esquerda brasileira e, em muitos momentos, estruturar a própria disputa entre esquerda e direita.

Talvez esteja aí uma das maiores singularidades de Lula.

Ele deixou de ser apenas um político para transformar-se em uma categoria da política brasileira.

Quando se fala em Lula, fala-se de eleições, mas também se fala de sindicalismo, pobreza, inclusão social, Nordeste, trabalhadores, PT, esquerda, políticas públicas, relações internacionais, democracia e, sobretudo, de um determinado período da história brasileira.

É impossível escrever a história política do Brasil das últimas quatro décadas sem dedicar a Lula um capítulo central.

Muito além do amor e do ódio

E é justamente por isso que considero intelectualmente pobre a tentativa de reduzir sua trajetória ao amor ou ao ódio.

A política brasileira tem produzido uma quantidade enorme de paixões, mas a história não será escrita pela paixão. Será escrita pelos fatos.

E os fatos mostram que Lula chegou a um lugar reservado a pouquíssimos líderes políticos: o lugar da permanência histórica.

Agora, existe ainda uma possibilidade que torna essa trajetória mais extraordinária.

Se Lula vencer a eleição presidencial de 2026 — hipótese que, no cenário atual, o coloca entre os principais favoritos da disputa — ele poderá alcançar uma marca eleitoral absolutamente excepcional: uma sexta vitória presidencial direta, considerando suas vitórias em 2002, 2006 e 2022 e as duas eleições vencidas por Dilma Rousseff com Lula como principal liderança política do campo que representava, além de sua presença decisiva na disputa de 2018 mesmo estando preso.

Mas aqui é preciso fazer uma ressalva importante: eleição de Dilma não é eleição de Lula.

Analiticamente, não podemos transformar Dilma em Lula. A presidente era outra pessoa, tinha sua própria trajetória e recebeu seus próprios votos. O que se pode afirmar, com segurança, é que Lula foi o principal líder político daquele campo e exerceu enorme influência sobre aquelas eleições.

Essa distinção não diminui Lula.

Ao contrário.

Ela torna a análise mais séria.

Porque a grandeza de um fenômeno político não precisa ser construída por exageros. A realidade já é suficientemente poderosa.

A extraordinária capacidade de sobreviver

Lula foi derrotado. Foi contestado. Foi profundamente rejeitado por uma parcela significativa da sociedade. Enfrentou um adversário político com enorme capacidade de mobilização. Passou anos fora do poder. Foi preso. Retornou. E voltou a disputar uma eleição presidencial aos 77 anos, vencendo-a.

Poucos líderes conseguem tamanha capacidade de sobrevivência política.

E talvez seja justamente aí que esteja a chave para compreender o fenômeno Lula.

Ele possui uma característica que a ciência política pode estudar, mas que dificilmente consegue explicar completamente: a capacidade de permanecer emocionalmente conectado a uma parte significativa do eleitorado mesmo quando o ambiente político muda radicalmente.

Há algo de racional nessa relação, evidentemente. Há identificação social, avaliação de governos, memória econômica, políticas públicas, interesses de classe e escolhas eleitorais.

Mas há também algo profundamente simbólico.

Quando um político se transforma em símbolo

Para milhões de brasileiros, Lula não é apenas Lula.

Ele representa uma história.

A história do trabalhador que chegou ao poder. A história do retirante nordestino que ocupou o espaço mais importante da República. A história de alguém que nasceu longe dos centros tradicionais de poder e conseguiu entrar neles pela força do voto.

É justamente por isso que sua figura provoca sentimentos tão intensos.

Quem ama Lula não ama apenas um político. Quem rejeita Lula, muitas vezes, não rejeita apenas um político.

Em ambos os casos, existe uma disputa de símbolos.

E símbolos não desaparecem facilmente.

O fenômeno da esquerda mundial

Por isso, quando alguém afirma que Lula é um fenômeno da esquerda mundial, a frase pode parecer exagerada aos ouvidos de seus adversários. Mas, observada com rigor, ela contém uma questão legítima: poucos líderes de esquerda conseguiram combinar longevidade eleitoral, capacidade de mobilização popular, sobrevivência política e protagonismo internacional durante tantas décadas.

Isso não significa que Lula seja o maior líder político de todos os tempos.

Não é possível fazer uma afirmação dessa natureza com rigor acadêmico.

Significa reconhecer algo mais preciso: Lula ocupa um lugar extraordinário na história política contemporânea.

E talvez o Brasil ainda não tenha percebido completamente a dimensão desse fenômeno porque estamos vivendo dentro dele.

A história possui uma crueldade peculiar: enquanto os acontecimentos acontecem, quase nunca conseguimos enxergar sua verdadeira dimensão. É somente depois que as paixões diminuem, os personagens desaparecem e os documentos permanecem que conseguimos perceber quem realmente marcou uma época.

Lula ainda está vivo.

Ainda disputa eleições.

Ainda provoca amor e ódio.

Ainda divide opiniões.

Ainda movimenta multidões.

Ainda influencia partidos.

Ainda ocupa o centro do debate político brasileiro.

E talvez seja exatamente essa vitalidade que torne sua trajetória tão incomum.

O que ficará para a história

Se 2026 confirmar uma nova vitória presidencial, o fenômeno ganhará mais um capítulo. Se não confirmar, a dimensão histórica de sua trajetória não desaparecerá.

Porque a história de Lula não depende de uma única eleição.

Ela já foi escrita em muitas urnas, em muitas derrotas, em muitas vitórias e, sobretudo, na extraordinária capacidade de voltar quando muitos acreditavam que ele já havia terminado.

Lula não precisa ser amado para ser estudado.
Não precisa ser admirado para ser reconhecido.
E não precisa ser considerado perfeito para ser compreendido como um fenômeno político.

A grandeza da democracia está justamente nisso: permitir que possamos reconhecer a dimensão histórica de um adversário sem precisar transformar reconhecimento em adesão.

Talvez essa seja a maturidade que ainda nos falta.

Porque, quando a poeira das paixões baixar, quando os debates de hoje forem transformados em páginas de livros e quando os protagonistas já não puderem defender suas próprias versões, uma conclusão provavelmente permanecerá:

Luiz Inácio Lula da Silva foi — e continua sendo — um dos mais extraordinários fenômenos eleitorais e políticos da história da República brasileira.

E isso, gostemos ou não, já pertence à história.

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Padre Carlos

Articulista — Política e Resenha