
Elomar: O Canto Erudito que Devolveu ao Sertão a sua Realeza
Menestrel, arquiteto e guardião de uma aristocracia que não depende de berço, mas de pertencimento.
Aproxime-se. Deixe, por um instante, o ruído frenético das metrópoles e o brilho sintético das telas que sequestram o olhar. Existe um Brasil que não cabe em algoritmos: um país de silêncios povoados, de sombras longas sob o sol que racha a alma, onde o barro se faz carne e o vento sopra saudades medievais. É nesse território que reside Elomar Figueira Mello — menestrel, arquiteto de formação e de espírito, guardião de uma aristocracia que não depende de berço, mas de pertencimento.
O menestrel que edifica
Nascido em 1937, em Vitória da Conquista, Elomar não apenas compõe. Ele edifica. Enquanto a indústria dos anos 60 e 70 se embriagava com a eletricidade da Tropícalia ou o asfalto do samba-canção, ele deu um passo atrás — ou um salto para dentro. Escolheu a solidão do vaqueiro, o tempo suspenso do aboio, a dignidade trágica do sertanejo. Trouxe para a viola o rigor de Bach e a elegância de um menestrel que cruzou o oceano carregando um alaúde invisível. Suas “óperas sertanejas”, como o magistral O Auto da Catingueira, vestem a estrutura da cantata e da suíte com o couro do gibão. O sertão dialoga com o barroco europeu com a naturalidade de dois velhos amigos que se encontram numa encruzilhada de poeira.
A língua, o recolhimento, o farol
Sua língua é dialeto próprio: um português arcaico, quase litúrgico, que resgata a pureza de uma civilização que o Brasil oficial insiste em esquecer. Quando Elomar canta, não emite apenas sons — lê um manuscrito sonoro de honra, fé, exílio e daquela transcendência que só quem viu o milagre da chuva após a seca consegue compreender. No auge do que poderia ter sido uma carreira comercial, escolheu o recolhimento voluntário na Fazenda Casa dos Carneiros. Não por arrogância, mas por fidelidade. Entendeu, antes de todos, que a arte verdadeira precisa de tempo para maturar, longe das luzes que cegam a inspiração. Esse isolamento não o apagou: transformou-o em farol. O “Mestre da Caatinga” prova que a erudição não é diploma, mas profundidade de alma. O universal é o local sem fronteiras.
“Minha obra é alguma coisa; eu não sou nada.”
Elomar Figueira Mello
Hoje, em um mundo saturado de entretenimento efêmero, a obra de Elomar permanece como rocha de quartzo sob o sol. Sua viola é arma moral. Seu canto devolve ao sertão a realeza que lhe pertence por direito ancestral.
Uma Noite na Taberna
E é precisamente essa obra — e o homem que a ergueu — que a Academia Conquistense de Letras celebra nesta terça-feira, 29 de setembro de 2026. Às 17 horas, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, a Academia convida para Uma Noite na Taberna, sarau que marca a outorga do título de Doutor Honoris Causa a Elomar Figueira Mello. A gestão 2026-2028 presta, assim, homenagem também a Carlos Jehovah, num gesto de continuidade e reconhecimento.
Serviço
Uma Noite na Taberna
Data: terça-feira, 29 de setembro de 2026
Horário: 17 horas
Local: Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima
Acesso: exclusivo para convidados — convite individual e intransferível, com confirmação obrigatória
Coordenação e produção: Rossane Comunicação & Cultura
Que tenhamos a sabedoria de escutá-lo. Enquanto houver Elomar, o sertão não será apenas lugar de seca, mas a nascente de toda a nossa grandeza. Nesta noite de taberna, sob a luz de uma lamparina simbólica, o canto erudito encontra o seu devido trono. E a realeza do sertão, finalmente, é coroada.
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Por Padre Carlos
[Cargo / Academia / Veículo] · Vitória da Conquista, Bahia



