OTTO ALENCAR E ANGELO CORONEL: QUANDO A POLÍTICA CHEGA AO FIM DE UMA AMIZADE
Padre Carlos
Há momentos na política em que as palavras dizem uma coisa, mas os fatos contam uma história muito maior. A saída de Angelo Coronel do PSD e seu ingresso no campo da oposição baiana é um desses episódios. E talvez seja justamente por isso que a entrevista de Otto Alencar, ao explicar o rompimento, mereça ser lida não apenas como uma prestação de contas política, mas como um retrato do caráter de um homem que há décadas ocupa lugar central na política da Bahia.
Otto foi direto. Disse que tentou encontrar uma saída para que Angelo Coronel permanecesse no PSD. Disse também que a maioria dos deputados federais e estaduais não queria que o partido rompesse a aliança com o grupo governista, porque o PSD trabalha com a expectativa de eleger uma bancada expressiva — sete deputados federais e entre dez e onze estaduais. Uma mudança de rota, portanto, não seria apenas uma decisão pessoal: poderia alterar a estratégia eleitoral de toda a legenda.
“Eu tentei ver se encontrava uma saída para que o Angelo Coronel ficasse, mas ele também não fez caminho para isso.”
— Otto Alencar
E aqui está o primeiro ponto que merece ser reconhecido.
O partido não é propriedade de ninguém
Otto não tratou a política como se o partido fosse propriedade de um senador. Ele colocou sobre a mesa os interesses coletivos da legenda. A política partidária, afinal, não se resume ao desejo individual de uma candidatura. Existe bancada, existem prefeitos, vereadores, deputados, alianças, projetos e milhares de votos envolvidos.
Foi nesse contexto que Otto afirmou ter procurado uma saída para manter Coronel no partido.
Mas há uma segunda parte da história — talvez ainda mais importante.
Segundo o próprio Otto, Angelo Coronel já vinha fazendo seu próprio caminho. Não foi simplesmente alguém empurrado para fora da porta. Havia uma trajetória política que, aos poucos, conduzia para outro lado.
O senador baiano foi eleito em 2018 dentro de uma ampla aliança que reunia PSD, PT e outras forças políticas. Otto lembra que Coronel contou naquele momento com seu apoio, com o apoio de Rui Costa e de Jaques Wagner, além de ter vestido a camisa da candidatura de Lula.
Mas, depois de chegar ao Senado, sua trajetória política tomou outra direção.
Otto afirma que Coronel se aproximou de Jair Bolsonaro, enquanto ele próprio permaneceu na oposição ao então presidente. Não se trata aqui de discutir se uma posição política é moralmente superior à outra. Trata-se de constatar uma mudança de trajetória.
E essa mudança é fundamental para compreender o rompimento.
Dois caminhos que deixaram de ser um só
Em janeiro de 2026, Otto já havia declarado publicamente que o PSD permaneceria na aliança com Jerônimo Rodrigues mesmo que Angelo Coronel não estivesse na chapa majoritária.
Pouco depois, vieram os movimentos de Coronel para tentar alterar a posição do PSD na Bahia. Otto confirmou que houve uma articulação nacional envolvendo o presidente do PSD, Gilberto Kassab, para discutir uma mudança do partido baiano em direção à oposição.
Ou seja: não foi simplesmente Otto que abriu a porta para Coronel sair.
Coronel também já estava caminhando em direção à porta.
E isso muda completamente a narrativa.
É preciso reconhecer que Angelo Coronel tinha razões políticas próprias. Ele queria disputar novamente o Senado e precisava encontrar um espaço na chapa majoritária. Quando esse espaço deixou de existir dentro da composição governista, escolheu outro caminho.
É legítimo.
Política também é escolha.
Mas também é legítimo que Otto Alencar faça outra escolha.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Otto decidiu permanecer na aliança construída pelo PSD na Bahia. Coronel decidiu procurar outro caminho.
O caráter aparece quando o amigo vai embora
Não há necessidade de transformar uma divergência política em guerra pessoal.
Aliás, talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais interessante do comportamento de Otto.
Na entrevista mais recente, ele fez questão de dizer que não guarda ódio, rancor ou ressentimento. Falou inclusive sobre o ensinamento bíblico de que o ódio escraviza e o perdão liberta.
Essa frase pode parecer apenas uma manifestação religiosa ou pessoal. Eu, particularmente, vejo nela algo maior.
“O ódio escraviza e o perdão liberta as pessoas.”
Otto Alencar
Na política brasileira, temos assistido muitas vezes à transformação de adversários políticos em inimigos pessoais. Rompe-se uma aliança e imediatamente começa a destruição da biografia do antigo companheiro.
Otto não seguiu esse caminho.
Mesmo diante de um rompimento com alguém que foi seu aliado, amigo e compadre por décadas, preferiu dizer que cada um tomou seu rumo.
E talvez seja essa a verdadeira medida do caráter político.
Caráter não aparece somente quando estamos cercados de amigos.
O caráter aparece quando um amigo deixa de caminhar conosco.
Angelo Coronel, por sua vez, também deixou registrada sua versão. Em agosto, afirmou que o rompimento com Otto não foi saudável e lembrou que havia uma relação de quase quatro décadas entre os dois.
Isso mostra que não estamos diante de uma simples disputa eleitoral.
Estamos diante do fim de uma relação política e pessoal construída ao longo de muitos anos.
E relações assim não terminam de uma hora para outra.
Elas acumulam divergências, escolhas diferentes, projetos distintos e, finalmente, chegam ao ponto em que continuar juntos passa a ser mais difícil do que seguir caminhos separados.
A política não pode falsificar a história
É preciso também reconhecer outra coisa.
Otto não poderia obrigar Angelo Coronel a permanecer no PSD.
Da mesma forma, Angelo Coronel não poderia obrigar o PSD a abandonar sua estratégia para acomodar uma candidatura individual.
A democracia partidária é justamente esse espaço de conflitos, negociações e decisões.
O que me parece importante é não falsificar a história.
Não é correto contar que Angelo Coronel simplesmente foi expulso de um partido do qual pretendia permanecer eternamente.
Também não é correto dizer que Otto simplesmente decidiu abandonar um velho aliado sem antes tentar encontrar uma saída.
As declarações públicas dos dois lados mostram uma história muito mais complexa.
Otto afirma que tentou preservar Coronel.
Coronel afirma que se sentiu deixado de lado.
Otto diz que Coronel vinha construindo outro caminho.
Coronel diz que tinha direito ao espaço que buscava.
As duas narrativas fazem parte da história.
Mas há um fato incontornável: em 31 de janeiro de 2026, Angelo Coronel confirmou sua saída do PSD e, posteriormente, passou ao Republicanos, integrando o campo oposicionista.
Quando a política resolve o que a amizade não conseguiu
A política resolveu aquilo que a amizade não conseguiu resolver.
E talvez essa seja uma das grandes lições desse episódio.
Não existe partido sem disciplina.
Não existe aliança sem compromisso.
Não existe candidatura sem espaço político.
E não existe amizade política que possa sobreviver indefinidamente quando os projetos eleitorais caminham em direções opostas.
Otto Alencar fez sua escolha.
Angelo Coronel fez a dele.
Um permaneceu no projeto que havia construído com o PSD e com a base governista. O outro procurou uma nova casa política para disputar sua reeleição.
Não vejo necessidade de ódio nessa história.
Nem de vingança.
Nem de humilhação.
Política é disputa, mas política também é convivência.
Amanhã, os adversários de hoje podem voltar a conversar. A história brasileira está cheia desses reencontros.
Por isso, quando Otto diz que não guarda rancor, talvez esteja oferecendo uma das mais importantes lições desse episódio.
Pode-se discordar.
Pode-se romper.
Pode-se mudar de partido.
Pode-se mudar de lado.
Pode-se disputar o mesmo cargo.
Mas não é necessário destruir o outro para justificar a própria escolha.
No fim das contas, cada homem público será julgado menos pelo discurso que fez no dia do rompimento e mais pela maneira como conduziu sua caminhada.
E, nessa história, o tempo ainda terá muito a dizer.
Padre Carlos
Articulista — Política e Resenha
#OttoAlencar
#AngeloCoronel
#PSD
#PolíticaBaiana
#Política
#Bahia




