Política e Resenha

ELEIÇÃO DA MESA DIRETORA TERÁ CHAPA ÚNICA E PODE MARCAR REELEIÇÃO INÉDITA NA CÂMARA

ARTIGO

A Câmara diante de um momento histórico: Ivan Cordeiro e a força do diálogo

Por Padre Carlos

Há eleições que são disputadas nas urnas. Outras são construídas muito antes de o eleitor ou, no caso do Legislativo, o vereador chegar diante da urna para declarar o seu voto. A eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, marcada para esta sexta-feira, 2 de outubro, pertence a essa segunda categoria.

O que está diante dos conquistenses não é apenas a escolha da direção da Câmara para o biênio 2027/2028. É também o resultado de uma construção política que, gostemos ou não das posições individuais dos seus protagonistas, merece ser observada com atenção: uma chapa única, reunindo vereadores de diferentes partidos e correntes políticas, com Ivan Cordeiro novamente à frente da disputa pela Presidência.

A própria Câmara confirma que não houve registro de uma segunda chapa dentro do prazo estabelecido. A votação será aberta e os vereadores declararão individualmente seus votos.

É importante fazer uma distinção. Chapa única não significa unanimidade automática. A decisão formal ainda será tomada pelo plenário. Mas a existência de uma única composição, construída com representantes de diferentes espaços políticos, é um dado concreto sobre o ambiente de articulação que antecede a eleição.

“A política democrática não exige que as pessoas pensem da mesma maneira. Exige que pessoas que pensam diferente sejam capazes de construir acordos institucionais quando existe interesse público envolvido.”

A força política do diálogo

E aqui está, talvez, o principal aspecto político desse processo.

Ivan Cordeiro conseguiu fazer aquilo que nem sempre é fácil dentro da política: conversar com quem pensa diferente.

A nova composição reúne Edivaldo Ferreira Júnior, do PSDB; Léia Meira, do PSD; Ricardo Gordo, do PSB; Ricardo Babão, do PCdoB; Cris Rocha, do MDB; e Adinilson Pereira, do União Brasil, além do próprio Ivan, do PL.

Não é uma fotografia de um único campo político.

É uma fotografia de uma Câmara plural.

E talvez seja justamente aí que esteja a principal marca desse processo.

Não porque elimine as diferenças.
Mas porque demonstra que as diferenças podem conviver dentro de uma instituição democrática.

Vitória da Conquista conhece bem a intensidade das disputas políticas. A cidade possui uma vida partidária marcada por diferenças ideológicas, projetos distintos e visões muitas vezes antagônicas sobre os caminhos do município. Por isso, uma composição que atravessa fronteiras partidárias chama atenção.

Não porque elimine as diferenças.

Mas porque demonstra que as diferenças podem conviver dentro de uma instituição democrática.

Uma Câmara plural

Durante a sessão que antecedeu a eleição, diversos vereadores fizeram manifestações públicas sobre a condução de Ivan Cordeiro. Ricardo Gordo destacou o diálogo com vereadores e setores da sociedade. Ricardo Babão relacionou o apoio à forma como os parlamentares foram tratados durante o primeiro biênio. Fernando Jacaré ressaltou a convivência entre vereadores que possuem disputas ideológicas. Márcio de Vivi afirmou que, mesmo não tendo votado em Ivan na eleição anterior, não teria sido tratado de maneira diferente pelo presidente.

Esses depoimentos são importantes porque ajudam a compreender o processo para além da matemática dos votos.

Em janeiro de 2025, Ivan Cordeiro foi eleito presidente para o primeiro biênio da atual legislatura com 15 dos 23 votos. Agora, pouco menos de dois anos depois, apresenta-se para uma recondução em uma chapa única.

A diferença entre os dois momentos diz muito sobre a política interna da Câmara.

Na primeira eleição, houve disputa de votos dentro de uma composição que também tinha apenas uma chapa registrada. Agora, a construção da nova Mesa ampliou a participação partidária e incorporou sete cargos: Presidência, três Vice-Presidências e três Secretarias.

Também existe outro aspecto que não deveria passar despercebido: a presença de duas mulheres na nova composição, Léia Meira e Cris Rocha, respectivamente na 2ª Vice-Presidência e na 2ª Secretaria.

O desafio depois da eleição

Isso significa que a eleição de amanhã carrega mais de uma novidade.

É uma mudança institucional, porque a reforma da Lei Orgânica e do Regimento Interno passou a permitir a recondução do presidente para um segundo biênio consecutivo.

É uma mudança na estrutura da Mesa, que passa de cinco para sete integrantes.

E é uma mudança política na composição, porque diferentes forças partidárias estarão representadas no comando da Casa.

Mas existe uma pergunta que o futuro responderá: o que Ivan Cordeiro fará com a força política que construiu?

Porque construir consenso é uma coisa. Administrá-lo é outra.

Uma Mesa Diretora que nasce de uma composição ampla terá diante de si a responsabilidade de preservar aquilo que tornou possível sua própria formação: o diálogo.

E aqui está o verdadeiro teste de uma liderança parlamentar.

Não é conseguir fazer todos pensarem como o presidente.
É conseguir fazer com que todos tenham espaço para continuar pensando diferente.

Uma Câmara Municipal não pode ser transformada em extensão de nenhum grupo político. Sua razão de existir é outra: fiscalizar o Executivo, produzir leis, ouvir a sociedade e representar os diferentes interesses da população.

Por isso, a eventual recondução de Ivan Cordeiro — caso confirmada pelo plenário nesta sexta-feira — não deveria ser interpretada simplesmente como vitória de um grupo sobre outro.

O fato politicamente mais interessante é outro: a capacidade de construir uma maioria suficientemente ampla para reunir, na mesma Mesa, representantes de campos políticos distintos.

Da direita à esquerda: o ponto de convergência

Da direita à esquerda, usando uma linguagem que pertence ao nosso cotidiano político, a Câmara parece ter encontrado um ponto de convergência.

Não significa que direita e esquerda tenham deixado de existir.

Não significa que as divergências tenham desaparecido.

Significa que, naquele momento específico, diferentes vereadores encontraram uma fórmula comum para administrar o Legislativo.

E isso, em uma democracia, tem valor.

O presidente da Câmara não precisa ser unanimidade ideológica. Aliás, provavelmente não deveria ser.

Precisa ser capaz de presidir uma instituição onde a unanimidade não existe.

A responsabilidade de liderar

Ivan Cordeiro parece ter compreendido essa lógica ao insistir publicamente na ideia de diálogo e respeito às diferenças. Na própria Câmara, ele afirmou que o Legislativo é plural e divergente em pensamentos partidários, políticos e ideológicos, mas que deve prevalecer o respeito às diferenças, o consenso e o diálogo.

É uma frase que merece ser cobrada na prática.

Porque a verdadeira dimensão de uma liderança não está apenas na capacidade de conquistar aliados. Está na capacidade de preservar a autonomia daqueles que foram conquistados pelo diálogo.

A eleição desta sexta-feira, portanto, poderá entrar para a história política de Vitória da Conquista por dois motivos.

Primeiro, porque poderá confirmar a primeira recondução de um presidente da Câmara para um segundo biênio consecutivo dentro da atual possibilidade regimental.

Segundo, porque poderá revelar uma experiência política pouco comum: uma Mesa Diretora construída sobre uma composição partidária bastante ampla.

O resultado formal será conhecido depois da votação. Mas uma coisa já pode ser observada antes mesmo de os vereadores declararem seus votos: Ivan Cordeiro chega à eleição tendo construído uma articulação que atravessou partidos, grupos e posições políticas diferentes.

E isso não aconteceu por decreto.

Aconteceu pela conversa.

A política brasileira anda precisando redescobrir essa palavra.

CONVERSA.

Porque democracia não é a arte de fazer o adversário desaparecer. É a capacidade de sentar à mesma mesa com quem pensa diferente e encontrar caminhos possíveis.

É isso que estará em julgamento político — ainda que não seja esse o objeto formal da votação — quando a Câmara Municipal de Vitória da Conquista abrir seus trabalhos nesta sexta-feira.

Mais do que escolher uma Mesa Diretora, os vereadores estarão diante de uma experiência de convivência política.

Se confirmada a recondução, Ivan Cordeiro terá recebido uma oportunidade histórica.

E oportunidades históricas também produzem responsabilidades históricas.

A história será escrita depois da votação

A Câmara de Vitória da Conquista continuará sendo plural, divergente e politicamente movimentada.

Que continue assim.

Porque uma Câmara sem divergência não é uma Câmara forte.

Uma Câmara sem divergência não é uma Câmara forte.
É uma Câmara sem vida.

O desafio de Ivan Cordeiro para o próximo biênio será exatamente este: transformar o consenso que construiu em diálogo permanente, a articulação política em independência institucional e a confiança dos seus pares em responsabilidade diante da população.

A eleição de amanhã pode ser histórica. Mas a história, no fim das contas, não será escrita apenas pelo resultado da votação.

Será escrita pela maneira como a nova Mesa exercerá o poder que recebeu.

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(Padre Carlos)

A gênese do poder é a verdade.