Política e Resenha

Hoje eu quase fui conversar com mainha

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Hoje eu quase fui conversar com mainha

Hoje, uma lembrança da juventude me visitou. Era uma construção na Pituba, da Paróquia Nossa Senhora da Luz. Naquele tempo, eu já morava no Areal, no Nordeste de Amaralina, mas trabalhava na Pituba. Não sei por que aquela imagem voltou justamente hoje. Voltou com a nitidez das coisas que julgávamos esquecidas e que, dentro da gente, continuaram esperando.

Meu primeiro pensamento foi simples:

— Vou contar isso a mainha.

E então me lembrei de novo de que a senhora morreu.

Faz vinte e dois anos.

Mas, naquele instante, antes que a realidade chegasse, eu ainda tinha mãe para procurar e uma lembrança para dividir com ela. Durante um segundo, a vida me devolveu uma possibilidade tão pequena e tão imensa: conversar com a senhora sobre uma coisa antiga, dessas que talvez só nós dois soubéssemos recordar do mesmo jeito.

Doeu perceber que eu já estava preparando uma conversa que não poderia acontecer.

Hoje eu queria muito ouvir sua voz. Queria começar um assunto sem importância, deixar que ele puxasse outro, perguntar se a senhora se lembrava daquela época. Queria ter o direito de não dizer nada extraordinário. Só conversar com minha mãe.

Foi então que pensei numa amiga que perdeu o filho há alguns anos e, de vez em quando, escreve para ele. Hoje compreendi melhor aquele gesto. Há palavras que continuam procurando a pessoa a quem pertencem, mesmo quando já não existe endereço para entregá-las.

Por isso escrevo.

Mainha,

Hoje senti tanta saudade que precisei me sentar com ela.

Lembrei daquela construção da Paróquia Nossa Senhora da Luz, na Pituba. A senhora se lembra? Eu já morava no Areal e trabalhava por lá. Foi dessa lembrança que nasceu a vontade de lhe contar alguma coisa. Quando percebi, estava novamente diante da sua ausência, sem saber onde colocar tudo o que queria dizer.

Tenho envelhecido, mainha. E há coisas que só agora começo a compreender.

Se eu pudesse retornar no tempo com a experiência que tenho hoje, plantaria mais sementes de verdade e de amor. Arrancaria com minhas próprias mãos, onde pudesse alcançar, o joio da mentira, da maldade, do racismo e do preconceito. Mas também olharia com mais cuidado para dentro de mim, para reconhecer aquilo que precisei mudar e demorei tanto a admitir.

Se o bom Deus me concedesse essa dádiva, eu buscaria errar menos. Seria mais humilde para escutar e menos demorado para pedir perdão. Repartiria melhor o pão e o tempo. Hoje sei que podemos oferecer muita coisa a alguém e, ainda assim, ficar devendo nossa presença.

Penso também na minha fé. Se eu tivesse compreendido sua força antes de deixar os ministérios, talvez tivesse atravessado de outra maneira os meus desencantos. Teria procurado permanecer mais perto do sofrimento da minha gente, escutar com mais paciência, enxugar as lágrimas que estivessem ao alcance das minhas mãos.

Eu não conseguiria impedir todas as dores, mainha. Hoje já sei disso. Mas poderia ter feito companhia a muita gente enquanto elas doíam.

E teria ficado mais tempo com a senhora, com meu pai e com minhas irmãs.

É difícil escrever isso.

A militância política ocupava os dias; a boemia da juventude esticava as noites. Havia tanta coisa acontecendo, tanta urgência, tanta certeza na minha cabeça. Eu queria participar do mundo e acreditava que, em casa, tudo continuaria me esperando.

Não entendia que uma tarde em família também acaba para sempre.

Se pudesse voltar, demoraria um pouco mais antes de sair. Sentaria sem olhar a hora. Prestaria atenção nas histórias repetidas, faria perguntas, guardaria melhor o som das respostas. Há tantas coisas sobre a senhora que hoje eu gostaria de saber e que, quando podia perguntar, nem imaginava que um dia me fariam falta.

Voltaria também à infância, ao cheiro do jasmim que brotava na frente da casa e de que a senhora tanto gostava. Talvez, naquele tempo, eu passasse por ele sem perceber. Hoje, para sentir aquele perfume perto da senhora, eu aceitaria percorrer todos os caminhos outra vez.

Lembro das Irmãs Mercedárias da Caridade chegando à igreja no final da tarde. Havia um balé sereno naquela caminhada. Eu gostaria de olhar de novo, com menos pressa, e compreender melhor a vida que acontecia ao nosso redor, o lugar de cada um, a responsabilidade que tínhamos uns pelos outros.

Queria ter sido mais presente e mais cuidadoso com tudo o que Deus me confiou.

Mas não posso fazer da saudade apenas um lugar de arrependimento. A senhora não está mais aqui, e eu ainda tenho pessoas a quem abraçar.

Por isso tento cuidar do que cresce perto de mim. Aprendo, com alguma dificuldade, a reconhecer minha pequenez, a aceitar que meu tempo também tem fim e que nem tudo pode ficar para depois.

Penso nas minhas filhas.

Quero acompanhar o crescimento delas, conhecer suas alegrias, escutar o que têm para contar. Quero que encontrem em mim alguém disponível para uma conversa comum. Tenho tentado não deixar que as preocupações me roubem esses encontros, porque agora sei o quanto a vida cabe neles.

Talvez seja essa uma maneira de continuar recebendo o amor da senhora: deixar que ele passe pelas minhas mãos e chegue até elas.

Hoje eu quase fui conversar com a senhora, mainha.

Lembrei de uma construção na Pituba e, de repente, senti falta de toda uma vida. Da casa, do jasmim, da juventude, daquilo que fomos quando ainda não sabíamos quanto tempo teríamos juntos.

Não sei como estas palavras chegam até a senhora. Entrego essa parte a Deus.

Por aqui, fico um pouco mais sentado. Ainda tenho coisas para contar.

Padre Carlos

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