Política e Resenha

O grande golpe dos viadutos invisíveis

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Vitória da Conquista refém de promessas e à espera de respostas dos governos estadual e federal

Por Padre Carlos | Política e Resenha

Até quando o povo de Vitória da Conquista terá de implorar por obras essenciais à própria segurança? Até quando atravessar a cidade continuará sendo um exercício de paciência, medo e indignação, enquanto autoridades apresentam promessas como se fossem realizações? A espera pelos viadutos do Anel Rodoviário ultrapassou o limite do aceitável. O que deveria mobilizar governos em torno de uma solução tornou-se símbolo de uma política que anuncia muito, explica pouco e entrega menos do que a população precisa.

Há famílias dos dois lados da rodovia. Há trabalhadores tentando chegar ao emprego, estudantes a caminho da escola e comerciantes dependendo da circulação de pessoas. Quando uma intervenção dessa importância é adiada, a consequência chega à vida cotidiana. A demora tem custo, tem endereço e recai sobre quem precisa atravessar esses caminhos todos os dias.

Um anúncio sem processo

O histórico das promessas exige cobrança firme. Segundo reportagem publicada pelo Blog de Giorlando Lima em maio de 2026, Renan Filho, então ministro dos Transportes, havia anunciado, em reunião de 27 de maio de 2025, a construção de dois viadutos e a avaliação de um terceiro. O levantamento relatado pelo jornalista, feito mediante consulta ao Ministério dos Transportes e ao DNIT, não encontrou, naquele momento, documentação efetiva que encaminhasse a execução do compromisso. É uma distância inaceitável entre o anúncio público e a providência administrativa.

Uma promessa ministerial precisa resultar em processo, projeto, orçamento e prazo. Sem isso, a fotografia da reunião envelhece, o discurso desaparece e a população permanece exatamente onde estava: esperando.

Quem anunciou tem o dever de explicar o que fez. Quem comemorou tem a obrigação de cobrar o resultado.

A concessão também exige vigilância

A nova concessão também exige vigilância. A ANTT aprovou o edital da Rota 2 de Julho, com leilão previsto para 18 de dezembro de 2026, contrato de 30 anos e previsão de 306,6 quilômetros de duplicação. São números expressivos, mas Vitória da Conquista precisa saber, com precisão, como suas travessias urbanas serão atendidas.

Os números da Rota 2 de Julho

Leilão previsto para 18 de dezembro de 2026.

Contrato de 30 anos.

306,6 quilômetros de duplicação previstos.

Um pacote bilionário não dispensa respostas sobre cada problema concreto da cidade.

A cobrança que não começou agora

É nesse ponto que a luta do empresário José Maria Caires merece reconhecimento e espaço central nesta discussão.

À frente do movimento Duplica Sudoeste, Caires mantém uma cobrança que não começou agora. Registros da Prefeitura e da Câmara documentam sua participação em reuniões e articulações pela duplicação da BR-116 e por intervenções de segurança no Anel Rodoviário. Sua presença nessa mobilização revela persistência diante de uma pauta que atravessa governos e continua exigindo respostas.

Em fevereiro de 2026, reportagens registraram seu alerta de que os documentos da futura concessão não contemplavam explicitamente os viadutos reivindicados. Essa advertência precisa ser respondida com documentação atualizada e compromissos verificáveis. A pergunta permanece: onde estão previstos, quem vai construir e em que prazo serão entregues?

O mérito dessa luta está em não permitir que a cidade confunda expectativa com garantia. José Maria Caires ajuda a manter uma cobrança incômoda para o poder público e indispensável para a população. Sua insistência merece respaldo coletivo: entidades empresariais, associações de moradores, universidades, vereadores e parlamentares precisam transformar essa reivindicação em uma agenda permanente.

Não é razoável que a sociedade precise repetir durante anos aquilo que deveria estar resolvido no planejamento da infraestrutura regional. Tampouco é aceitável que um empresário e um movimento da sociedade civil tenham de sustentar uma pressão que deveria mobilizar, diariamente, todos os representantes eleitos da região.

O que cobrar dos governos

Ao governo federal cabe apresentar uma resposta objetiva sobre os compromissos anunciados e sobre o tratamento dessas intervenções na rodovia. Do governo estadual, deve-se exigir articulação política efetiva, participação na busca de recursos e uma posição pública sobre as soluções. Vitória da Conquista precisa de governos presentes na execução, com a mesma disposição demonstrada nas agendas públicas.

No âmbito municipal, Ivan Cordeiro acerta ao defender que investimentos de grande impacto sejam acompanhados de transparência e participação popular. Na discussão do financiamento de até R$ 400 milhões solicitado pela Prefeitura, o presidente da Câmara ressaltou que a autorização não poderia representar um cheque em branco. É importante esclarecer que essa proposta abrange diferentes áreas de infraestrutura, mobilidade e saneamento; não corresponde, por si só, a uma verba exclusiva para os viadutos.

Ainda assim, o princípio precisa ser afirmado com toda a firmeza: endividar o município para viabilizar essas intervenções deve ser a última alternativa, depois de uma cobrança rigorosa por recursos federais, emendas de bancada e cooperação estadual. A urgência da população não pode servir de atalho para transferir automaticamente a conta ao orçamento municipal.

A Câmara pode dar força institucional à mobilização de José Maria Caires e do Duplica Sudoeste: cobrar respostas formais, promover o confronto público entre promessas e documentos e acompanhar cada providência. Deputados e senadores precisam apresentar recursos e encaminhamentos. Reunião sem consequência não pode continuar sendo comemorada como vitória.

Agora, exige obra

A cidade tem o direito de exigir um cronograma público, com responsáveis identificados, fontes de financiamento e etapas verificáveis. Se há entraves, que sejam apresentados. Se faltam projetos, que se diga quando ficarão prontos. Se os viadutos não estão assegurados na concessão, que se explique como serão viabilizados.

Vitória da Conquista já ofereceu tempo demais à promessa. Agora, exige obra.

A luta de José Maria Caires precisa encontrar uma cidade inteira disposta a cobrar. Porque os viadutos podem continuar invisíveis nos cruzamentos, mas a responsabilidade de quem promete não pode desaparecer junto com eles.

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Padre Carlos

Colunista de Política e Resenha. Cobrança pública, documentos na mesa e respostas verificáveis.