ARTIGO • POLÍTICA • BRASIL
Marcelo Seráfico e José Alcimar*
“A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações do passado – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio.”
— Eric Hobsbawm
Começamos por dizer que a afirmação do velho historiador marxista Eric Hobsbawm, que escolhemos como epígrafe, aplica-se com maior força e sentido cortante à terceira década do século em curso do que à década final do século XX, como ele escreveu. Notadamente na quadra histórica em que vivemos, de retração das lutas coletivas, do avanço do individualismo reforçado pelo discurso ideológico da meritocracia, do gerenciamento neoliberal da existência. Tempos de obscurantismo cognitivo, de afronta à cultura, de ódio ao pensamento, de criminalização da política, de falsificação da história e de destruição da memória.
Como retomar o projeto, como escrevia o velho Kant no final do século XVIII, de promover o avanço do esclarecimento como afirmação, ou melhor, como determinação original da natureza humana? Nesses tempos de ostensiva misologia, a estupidez, potencializada pelas redes digitais, converteu-se – não é demais dizer – num projeto de mistificação global. Teríamos, no século XXI, chegado à fase sem volta de reversão das conquistas da razão iluminista?
Soberania, memória e crise nacional
O quadro social e político do Brasil hoje dá sinais, a quem ainda cultiva a arte do pensamento e lê a realidade com os olhos e as armas da crítica, de que essa reversão gradativamente se alarga, socialmente se enraíza e resiste ao que ainda resta de reservas do chamado bom senso cartesiano, inclusive. A ignorância tornou-se bélica, avassala e atravessa todas as classes sociais. Hoje, estranhamente, abrigamos a figura social do patriotismo reverso, do patriota apartado da nação. O território da pátria é definido pelo capital sem pátria. A questão da soberania – a mais grave da história do Brasil em todos os tempos – é uma boa medida para pensar o modelo antinômico do patriotismo lesa-pátria defendido pela extrema direita brasileira. Não há comparação com 1964, 1968, 2016, 2018 e 2022, para resumir a história recente em marcos cronopolíticos. Se houver instrumento de medida política, estamos em ritmo de decréscimo do coeficiente de soberania.
O Brasil de 2026 está diante de uma conjugação de crises das mais intensas e abrangentes: à crise de soberania soma-se a crise social, a crise política, a crise ambiental, a crise institucional e, é preciso reconhecer, a crise epistemológica, porque esse feixe de crises demanda uma compreensão dialética do todo. Para além da disputa teórica entre Hegel e Adorno – o primeiro a dizer que a verdade é o todo, e o segundo que o todo é o falso –, preferimos afirmar que no todo também se abrigam, em diferentes medidas, tanto a verdade quanto o falso.
Além do mais, coube-nos viver pisando a terra e sob o céu cinzento dessa Manaus bela, contraditória e tão maltratada pelo capital. Cidade atravessada por degradada desigualdade social, que respira fumaça, com um clima quente, úmido e muito diferente do clima temperado europeu, que abrigou os dois insignes pensadores do todo, o da grande dialética e o da dialética negativa.
O centro da reflexão: sob o controle de mãos nada invisíveis, nem disfarçadamente limpas, do mercado financeiro, porque ostensivamente visíveis e sujas, o Brasil e o mundo encontram-se sob o cerco da fase mais bélica do capitalismo e em meio à disputa por hegemonia entre o Império do Norte e o Império do Meio.
País estratégico nessa disputa, o desafio maior do Brasil de hoje, a considerar as próximas eleições presidenciais, está em afirmar o longo e necessário caminho da soberania.
A encruzilhada de 2026
Nessas eleições, mais do que um governo, o que está em questão é saber se o Brasil continuará como nação soberana ou sucumbirá à condição de colônia, quintal do Império do Norte. Ou, mesmo sem ameaça bélica e imperialista, em mera reserva estratégica de recursos naturais para o Império do Meio. A Venezuela está aqui ao lado e Cuba um pouco mais acima. Nessa fase do imperialismo, do neoextrativismo, o Brasil ainda resta como única atalaia de resistência ao belicismo capitalista contra a América Latina e Caribenha. O grande projeto da extrema direita, que conta com vasto financiamento do Império do Norte, é fazer uma faxina ideológica no Sul Global. Resta saber se nessa belicista geopolítica toda essa área cabe no quintal de alguma potência.
Como procedemos da Filosofia e das Ciências Sociais, que trabalham com a complexidade humana das relações sociais, podemos estar equivocados na análise, mas pensamos que essas eleições presidenciais de 2026 serão decisivas para o futuro do Brasil e poderão ser decididas por uma diferença mínima de votos. A questão é que dessa diferença mínima resultarão dois rumos absolutamente definidos para o Brasil. O país está diante de um bívio político:
1) o fim do Brasil como Estado soberano se a extrema direita vencer;
2) a garantia de que ainda poderemos manter o Brasil como projeto soberano de nação com a vitória de uma frente do centro para a esquerda.
Do Brasil que resultar daí, do embate entre o Brasil da Silva e o Brasil Faria Lima, vai depender nosso futuro político no curto e médio prazo. O longo entregamos a Deus, ou aos Deuses. Mas sem catastrofismo, porque acreditamos que a história é um campo de forças em aberto.
Longe de nós pensar que a vitória eleitoral do Brasil da Silva sobre o Brasil Faria Lima abrirá as portas do paraíso para a classe trabalhadora. No máximo, teremos garantido algum fôlego para respirar e guardar alguma distância do inferno. Um tipo de purgatório? Talvez. Desde que purgatório aqui não seja confundido com a fraude política da chamada terceira via.
Em síntese: não há espaço para neutralidade ou terceira via. O que houver da tal terceira via abrigar-se-á, em escalas distintas, em uma das duas vias em confronto, ou melhor, em guerra desigual, o que é muito diferente de polarização, que pressupõe uma disputa democrática, mesmo sob os limites da democracia burguesa.
A dissolução do Estado nacional
Nossa intenção, neste texto pensado e escrito a quatro mãos e duas mentes, é dizer que o processo eleitoral de 2026 revela problemas gravíssimos para os quais não há solução simples. Soluções simples travam o pensamento e costumam dar em desastre. Mas achamos, ao pensar no Brasil imerso nessa crise, que uma questão política pode resumir esse feixe de problemas: a dissolução do Estado nacional.
E esse processo não se iniciou agora. Seu início remonta ao governo Collor de Mello, aprofundou-se excepcionalmente com FHC, não foi interditado pelos governos do PT e quase se consumou com Temer e Bolsonaro. Lula, nesses quatro anos, pouco fez para reverter essa tendência, tendo se concentrado em restaurar alguma proteção social a certas camadas sociais. O que não é pouco, mas ainda muito longe do que pensamos como indispensável para construir um projeto soberano de Nação.
Lula tem sido um estadista para o mundo, não tanto para o país. Aqui, ele não reverte o neoliberalismo e imprime outro rumo ao Estado. Isso, evidentemente, não se deve apenas a ele, mas ao fato de que governa um Estado cuja lógica – o tripé macroeconômico – está divorciada da sociedade nacional e profundamente articulada às forças da globalização neoliberal. Noutros termos: às finanças e às big techs.
Se escapamos à ditadura política no campo da ordem institucional interna, o mesmo não podemos dizer em relação ao Estado e à ordem econômica: para recorrer ao que Marx e Engels escreveram no Manifesto, o executivo do Estado continua sob tutela — eufemismo para ditadura — do grande capital e funciona como um comitê que gerencia os interesses da burguesia.
A sociedade política nacional, isto é, os poderes da República mais os partidos, não guarda mais identidade alguma com a maioria dos cidadãos do país, pois boa parte das leis a que responde e que “protege” assegura os interesses de setores desenraizados, desterritorializados, independentes da economia real em termos de acumulação, mas dependentes das matérias-primas nacionais em termos de reprodução material.
Daí a combinação entre a doutrina Donroe, a manipulação das big techs e a especulação financeira como armas da guerra híbrida travada em escala mundial.
Capital, justiça e poder
As forças mediáticas corporativas integram essa engrenagem e têm lado ideológico nesse jogo, quer de forma envergonhada ou aberta. Na disputa entre capital e trabalho não há isenção ou mediania, com a devida vênia do grande Aristóteles.
Às vezes temos que voltar às velhas e óbvias perguntas: o que é o STF num Estado burguês? Qual é a medida da justiça burguesa? Outra não é senão a medida da venalidade.
O capital, segundo Marx, instaurou “o tempo da corrupção geral, da venalidade universal, ou, falando em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, ao converter-se em valor venal, é levada ao mercado para ser apreciada no seu mais justo valor”.
O mercado, então, dizemos, é a instância que estabelece a medida do justo.
É envenenada por essa medida desumana que a burguesia brasileira protesta contra um parco reajuste de R$ 91 no Bolsa Família. É preciso denunciar essa hipocrisia. O que caracteriza a ideologia jurídica do Estado burguês é a apartação entre direito e justiça. Nessa apartação, o direito à propriedade, que para Proudhon é um roubo, se sobrepõe aos direitos dos pobres e fundamenta o princípio capitalista do lucro acima da vida.
Entre a crise e a resistência
O quadro é extremamente complexo e a eleição de Lula pode nos dar, pelo menos, algum tempo para imaginar a saída e quem sabe até para avançar em algum tipo de organização supranacional. O BRICS, se extrapolar os interesses das elites dos países que o compõem, pode ser um caminho.
Mas notem, nenhum poder da República parece ter poder algum, no sentido institucional. O caso Vorcaro é emblemático. A dita elite é parte ativa dessa “vorcarização” do Estado.
Para nós, em meio à fumaça ambiental e àquela mais perigosa e inimiga dos interesses do povo – a fumaça ideológica –, uma das instituições mais desacreditadas do país é a grande imprensa, que gosta de se apresentar como fiadora da democracia. Que democracia? Pode haver democracia sem que o povo detenha poder? Nem mesmo poder eleitoral, programado para envenenar a cabeça do povo com a ideia de que ele governa quando vota. Na dúvida, consultar o Escute, Zé-Ninguém!, de Wilhelm Reich.
“Para existir é preciso resistir. Mesmo sem esperança, para pensar com Sartre, é preciso agir. Porque só do agir pode nascer alguma esperança.”
Trata-se, então, de uma crise muito profunda. Durkheim qualificaria essa situação de “anomia”. A julgar pelo fato de que sequer é possível tratar de questões públicas em público sem algum risco, hoje parece-nos que as regras mínimas de convivência e de sociabilidade estão se esgarçando.
Sempre torcemos para estar errados quando vemos uma realidade assim tão distópica. O pior é abandonar as armas da crítica e, por omissão, fortalecer a crítica das armas. Para existir é preciso resistir. Mesmo sem esperança, para pensar com Sartre, é preciso agir. Porque só do agir pode nascer alguma esperança.
SOBRE OS AUTORES
Marcelo Seráfico, professor do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas, e José Alcimar, professor do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Ambos apostam no iluminismo e trabalham em defesa da ampliação do espaço público da razão. Setembro de 2026.
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Artigo de Marcelo Seráfico e José Alcimar




