Por Padre Carlos
Nestes dias perdi um grande amigo. Mais do que amigo, um companheiro de caminhada, daqueles que a vida vai colocando em nosso caminho e que, mesmo quando a distância e o tempo diminuem os encontros, continuam ocupando um lugar que a rotina não consegue apagar.
Havia mais de um ano que eu não o via.
Da última vez em que nos encontramos, por acaso, na rua, tivemos uma daquelas conversas rápidas que parecem anunciar outra conversa, maior, mais demorada, daquelas que a gente promete marcar quando houver tempo. Eu lhe disse que queria escrever sobre a corrente política na qual ele havia militado. Queria compreender melhor sua história, suas ideias, suas contradições e, sobretudo, ouvir de alguém que não conheceu aquilo apenas nos livros, mas na militância.
Ficamos de conversar.
E seguimos nossas vidas.
A promessa que o tempo não apagou
Esse talvez seja um dos enganos mais humanos que existem: acreditar que sempre haverá outra oportunidade.
A gente acha que tem tempo para telefonar depois. Tempo para visitar depois. Tempo para perguntar depois. Tempo para ouvir aquela história depois. Tempo para tomar aquele café que nunca marcamos. Tempo para cumprir aquela promessa que ficou guardada em algum canto da memória.
Só que algumas vezes o depois simplesmente não chega.
Nossa conversa não aconteceu.
Mas a promessa ficou.
Por isso escrevo hoje.
“Aqui está o trabalho que lhe prometi, companheiro.”
Uma corrente e as perguntas de uma geração
Você militou numa tradição política que atravessou algumas das discussões mais importantes da esquerda brasileira das últimas décadas: a Democracia Socialista, a DS.
A história dessa corrente antecede inclusive a própria criação do Partido dos Trabalhadores. A DS surgiu em 1979, a partir da aproximação de grupos e militantes ligados à esquerda socialista, muitos deles reunidos em torno do jornal Em Tempo, publicação criada ainda durante o período da ditadura. A organização participou do processo de formação do PT e, posteriormente, consolidou-se como uma de suas tendências internas.
Não se tratava apenas de escolher um nome diferente dentro de um mesmo partido.
Por trás daquela organização existia uma discussão muito maior: que tipo de esquerda deveria nascer da redemocratização brasileira? Que relação deveria existir entre eleições, movimentos sociais, sindicatos, instituições e transformação da sociedade?
Essas perguntas atravessaram toda a história da DS.
Em 1986, a organização realizou seu último congresso ainda com a antiga configuração. Em 1988, na sua 1ª Conferência Nacional, assumiu publicamente sua condição de tendência interna do PT. Aquela mudança não era apresentada por seus formuladores apenas como uma alteração burocrática. Representava uma determinada leitura sobre o próprio Partido dos Trabalhadores e sobre o lugar que aquela corrente deveria ocupar dentro dele.
Era uma aposta.
A aposta de que o PT não deveria ser visto simplesmente como uma legenda eleitoral, mas como um espaço político ainda em construção e em disputa.
Entre as instituições e as ruas
Talvez esteja justamente aí uma das partes mais interessantes dessa história.
Porque a Democracia Socialista viveu permanentemente uma tensão que, de diferentes maneiras, acompanharia o próprio desenvolvimento da esquerda brasileira: como entrar nas instituições sem se tornar prisioneiro delas?
A DS defendia uma estratégia conhecida como “estratégia da pinça”. A ideia central era combinar a atuação institucional com a organização social. De um lado, disputar eleições, governos, parlamentos e espaços existentes do Estado; do outro, fortalecer movimentos sociais e formas de participação popular. Segundo os próprios documentos da corrente, a transformação política dependeria justamente dessa articulação entre avanço institucional e organização popular.
Pode-se concordar ou discordar dessa concepção. E seria até desonesto reconstruir uma trajetória política fingindo que nela não existiram erros, derrotas, divergências ou contradições.
Existiram muitas.
A própria DS reconheceu algumas delas ao longo do caminho.
Nos seus debates internos, apareceu cedo a preocupação de que o crescimento eleitoral do PT pudesse produzir aquilo que seus documentos chamavam de “estreitamento institucionalista”: um partido cada vez mais guiado pelo calendário eleitoral e pela conquista de posições nas instituições, enquanto sua organização de base e sua presença cotidiana nos movimentos sociais se enfraqueciam.
Essa é uma questão histórica interessante porque revela que muitos dos dilemas que anos depois seriam discutidos publicamente dentro da esquerda brasileira já estavam sendo debatidos internamente havia décadas.
O partido cresce eleitoralmente.
Os mandatos aumentam.
As prefeituras chegam.
Depois vêm governos estaduais.
Por fim, chega o governo federal.
E então aparece uma pergunta difícil para qualquer organização nascida dos movimentos sociais: o que acontece com um partido de transformação quando ele começa a administrar aquilo que antes apenas contestava?
Talvez essa pergunta seja muito maior do que qualquer corrente.
E certamente não foi respondida de uma vez por todas.
O crescimento e suas contradições
Nos anos 1990, a Democracia Socialista continuou debatendo justamente a relação entre a atuação institucional e aquilo que chamava de estratégia democrática e popular. Seus documentos defendiam que o PT mantivesse vínculos com os trabalhadores, movimentos sociais e setores populares e, ao mesmo tempo, preservasse uma identidade própria diante das pressões produzidas pela institucionalidade.
Também havia dentro dessa tradição uma forte preocupação com a democracia interna dos partidos.
A existência de diferentes tendências dentro do PT era compreendida como parte desse pluralismo. A própria passagem da DS de organização autônoma para tendência partidária estava relacionada à regulamentação desse direito de organização interna. Um documento publicado em Em Tempo, em 1988, chegou a apresentar a explicitação das tendências e de suas propostas como elemento importante da democracia partidária.
Mas nenhuma história política permanece congelada.
O mundo mudou.
O Brasil mudou.
O PT mudou.
A própria Democracia Socialista mudou.
Vieram a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética, as derrotas eleitorais, as vitórias, a chegada da esquerda a governos importantes e, posteriormente, ao Palácio do Planalto.
Vieram também divisões.
Em 2004, parte da militância ligada à história da DS deixou o PT e participou do processo político que se relacionaria ao PSOL, enquanto outro setor permaneceu no Partido dos Trabalhadores. A corrente continuou existindo dentro do PT e passou por diferentes articulações internas ao longo dos anos seguintes.
Tudo isso pertence à história política.
A história que os documentos não guardam
Mas este texto não nasceu apenas para contar história.
Ele nasceu por causa de uma promessa.
E talvez seja por isso que, enquanto escrevo sobre congressos, tendências, estratégias e disputas ideológicas, minha cabeça volte constantemente para aquela rua onde nos encontramos pela última vez.
Eu queria ter perguntado a você sobre tudo isso.
Queria saber como essas grandes formulações apareciam na vida concreta de quem militava longe dos grandes congressos nacionais.
Queria saber das reuniões.
Das discussões.
Das divergências.
Dos companheiros.
Das campanhas feitas com quase nada.
Dos jornais carregados debaixo do braço.
Das noites intermináveis debatendo política.
Das vitórias que pareciam mudar o mundo.
Das derrotas que obrigavam a começar novamente no dia seguinte.
Porque existe a história escrita nos documentos e existe outra história que quase nunca chega aos arquivos.
“A história contada por quem estava lá.”
Essa segunda eu perdi a oportunidade de ouvir.
E isso me dói.
Talvez você discordasse de partes deste artigo. Talvez corrigisse datas. Talvez dissesse que determinada interpretação não representa exatamente aquilo que vocês pensavam. Talvez começássemos uma discussão que atravessaria a tarde.
Eu gostaria que isso pudesse acontecer.
Hoje percebo que a maior riqueza daquela conversa que planejávamos não estaria necessariamente nas respostas.
Estaria na possibilidade de ouvir.
Quando a pesquisa se transforma em despedida
No final de 1995, ao fazer mais um balanço de sua trajetória, a Democracia Socialista reafirmava alguns objetivos: manter a independência política do PT, fortalecer sua relação com setores populares e desenvolver uma corrente que se definia como socialista, democrática, feminista e ecológica.
Décadas depois, é possível analisar essas ideias à luz do que aconteceu, observar o que permaneceu, o que fracassou, o que mudou e o que a própria história tornou ultrapassado.
Esse é o direito das gerações seguintes.
Nenhuma tradição política deve ser transformada em peça de museu nem protegida da crítica.
Mas existe algo que merece respeito mesmo entre pessoas que pensam de maneiras completamente diferentes: a disposição de dedicar parte da própria vida a uma ideia de sociedade e acreditar que a política pode ser mais do que a simples procura por cargos, vantagens ou poder pessoal.
Foi pensando nisso que finalmente sentei para escrever.
O artigo que deveria nascer de uma conversa nasceu de uma ausência.
A entrevista virou homenagem.
A pesquisa virou despedida.
E a promessa, que durante tanto tempo parecia apenas adiada, passou a carregar um peso completamente diferente.
Não sei quantas vezes ainda vou lembrar daquele último encontro e pensar que poderia ter dito: “vamos conversar hoje”.
Provavelmente muitas.
A vida tem essa estranha crueldade de revelar o valor de certas horas somente quando elas já não estão disponíveis.
O tempo
Por isso termino sem conclusões grandiosas sobre socialismo, partidos ou revoluções.
Termino falando sobre algo menor e, talvez justamente por isso, muito maior.
Não temos tanto quanto imaginamos.
Os cafés adiados acumulam-se.
As perguntas não feitas desaparecem com quem poderia respondê-las.
Os abraços ficam para uma próxima oportunidade que ninguém nos garantiu.
E algumas conversas acabam sendo realizadas de uma maneira que jamais planejamos.
A nossa foi assim.
Você não está aqui para me dizer se fiz justiça à história que queria contar.
Mas eu estou aqui para cumprir aquilo que lhe prometi.
Demorei.
Demorei mais do que deveria.
E jamais imaginei que precisaria terminar esse texto dessa maneira.
Mas promessa é promessa.
“Aqui está o trabalho, companheiro.”
E onde quer que a memória dos bons amigos encontre morada, espero que finalmente possamos considerar encerrada aquela conversa que deixamos marcada para depois.
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